Lista | Filmes de Romance para os Solitários
Para quem decidiu passar o Dia dos Namorados revisitando aquela pessoa que jurava não querer compromisso
A reconfortante dor de ter o coração partido
Eis que chegou aquele grande dia onde você vai abrir as redes sociais e o que você mais vai se deparar são as declarações amorosas dos bem afortunados no amor. O lembrete anual de que o amor existe, está em toda parte e, aparentemente, sempre acontece com pessoas mais fotogênicas do que nós.

(500) Dias com Ela (2009)
Para quem decidiu passar o Dia dos Namorados revisitando aquela pessoa que jurava não querer compromisso, mas que misteriosamente fazia programas de casal, dividia músicas favoritas, conhecia os amigos e ainda parecia saída de uma playlist do The Smiths. A experiência é semelhante a abrir conversas antigas às duas da manhã: você sabe que não deveria, mas lá está você reorganizando toda a cronologia dos acontecimentos como um detetive tentando descobrir em que momento exatamente virou figurante da história de amor de outra pessoa. E, quando finalmente achar que superou tudo, o filme ainda faz questão de convidá-lo para a festa de noivado e ter esfregado na sua cara tudo que você jurou ter curado. Um filme tóxico sem querer….

Cyrano de Bergerac (1990)
O filme para quem acredita que sofrer por amor é uma atividade que deve ser realizada com requinte, poesia e uma quantidade alarmante de autossabotagem. Você verá um homem dedicar anos da própria vida para garantir a felicidade da mulher que ama, apenas para receber, nos últimos minutos, uma reação que tem aproximadamente a energia de alguém respondendo ‘aw, que fofo’ a uma declaração enviada às três da manhã. É a experiência cinematográfica equivalente a passar décadas escrevendo cartas apaixonadas e descobrir que o destinatário só leu a última quando o carteiro já estava fechando o caixão.

O Corcunda de Notre Dame (1996)
Perfeito para quem passou o Dia dos Namorados convencido de que finalmente seria sua vez e descobriu, da maneira mais elegante possível, que foi escalado para interpretar o melhor amigo da protagonista. Você acompanha Quasimodo enfrentando juízes fanáticos, multidões hostis e o próprio inferno emocional apenas para descobrir que o maior desafio era assistir ao casal principal trocando olhares apaixonados a menos de dois metros de distância. Sabemos que idealizar amor é uma fantasia que sempre vai descarrilar mas Esmeralda… você não precisava beijar o Phoebus na frente do Quasimodo….

Manhattan (1979)
A ardilosa armadilha, uma paixão que te fez revelar seu pior lado egoísta, abandonar a pessoa que o amava para perseguir uma paixão mais excitante, apenas para descobrir que estava participando de um curso intensivo de arrependimento avançado. Quando finalmente compreender a extensão da própria burrice, já será tarde demais, e restará apenas aquela sensação familiar de revisar mentalmente todas as escolhas erradas enquanto olha pela janela do ônibus fingindo que é o protagonista de um filme francês. Uma experiência recomendada para quem gosta de sofrer com classe, acompanhado de Gershwin e vistas maravilhosas de Manhattan.

Café Society (2016)
Outro Woody Allen perfeito pra se encaixar aqui seria esse, o filme a retratar aquela experiência de ter a honra duvidosa de descobrir que a pessoa por quem você estava apaixonado realmente gostava de você… só que gostava mais de outra pessoa. Neste caso específico, do próprio tio. O filme acompanha Jesse Eisenberg vencer na vida, ficar rico, elegante e até conquistar outro mulherão, apenas para descobrir que o coração humano possui um departamento especializado em manter versões remasterizadas das desgraças sentimentais do passado. Então, enquanto os fogos de artifício do Ano Novo iluminam a tela, você percebe que ambos os personagens carregam aquela expressão universal de quem construiu uma vida inteira, mas ainda é ocasionalmente visitado pelo fantasma de uma conversa interrompida dez anos atrás. Porque algumas paixões não acabam, elas apenas aprendem a pagar aluguel no porão da alma.

A Noiva de Frankenstein (1935)
A pobre Criatura passa o filme inteiro sonhando em encontrar sua cara-metade, e quando finalmente a moça aparece, ela leva aproximadamente três segundos para olhar para ele e decidir que não, obrigada. É a versão gótica e expressionista daquela experiência universal de mandar uma mensagem cuidadosamente pensada e receber de volta algo equivalente a ‘kkk’. No fim, Boris Karloff entrega talvez o mais antigo e respeitável registro cinematográfico de alguém percebendo, com os olhos marejados, que foi rejeitado antes mesmo da conversa começar.

Na Hora da Zona Morta (1983)
Para quem acreditava que acordar do coma e descobrir poderes psíquicos era o suficiente para virar o protagonista mais descolado do bairro. O pobre Christopher Walken descobre que prever o futuro é muito útil para impedir catástrofes globais, mas completamente inútil quando o assunto é reconquistar a ex. Afinal, poucas experiências cinematográficas são tão cruéis quanto perder a mulher dos seus sonhos para um acidente de carro, vê-la reconstruir a vida com outro homem e então receber uma última noite de carinho seguida de um sorriso afetuoso que parece dizer: ‘Pronto, agora podemos seguir em frente.’ Não, minha senhora. Você pode! Mas ele acabou de ganhar uma lembrança novinha em folha para sofrer pelo resto da vida. Obrigado, por nada!

