10 filmes esquecidos de grandes diretores
De Nolan a Scorsese, grandes diretores têm obras menores que revelam seu talento com mais clareza do que qualquer blockbuster. Aqui estão dez que merecem ser assistidos.
Existe uma lógica estranha em como a reputação de um grande diretor se forma. O público o conhece pelas obras que chegaram ao pico, pelas que venceram o Oscar ou quebraram recordes de bilheteria. Mas os diretores que realmente importam quase sempre têm um catálogo paralelo de filmes menores, mais pessoais ou mais experimentais, que deixam ver o que a grandeza parece quando ainda está se formando, ou quando se permite arriscar sem a pressão de uma franquia. São projetos onde não havia rede de proteção. E é exatamente isso que os torna interessantes.
Esta lista não é sobre filmes ruins que merecem reavaliação. Todos os filmes aqui são bons, a maioria é muito boa, e alguns são obras-primas disfarçadas de curiosidades. O que os une é o fato de ficarem eclipsados pela sombra mais longa do restante da filmografia de seus diretores.
Tangerine (2015) — Sean Baker
Dez anos antes de Anora ganhar a Palma de Ouro e o Oscar de Melhor Filme, Sean Baker fez Tangerine com US$ 100 mil, três iPhones 5s e atores descobertos no Los Angeles LGBT Center. O próprio diretor admitiu que a decisão de filmar no celular foi financeira: não havia dinheiro para equipamento profissional. O que saiu foi um dos filmes mais vivos e urgentes do cinema americano da década, filmado nas ruas reais de Hollywood com uma saturação de cores que parece pop art em movimento.
A história acompanha Sin-Dee Rella, uma mulher trans e profissional do sexo que sai da prisão na véspera de Natal e vai atrás do namorado que a traiu durante o mês em que ficou presa. Tangerine foi o primeiro filme filmado em smartphone a estrear no Festival de Sundance, e a revelação nos créditos finais, que o público levou um choque coletivo ao descobrir no pós-sessão do festival, abriu um debate sobre o que ainda define “cinema profissional”. A resposta que o filme dá é simples: o que importa é o que aparece na tela.
Gosto de Sangue (1984) — Irmãos Coen
Joel e Ethan Coen fizeram Gosto de Sangue (Blood Simple) com investidores captados em apresentações para qualquer um que aceitasse assistir ao trailer que tinham montado especificamente para levantar dinheiro. O orçamento foi de US$ 1,5 milhão. Frances McDormand, que seria musa e musa da carreira posterior deles, era uma recém-formada sem grandes créditos. O diretor de fotografia Barry Sonnenfeld também virou diretor depois, responsável por Men in Black.
O que os Coen fizeram com essa estreia foi estabelecer de imediato um vocabulário que nenhum outro dupla de diretores do cinema americano soube replicar: crime que desmorona por mal-entendidos em cascata, violência que chega de lugar errado, humor negro entranhado numa tragédia que deveria ser evitável. Um bar no Texas, um marido ciumento, um detetive corrupto e uma série de coincidências que ninguém controla. Sangue por Sangue estreou no Festival de Nova York em 1984 com crítica entusiasmada e ainda hoje aparece como obra de referência para quem estuda o estilo Coen em sua forma mais concentrada.
Crooklyn (1994) — Spike Lee
Crooklyn é a exceção gentil em uma filmografia construída sobre provocação. Spike Lee chegou ao início dos anos 1990 como um dos cineastas mais controversos dos Estados Unidos, com Faça a Coisa Certa e Malcolm X deixando marcas profundas no debate cultural americano. Crooklyn foi o oposto deliberado: um drama familiar PG-13, semiautobiográfico, ambientado no Brooklyn dos anos 1970, sobre uma menina de dez anos lidando com a dinâmica caótica da própria família.
