Lista | Dez filmes para ver depois de Cara-de-Barro se o terror do rosto que derrete ainda não saiu da sua cabeça
Gostou de Cara-de-Barro? Estes filmes de body horror e identidade levam ainda mais longe o medo de perder o próprio rosto.
Cara-de-Barro estreou nos cinemas brasileiros em 22 de outubro e assumiu a liderança da bilheteria nacional logo no primeiro fim de semana. O primeiro terror da DC Studios, dirigido por James Watkins com roteiro de Mike Flanagan, acompanha Matt Hagen, um ator em ascensão que tem o rosto destruído por um gângster de Gotham. Para voltar a trabalhar, ele aceita um tratamento experimental. O preço é um corpo que não obedece mais.
A seleção abaixo não se limita a monstros que mudam de forma. O critério foi outro: filmes em que o corpo vira campo de batalha da identidade, seja por ciência, vaidade, crueldade alheia ou pura biologia alienígena. Alguns são clássicos absolutos do body horror. Outros chegam ao mesmo lugar pelo drama. Todos ajudam a entender por que a história de Matt incomoda tanto.
Os Olhos sem Rosto (1960)
Antes de qualquer um desta lista, o francês Georges Franju já tinha filmado o pesadelo de um rosto perdido. Um cirurgião renomado provoca o acidente que desfigura a própria filha. Movido pela culpa, passa a sequestrar jovens para tentar transplantar o rosto delas no de Christiane, que vaga pela mansão escondida atrás de uma máscara branca e inexpressiva.
É o parente mais próximo de Cara-de-Barro em termos de premissa. A ciência promete devolver um rosto, cobra um custo humano altíssimo e nunca entrega o que prometeu. A diferença está no ponto de vista. Christiane não pediu nada. Ela é a vítima de alguém que decidiu, por ela, que sua aparência precisava ser consertada.
O Homem Invisível (2020)
Leigh Whannell pegou um monstro clássico da Universal e o transformou num filme sobre abuso doméstico. Cecilia, vivida por Elisabeth Moss, foge do namorado controlador. Pouco depois, ele aparece morto. Só que os cobertores começam a ser puxados durante a noite, o fogão liga sozinho e ninguém acredita nela.
O filme custou cerca de US$ 7 milhões e arrecadou mais de US$ 140 milhões no mundo. O que o liga a Cara-de-Barro é a sensação de perder o controle da própria vida para alguém que se esconde à vista de todos. A cena da tinta jogada no sótão, quando o invisível ganha contorno por um segundo, é das mais tensas do terror recente.
A Bolha Assassina (1988)
O remake de Chuck Russell, com roteiro coescrito por Frank Darabont, fracassou nas bilheterias e só virou cult depois, no circuito das locadoras. A criatura gelatinosa não tem rosto, motivação ou fraqueza aparente. Ela simplesmente absorve, dissolve e cresce. A cena do pobre coitado puxado por um ralo de pia continua difícil de assistir.
É o oposto exato de Matt Hagen. Ele luta para manter uma forma humana. A Bolha não tem forma nenhuma e não quer ter. Assistir aos dois em sequência deixa claro que o horror de um corpo instável depende de quanto ainda resta de pessoa lá dentro.
Possessor (2020)
Brandon Cronenberg herdou o sobrenome e o gosto do pai pelo corpo como território de horror. Andrea Riseborough interpreta Tasya Vos, assassina corporativa que invade a mente de outras pessoas para matar por meio delas. O detalhe mais perturbador acontece longe dos assassinatos: antes de visitar o marido e o filho, ela ensaia sozinha o que vai dizer, como uma atriz decorando falas.
Tasya consegue ser qualquer um, menos ela mesma. Quando entra no corpo de Colin Tate, vivido por Christopher Abbott, o hospedeiro começa a resistir. É a mesma pergunta que Cara-de-Barro faz com outra roupagem. Quem sobra quando você pode ter qualquer rosto?
O Enigma de Outro Mundo (1982)
John Carpenter lançou o filme no mesmo verão de E.T.: O Extraterrestre, e o público americano claramente preferiu o alienígena simpático. A crítica da época também torceu o nariz para os efeitos de Rob Bottin, considerados repulsivos demais. Hoje, a cena do desfibrilador que vira mandíbula está em qualquer antologia do gênero.
