Cinema

Crítica | Backrooms: Um Não-Lugar é jornada por lugares assustadores (e outros lugares-comuns)

Backrooms: Um Não-Lugar funciona melhor quando investe na narrativa cinematográfica em terceira pessoa, e sofre quando se arrisca

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
4 min de leitura
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Backrooms: Um Não-Lugar é produto direto de um novo e específico tipo de entretenimento, que não deriva necessariamente da cultura dramatúrgica tradicional, mas sim da “sub-literatura” apócrifa que se dissemina em blogs, “creepypastas” e posts de rede social. Embora isso não determine por si só um demérito cinematográfico, é um peso artístico que acaba sendo carregado pelo filme quando chega às telas. É a substância de seu apelo e também o traço de suas limitações.

Conforme a ideia original dos “backrooms” (lugares misteriosos transitando entre a fantasia e a realidade, mas fisicamente acessíveis a visitantes) tem como característica principal ser mais uma “atmosfera” que uma “premissa dramática”, o desafio de sua transposição para o formato de filme de duas horas seria necessariamente forjar um enredo com alguma consistência narrativa sem, entretanto, desperdiçar o que o conceito propriamente dito tinha de original e inquietante.

Surpreendentemente, o longa-metragem se sai melhor na direção do estreante quase adolescente Kane Parsons que no desenvolvimento do roteiro, que tem o dedo de um roteirista mais experimentado (Will Soodik). Parsons sabe filmar, usar o espaço, o quadro e o silêncio como ferramentas de direção, evitando a vulgaridade habitual da edição entrecortada ou dos planos ultrafechados, que revelam antes de tudo uma desconfiança no poder do próprio material. Em dois ou três momentos, estamos diante de suspense genuíno e o jovem diretor precisa de poucos elementos para construir o clima. 

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Onde Backrooms: Um Não-Lugar, por outro lado, sofre é quando tem de “empacotar” o que é incerteza para atingir alguma coesão dramática. O que o roteiro faz para esse objetivo é alternar entre o drama psicológico dos protagonistas (que nunca ultrapassa a banalidade) e cair na “explicação” genérica que assola 99% dos filmes e seriados similares. Nesse sentido, o filme tira de séries como Ruptura e Lost o componente “realista” para a premissa fabulosa de onde parte.

Igualmente, ele acaba por sofrer com sua própria originalidade: como parte de uma situação original, mas excessivamente “extraordinária” e precisa modular isso durante a trama, ficamos em algum lugar (com o perdão do trocadilho) entre a sensação de que tudo é permitido (como num videogame ao estilo Silent Hill) e um drama de ficção científica tradicional, com a culpabilização habitual reservada para “autoridades e corporações”.

Se o filme não se alonga em explicações, parece menos por pudor e mais por ambição: é claro que o sucesso deste filme reserva muitas portas abertas para o surgimento de uma franquia. É perfeitamente possível esquecer os protagonistas desse enredo e explorar a subtrama proposta por Phil (Mark Duplass), a quem deixaremos de lado aqui para evitar os spoilers.

Clark (Chiwetei Ejiofor) é um arquiteto frustrado e abandonado pela esposa que descobre acidentalmente uma passagem nos fundos de sua loja de móveis que dá para um labirinto de salas desocupadas, que guardam objetos inexplicados e passagens para outras salas, e assim sucessivamente. Ao desaparecer, Clark desperta a atenção de sua terapeuta Mary (Renate Reinsve), que vai procurá-lo e acaba envolvida pelo mesmo pesadelo de cômodos vazios e assombrações misteriosas.

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O longa-metragem parte de um conceito original, mas não inédito. Na verdade, Backrooms: Um Não-Lugar é uma mistura dinâmica de ideias já apresentadas antes, seja na ambientação de Skinamarink: Canção de Ninar, por exemplo, ou mesmo no conceito de “local infernal” que tem no hotel de O Iluminado sua maior referência moderna.

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Mas é preciso fazer uma menção aqui novamente a um dos longas-metragens mais subestimados da virada do milênio: A Célula, dirigido por Tarsem Singh. O labirinto ora mental, ora físico, que toma forma de arquitetura provocativa como reflexo da psique dos personagens, e que por sua vez remete ao Expressionismo Alemão, Mabuse e Caligari, é antes trabalho da imaginação do cineasta indiano, e uma referência costumeira (mas modestamente reconhecida) para uma parcela significativa do cinema de horror e fantasia que viria depois.

Backrooms: Um Não-Lugar funciona melhor quando investe na narrativa cinematográfica em terceira pessoa, e sofre quando se arrisca naquela em primeira pessoa (no recorte found footage do entremeio) ou quando se assume como “pesadelo”, desembocando na correria catártica vista antes tantas vezes.

A direção é elegante na construção do suspense e do mistério, mas o horror é vazio e clichê. Ejiofor é um ator excepcional, que faz muito com o texto limitado, ajudando o filme a se destacar entre tantos outros sucessos recentes dentro do gênero. 

Como curiosidade, Kane Parsons tinha apenas 19 anos durante as filmagens de Backrooms: Um Não-Lugar. Porém, ele não é o cineasta mais jovem a dirigir um longa-metragem comercial. O brasileiro Bruno Barreto, por exemplo, tinha 18 anos incompletos quando realizou Tati, A Garota, em 1973.

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Tags: #backrooms
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