Crítica | Não Solte! repete regras conhecidas de outros filmes
No fim, Não Solte! contribui pouco tanto como filme de confinamento quanto como filme de regras.
Não Solte! parece uma mistura de tantos filmes que, em determinados momentos, a sensação é quase de confusão. Não porque a narrativa seja complexa ou particularmente elaborada – muito pelo contrário. O problema é que determinadas situações provocam no espectador aquela sensação incômoda de “eu já vi isso em algum lugar”. Só que, neste caso, o problema é um pouco pior: não vimos aquilo em um único lugar. Vimos em vários.
É um verdadeiro jogo de espelhos, e talvez essa seja a característica mais marcante do filme de Alexandre Aja: a quantidade de referências que ele acumula sem conseguir transformá-las propriamente em uma identidade. Não Solte! é, antes de tudo, um “filme de regras”. E existe um tipo de cinema contemporâneo, especialmente dentro do terror, que reduziu a experiência cinematográfica a uma espécie de jogo. O aspecto lúdico passa a se sobrepor ao humano, ao psicológico e até ao estético.
O filme estabelece regras muito claras e o espectador passa boa parte do tempo prestando atenção em como elas são aplicadas, se estão sendo respeitadas e, principalmente, no que acontecerá caso alguém resolva quebrá-las. É uma maneira bastante específica de construir uma experiência cinematográfica. E também uma maneira bastante limitada.
Em Não Solte!, uma mãe interpretada por Halle Berry vive com os dois filhos em uma cabana isolada no meio de uma floresta. Segundo ela, o mundo acabou. Lá fora existe alguma coisa – uma ameaça cuja natureza o filme demora a esclarecer completamente – e a única maneira de sobreviver é permanecer conectado à casa por uma corda. Os personagens não podem simplesmente sair daquele espaço. A família precisa permanecer fisicamente ligada àquele pequeno universo enquanto enfrenta fome, frio e uma ameaça que parece, em momentos diferentes, psicológica, sobrenatural e até próxima do universo dos mortos-vivos.
Os dois meninos, porém, não enxergam a situação exatamente da mesma maneira. Um deles acredita mais na mãe e nas regras que ela estabeleceu; o outro começa a questioná-las e quer romper aquela ligação, literalmente cortar a corda que mantém os três presos em casa.
A premissa poderia render alguma coisa interessante. O problema é que Não Solte! estabelece suas regras cedo demais e depois fica – ele mesmo – preso a elas. E, quando o próprio filme se prende às regras que criou, passa a ter pouca coisa para fazer.
Isso fica particularmente evidente na estrutura do terror. O filme utiliza um expediente bastante comum no cinema de gênero contemporâneo: uma determinada situação é repetida várias vezes até atingir seu ápice e finalmente ser resolvida. A ameaça aparece, a ameaça desaparece; a ameaça volta, a ameaça cai; a ameaça volta novamente. E assim sucessivamente. Depois de vinte ou vinte e cinco minutos, você já entendeu perfeitamente o mecanismo. O problema é que o filme ainda precisa ocupar mais de uma hora de projeção.
Consequentemente, muitos dos sustos deixam de funcionar como sustos e passam a funcionar como reflexos condicionados do espectador. Você sabe que aquilo não será resolvido naquele momento. Não porque tenha descoberto alguma coisa particularmente sofisticada sobre a trama, mas porque sabe que ainda existe uma hora de filme pela frente. Então a ameaça aparece e você pensa: “Está bem, mas não vai ser agora”. E espera. É uma questão de tempo.
Essa fórmula, aliás, está espalhada pelo terror contemporâneo. Repete-se uma situação regularmente até que ela finalmente seja levada às últimas consequências. Não Solte! acrescenta a isso uma outra tendência bastante evidente dos últimos anos: a neurose do confinamento.
Desde a pandemia, o cinema produziu uma quantidade considerável de histórias sobre personagens confinados, famílias isoladas, casas transformadas em prisões e ameaças que existem do lado de fora. Não é difícil compreender de onde vem essa obsessão. O problema é que, em Não Solte!, o confinamento não funciona apenas como tema. Ele se transforma também em uma limitação narrativa.