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004)
O filme perfeito para quem julgava que ser bloqueado nas redes sociais já era humilhação suficiente. Em Brilho Eterno, a pessoa amada não apenas termina com você; ela desembolsa dinheiro para que até a lembrança da sua existência seja enviada para a lixeira cósmica. E então o filme obriga você a acompanhar o pobre de Joel de Jim Carrey correndo desesperadamente através das próprias memórias como alguém tentando salvar fotos antigas de uma casa em chamas. Tudo isso para, ao final, lembrá-lo daquela aterradora possibilidade de que o amor verdadeiro talvez não seja encontrar alguém perfeito, mas encontrar alguém por quem você aceitaria ter o coração destruído duas vezes. Uma experiência recomendada para quem considera o sofrimento uma forma legítima de entretenimento e gosta de sair do filme abraçando o travesseiro e contemplando a fragilidade da existência.

O Último Americano Virgem (1982)
Anos 80… a época dos filmes de John Hughes, dos neon, sintetizadores, filmes de ação casca grossa, slashers de terror e finais felizes. Eis que você entra no filme de Boaz Davidson esperando uma sessão descontraída sobre adolescentes desesperados por perder a virgindade, e sai dele encarando o vazio existencial enquanto uma música do James Ingram toca ao fundo como se o próprio universo estivesse rindo da sua cara. Poucos filmes conseguem reproduzir tão perfeitamente aquela sensação de voltar para casa sozinho depois de descobrir, tarde demais, que você era apenas o motorista emocional da história de amor de outra pessoa. O verdadeiro filme de terror dos anos 80 não tinha assassinos mascarados nem bruxas sobrenaturais. Tinha um rádio do carro, lágrimas reprimidas e créditos finais… Ser esfaqueado pelo Michael Myers doeria menos.

No Silêncio da Noite (1950)
O filme responde com uma gentileza típica do noir sobre se encontrar o amor da sua vida resolverá todos os seus problemas: “‘Ah, meu caro, esse é apenas o nível um.” Porque Humphrey Bogart consegue a façanha de encontrar uma mulher linda, inteligente e apaixonada por ele, apenas para transformar a própria felicidade em um projeto de demolição pessoal. É o equivalente sentimental de finalmente ganhar na loteria e imediatamente usar o bilhete premiado para acender um cigarro. Quando os créditos sobem, sobra aquela sensação indescritível de perceber que o universo nem sempre conspira contra você. Às vezes, o universo te entrega exatamente o que você queria e observa, em silêncio, enquanto você mesmo põe tudo a perder. O filme mais romântico sobre autodestruição….

A Cadela (1931) de Jean Renoir
Almas Perversas (1945) de Fritz Lang
Trabalhe honestamente, pague as contas e trate a esposa com carinho, tudo que te ensinam ser atributos e valores o suficiente para vencer o campeonato do amor. Jean Renoir e Fritz Lang surgiram para informar, com a delicadeza de um caminhão em alta velocidade, que a concorrência inclui sujeitos cuja maior qualificação é usar chapéu inclinado e ter cara de problema. Em ambas versões, o pobre protagonista passa o filme inteiro distribuindo dedicação, dinheiro e carinho apenas para descobrir que a mulher dos seus sonhos preferiu investir emocionalmente num indivíduo que provavelmente seria expulso até de uma novela mexicana por excesso de cafajestagem. E o mais cruel: quando finalmente a verdade vem à tona, a retribuição é apenas zombaria. E quando “justiça” é feita pelas próprias mãos, a satisfação prometida simplesmente não chega. Porque alguns filmes não querem partir seu coração: eles querem lhe entregar os pedaços e perguntar, com um sorriso perverso: ‘E então? Valeu a pena?’

Noites Brancas (1957) de Luchino Visconti
Quatro Noites de Um Sonhador (1971) de Robert Bresson
Amantes (2008) de James Gray
Ah sim, o dia em que tiveram a brilhante ideia de adaptar Noites Brancas de Fiódor Dostoiévski em filme….. três vezes….. três décadas….. Ideal para quem sempre quis experimentar a sensação de ser emocionalmente adotado temporariamente enquanto a pessoa amada espera o retorno do ex. Graças ao progresso da civilização, agora é possível sofrer em italiano, francês e inglês, observando três protagonistas diferentes cometerem o mesmo erro milenar: acreditar que ser gentil, presente e compreensivo eventualmente desbloqueará uma cutscene romântica secreta. E então chega aquele momento glorioso em que o verdadeiro amado reaparece, e você presencia a mais refinada forma de humilhação já criada pelo homem: a refuta silenciosa. Nenhum tapa, nenhum insulto, nenhuma gargalhada maligna. Apenas aquela expressão no rosto dela que diz, sem precisar pronunciar uma palavra: ‘Muito obrigada por tudo. Agora, se me dá licença, a história principal acaba de voltar.’ Dostoiévski escreveu uma novela, o cinema decidiu transformá-la numa franquia internacional de sofrimento que podemos aproveitar em línguas diferentes.