Cinema

Tradutora de A Odisseia detona filme de Nolan: ‘Teria vergonha de ter escrito isso’

Emily Wilson, tradutora da Odisseia usada como referência por Nolan, critica duramente o filme em resenha na LRB.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
3 min de leitura

Christopher Nolan passou boa parte da campanha promocional de A Odisseia elogiando a tradução de Emily Wilson, publicada em 2017, como influência direta para sua própria interpretação do poema de Homero. A tradutora, porém, não retribuiu o elogio. Em resenha demolidora publicada na London Review of Books, Wilson classificou o filme como carente de profundidade psicológica, emocional, política e ética, concluindo que a obra “não tem nada convincente a dizer”.

“Eu esperava que a afinidade de Nolan com esses temas homéricos pudesse empurrá-lo a novos patamares criativos, e permitir que ele criasse personagens mais críveis. Mas A Odisseia apresenta sua combinação usual de grandiosidade e superficialidade”, escreveu Wilson, professora de estudos clássicos na Universidade da Pensilvânia. Segundo ela, o filme até entrega bem explosões e gigantes, mas fica devendo justamente nas grandes ideias que promete.

A ironia da citação que Nolan usou

Um dos momentos mais afiados da resenha vem justamente da referência que Nolan fez publicamente ao trabalho de Wilson. O diretor já havia citado a abertura da tradução dela, “conte-me sobre um homem complicado”, como guia para construir seu Ulisses, vivido por Matt Damon. Wilson devolveu a gentileza com ironia: “Fiquei humilde ao saber que Nolan leu ao menos a primeira linha da minha tradução. Mas eu teria vergonha de ter escrito qualquer parte deste roteiro”.

Segundo a tradutora, o problema central está exatamente ali: o Ulisses de Damon nunca chega a ser complicado, astuto ou hábil como o da fonte original. Ela cita como exemplo o icônico truque em que Ulisses se apresenta ao ciclope Polifemo como “Ninguém”, ausente da versão de Nolan, argumentando que o gigante do filme não precisa ser enganado por inteligência alguma, já que é retratado apenas como um “boneco sem juízo”, tratado no roteiro simplesmente como “isso”.

Críticas também aos personagens ao redor do herói

Wilson não poupou os coadjuvantes da trama. Segundo ela, personagens femininas como Penélope têm muito menos a dizer na adaptação do que na obra original, e ela também apontou o que descreveu como versões enfraquecidas do clichê do “melhor amigo negro”, cujo papel na trama existiria apenas para auxiliar o protagonista branco.

Publicidade

“Não tem nada convincente a dizer sobre tempo, memória, história, guerra, ou sobre a relação entre o retorno glorioso de um guerreiro e as vidas de sua família, adversários, camaradas, amigos e vizinhos”, resumiu a tradutora. “A estrutura narrativa é artificial. A escrita é abismal. Nenhum personagem tem motivação convincente para suas ações ou falas.”

Uma crítica que reconhece o próprio impacto cultural do filme

Apesar da dureza da resenha, Wilson fez questão de reconhecer, em entrevista anterior ao Sunday Times, que o lançamento do filme segue sendo um motivo de celebração para a cultura clássica. Segundo ela, o sucesso de bilheteria está trazendo público de volta aos cinemas e impulsionando as vendas de traduções da Odisseia, incluindo a dela própria, além de potencialmente convencer administradores universitários a não cortar departamentos de literatura, línguas e história.

A crítica ácida, porém, não parece ter afetado o desempenho comercial do longa: A Odisseia recebeu nota A no CinemaScore na estreia e segue como um dos maiores sucessos de bilheteria do ano, arrecadando US$ 90 milhões só no segundo fim de semana nos Estados Unidos.

Tags: #A Odisseia
Compartilhar: Twitter Facebook WhatsApp