Se os personagens não podem sair, a variação das situações fica necessariamente restrita. O filme precisa encontrar maneiras de produzir novas ameaças dentro do mesmo espaço, sem permitir que os personagens rompam de fato com as regras. E aí surgem ameaças um pouco falsas, porque o espectador já sabe que aquela situação não poderá chegar às últimas consequências naquele momento. A estrutura passa a girar em falso.
E a própria ideia da regra tampouco é particularmente original. O cinema de terror e fantasia dos últimos anos está cheio de histórias organizadas dessa maneira: não se mexa, não faça barulho, não olhe para determinada coisa, não abra determinada porta, não assista a determinada fita de vídeo. Desde O Chamado (2002), esse mecanismo está profundamente incorporado ao gênero. Quem vê muito cinema de terror olha para Não Solte! e tem a impressão de estar diante de um compilado de situações que já encontrou em outros filmes.
Há algo de M. Night Shyamalan em sua construção, principalmente nessa maneira de transformar uma situação aparentemente simples em um mistério cuja explicação depende de uma revelação posterior. Há também uma proximidade evidente com Os Observadores (2024), de Ishana Night Shyamalan, além de lembrar A Mulher no Jardim (2025) e mesmo Batem à Porta (2023), pela combinação de confinamento, família e uma ameaça cuja natureza permanece inicialmente ambígua. São filmes anteriores e posteriores a este, que se confundem entre si (o que só reforça esse caráter imitativo, de copiagem industrial, do cinema de terror contemporâneo).
E existe ainda uma característica bastante “shymalaniana”: o “segredo” (e que aqui seria obviamente um spoiler que deixaremos de lado). O problema é que os segredos de Não Solte! são segredos de polichinelo. Um espectador minimamente atento percebe muito cedo que a grande questão não é exatamente descobrir o que está acontecendo, mas determinar se aquilo que está acontecendo é psicológico ou sobrenatural. O filme tenta manter essa dúvida durante boa parte da projeção, mas, para mim, ela está muito clara desde o começo.
A virada que acontece no meio do filme torna a experiência um pouco menos desinteressante porque abre outras possibilidades para a narrativa. Só que ela também confirma o caráter excessivamente referencial do projeto. Não Solte! está sempre retomando procedimentos que o cinema de gênero já utilizou muitas vezes.
Talvez a maneira mais interessante de trabalhar essa história estivesse justamente na questão do ponto de vista. Afinal, temos uma mãe e dois filhos, e cada um deles pode interpretar aquela realidade de maneira diferente. O que a mãe acredita? O que um dos meninos acredita? O que o outro acredita? E, principalmente, aquilo que estamos vendo corresponde aos fatos ou ao ponto de vista de um dos personagens?
O filme chega perto dessa questão, especialmente na revelação final e numa última virada que depende justamente dessa dúvida. Mas trabalha o ponto de vista de maneira pouco refinada. Ele mistura tudo, faz uma espécie de maionese de percepções e não aproveita aquilo que poderia ser o aspecto mais rico de sua própria premissa.
Alexandre Aja é um bom diretor, um artesão competente da indústria. Mas está lidando com uma miscelânea de situações que o roteiro praticamente o obriga a administrar. Falta um ajuste fino de direção que estabeleça com clareza de que perspectiva estamos vendo determinada coisa. Em um momento, seria a realidade da mãe; em outro, a percepção de um dos filhos; depois, a do outro. Essa construção poderia tornar a experiência muito mais interessante.
No fim, Não Solte! contribui pouco tanto como filme de confinamento quanto como filme de regras. E mesmo a ideia de reduzir a experiência cinematográfica à aplicação de regras – que já é, em si, um certo empobrecimento da experiência do espectador, pois um filme não é um jogo de tabuleiro – já foi realizada de maneira muito mais engenhosa e original.
Não é um filme especialmente criativo, não apresenta um conceito novo e sua mistura de referências tampouco produz algo espetacular. Para quem não acompanha habitualmente o cinema de terror e fantasia, pode funcionar como uma sessão razoavelmente eficiente. Mas, para quem conhece bem o gênero, Não Solte! oferece principalmente a sensação de déjà-vu. Você assiste e pensa que já viu aquilo. E, neste caso, infelizmente, viu mesmo.