Sean Astin, de O Senhor dos Anéis, fala sobre luta contra IA em Hollywood
Sean Astin, presidente do SAG-AFTRA, fala sobre o legado da mãe, Patty Duke, e a luta contra a IA em Hollywood.
Sean Astin está sentado em um escritório bem diferente dos sets que o consagraram como ator. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, o intérprete de Samwise Gamgee em O Senhor dos Anéis falou sobre sua nova função como presidente do SAG-AFTRA, o sindicato que representa 160 mil atores, dubladores, dançarinos e outros profissionais da indústria audiovisual americana, cargo que ocupa desde setembro do ano passado após vencer a eleição com quase 80% dos votos.
Não é a primeira vez que a família Astin ocupa esse posto. Sua mãe, Patty Duke, vencedora do Oscar por O Milagre de Anne Sullivan, presidiu o antigo Screen Actors Guild na década de 1980, cargo hoje fundido ao SAG-AFTRA. Astin guarda no escritório um cartão de visitas emoldurado da própria mãe da época, ao lado de uma foto dela aos 16 anos segurando a estatueta do Oscar.
Uma infância marcada por Hollywood, de um jeito difícil de repetir
Duke foi uma estrela mirim explorada financeira e sexualmente por seus antigos empresários ainda quando criança, enfrentando décadas de dificuldades, incluindo transtorno bipolar diagnosticado em 1982. Segundo Astin, embora seja reducionista tratar a mãe apenas como vítima da indústria, já que ela também era extremamente inteligente e talentosa, é inegável que aquele nível de fama infantil não era saudável para ninguém envolvido.
Astin cresceu em um ambiente familiar pouco convencional, criado por sua mãe e o ator John Astin, mais conhecido por interpretar Gômez na série clássica A Família Addams, embora um teste de DNA em 1994 tenha revelado que seu pai biológico era, na verdade, o promotor musical Michael Tell. Segundo o ator, manteve boa relação com todas as figuras paternas ao longo da vida, e credita ao próprio John Astin, hoje com 96 anos, o mérito de ter feito aquela estrutura familiar complicada funcionar.
Os papéis de “homem trabalhador” que moldaram sua carreira
Astin também refletiu sobre um padrão curioso em sua trajetória: os personagens que mais o marcaram sempre carregam uma marca de trabalho braçal e humildade, de Samwise, o jardineiro, a Rudy, o operário de uma siderúrgica que virou símbolo de superação no futebol americano universitário. Segundo ele, foi justamente essa persona que usou como argumento de campanha para conquistar o voto dos membros do sindicato.
O ator também revelou uma dificuldade financeira pouco conhecida do público: apesar da imensa visibilidade que O Senhor dos Anéis trouxe à sua carreira no início dos anos 2000, ele precisou vender a própria casa na época, já que havia negociado um cachê baixo demais para a trilogia. Hoje, segundo ele, está financeiramente confortável.
A luta contra deepfakes e a inteligência artificial
O maior desafio da gestão de Astin à frente do sindicato, porém, é o avanço da inteligência artificial em Hollywood. O SAG-AFTRA vem pressionando o Congresso americano a aprovar o chamado NO FAKES Act, legislação federal que criaria, pela primeira vez, um direito individual de propriedade intelectual sobre nome e imagem de cada pessoa.
Astin já testemunhou perante o Comitê Judiciário da Câmara dos Representantes sobre o tema, defendendo que a tecnologia precisa ser regulada sem necessariamente travar todo o avanço da inovação. Ele também pediu publicamente mais cautela a nomes influentes como Martin Scorsese e George Lucas, que vêm defendendo abertamente a adoção da inteligência artificial pela indústria, argumentando que o público precisa de mais responsabilidade discursiva por parte dessas lideranças ao tratar do assunto.
Um possível futuro na política
Diante de um currículo que já inclui mestrado em administração pública, um triatlo Ironman completo e agora a presidência de um sindicato de peso, Astin reconheceu abertamente cogitar uma futura carreira política, área que já apoiou publicamente com doações a candidatos democratas como Hillary Clinton, Joe Biden e Kamala Harris. Por ora, porém, ele prefere se concentrar na missão atual à frente do SAG-AFTRA, equilibrando a vida profissional com o desejo antigo de finalmente diminuir o ritmo ao lado da esposa, com quem é casado há 34 anos.