Matt teme perder o próprio rosto. Os homens da base na Antártida temem o contrário: não saber se o rosto do colega ainda pertence a ele. Qualquer um pode ser a criatura. É uma paranoia que ecoa a forma como os amigos de Matt passam a olhar para ele no filme da DC.
Um Homem Diferente (2024)
Sebastian Stan venceu o Globo de Ouro por este filme de Aaron Schimberg, que trata a deformidade facial sem nenhum sobrenatural. Edward passa por um tratamento experimental que apaga sua condição. Com rosto novo, adota outra identidade e acha que a vida finalmente vai começar. Até que surge Oswald, interpretado por Adam Pearson, que tem a mesma condição que Edward tinha e nenhuma das inseguranças dele.
É o espelho invertido de Cara-de-Barro. Matt quer recuperar o rosto antigo. Edward consegue um novo e descobre que o problema nunca foi a aparência. Os dois apostam tudo num procedimento experimental e terminam mais perdidos do que antes.
A Substância (2024)
Coralie Fargeat levou Demi Moore ao Globo de Ouro e à melhor fase da carreira com uma sátira sangrenta sobre a indústria do entretenimento. Elisabeth Sparkle perde o programa de ginástica por ter chegado aos 50. Uma droga misteriosa gera Sue, versão jovem dela vivida por Margaret Qualley. A regra é dividir o tempo igualmente. Sue não respeita a regra.
Nenhum filme desta lista conversa tanto com Matt Hagen. Os dois são artistas descartados que arriscam o corpo para salvar a carreira. Os dois descobrem que o tratamento milagroso cobra juros. A maquiagem do filme levou o Oscar, e o terceiro ato justifica cada centavo.
A Mosca (1986)
David Cronenberg refez o filme B de 1958 e criou o padrão que todo body horror posterior tenta alcançar. Seth Brundle, vivido por Jeff Goldblum, se funde por acidente a uma mosca no teletransportador. A transformação é lenta. Ele guarda dentes e unhas que caem num armário de banheiro, como se catalogasse o que ainda resta de humano.
A maquiagem venceu o Oscar, mas o que dói é Veronica, papel de Geena Davis. Ela ainda ama Seth enquanto ele deixa de entender por que alguém teria medo de virar o que ele virou. Cara-de-Barro bebe diretamente dessa fonte, e o próprio Tom Rhys Harries já citou a influência.
O Homem Elefante (1980)
David Lynch filmou em preto e branco a vida de Joseph Merrick, britânico do século 19 exibido em circos por causa de deformidades severas. John Hurt passava horas na cadeira de maquiagem para viver o personagem. O filme recebeu oito indicações ao Oscar e não levou nenhuma. A ausência de um prêmio para a maquiagem gerou tanta reclamação que a Academia criou a categoria no ano seguinte.
Matt reage à crueldade com vingança, chegando a matar um amigo de infância que o traiu. Merrick passou a vida inteira sendo perseguido e humilhado, e mesmo assim se emociona com algo tão simples quanto uma noite no teatro. É a lembrança mais dolorosa de que monstruosidade nunca esteve no rosto de ninguém.
Darkman: Vingança sem Rosto (1990)
Sam Raimi queria dirigir Batman ou O Sombra. Sem conseguir os direitos de nenhum dos dois, inventou o próprio herói trágico. Liam Neeson vive Peyton Westlake, cientista desfigurado por criminosos que desenvolve uma pele sintética capaz de imitar qualquer rosto. O detalhe cruel é que ela só dura 99 minutos sob a luz do dia.
Nenhum filme da lista é tão próximo de Cara-de-Barro no esqueleto da história. Criminosos destroem o rosto, a ciência devolve uma imitação, a raiva cresce por dentro. Na cena do parque de diversões, Peyton quebra os dedos de um vendedor diante da namorada Julie, vivida por Frances McDormand. Ter o rosto de antes não significa voltar a ser quem era. E quem percebe primeiro é sempre quem está mais perto.
Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema.
Apaixonado por histórias que transformam.
Contato: matheus@nosbastidores.com.br
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