O filme arrecadou apenas US$ 13,6 milhões e desconcertou parte do público que esperava outro trabalho politicamente agressivo. O que Lee fez foi usar a mesma precisão técnica de seus filmes mais conhecidos para contar algo mais quieto e mais íntimo. A cena central do filme, onde a protagonista passa o verão na casa de parentes no Sul e o formato de imagem muda para um widescreen distorcido para simular seu desconforto, é um dos usos mais criativos da manipulação de tela que o cinema americano produziu naquela década.
Ligadas pelo Crime (1996) — Irmãs Wachowski
Três anos antes de Matrix, Lana e Lilly Wachowski fizeram Ligadas pelo Crime (Bound), um noir lésbico sobre duas mulheres que planejam roubar US$ 2 milhões da máfia. Quando os estúdios leram o roteiro, ofereceram financiamento com uma condição: mudar o personagem de Corky para um homem. As diretoras recusaram repetidamente, dizendo que esse filme “já tinha sido feito um milhão de vezes”. Dino De Laurentiis acabou topando o projeto com o roteiro original.
Ligadas pelo Crime não foi só o filme que abriu o caminho para Matrix: foi o momento em que as irmãs usaram o gênero noir clássico para contar uma história sobre querer sair do armário, conforme elas mesmas descreveram em entrevistas depois de virem a público como mulheres trans. A primeira cena do filme é um close num armário, literalmente. A colaboração com Susie Bright como consultora para as cenas de intimidade, numa época em que o conceito de coordenadora de intimidade praticamente não existia, foi pioneira. O resultado é um thriller que funciona perfeitamente como noir e como algo muito mais pessoal do que parece.
As Grandes Aventuras de Pee-Wee (1985) — Tim Burton
As Grandes Aventuras de Pee-Wee existe porque Paul Reubens queria fazer um filme com seu personagem e precisava de um diretor. Ele escolheu Tim Burton, um jovem que havia feito apenas curtas para a Disney, para fazer sua estreia em longa-metragem. Burton descreveu o projeto como uma oportunidade de testar ideias estranhas sem responsabilidade, o que em 1985 soou como humildade e hoje soa como o manifesto de toda a sua carreira.
O filme arrecadou quase seis vezes seu orçamento de US$ 7 milhões, o que surpreendeu a todos, inclusive a Warner Bros. A primeira parceria com o compositor Danny Elfman, que escreveu a trilha sonora que estabeleceu o vocabulário musical de Burton para as décadas seguintes, nasceu aqui. Sem o sucesso de As Grandes Aventuras de Pee-Wee, não havia Beetlejuice, não havia Batman, não havia nada que viesse depois. É o filme que tornou Tim Burton possível, feito por alguém que ainda não sabia que era Tim Burton.
Depois de Horas (1985) — Martin Scorsese
Em 1983, Scorsese havia concluído O Rei da Comédia, que foi um fracasso comercial. Um projeto de longa data sobre a vida de Jesus Cristo havia sido cancelado pela Universal sob pressão de grupos religiosos. Ele estava considerando abandonar Hollywood. Depois de Horas (After Hours) foi o projeto que o impediu, e foi realizado com liberdade criativa total e orçamento reduzido de US$ 4,5 milhões, como alternativa ao isolamento.
O filme segue um executivo de escritório durante uma noite catastrófica no SoHo de Nova York, arrastado de coincidência em coincidência em direção a um destino que não faz sentido algum. É Scorsese usando a estrutura do pesadelo urbano para fazer algo que sua filmografia épica raramente permite: humor. Não humor amargo, mas humor propriamente dito. Depois de Horas venceu a Palma de Ouro de Melhor Direção em Cannes em 1986 e tem 90% no Rotten Tomatoes, o que torna ainda mais curioso que viva permanentemente enterrado entre Touro Indomável e Os Bons Companheiros na conversa sobre Scorsese.
Matchstick Men (2003) — Ridley Scott
Ridley Scott é conhecido pelas escalas maiores. Gladiador, Alien, Blade Runner, Black Hawk Down. Matchstick Men é o oposto: um filme de US$ 62 milhões sobre um golpista agorafóbico com TOC que descobre ter uma filha adolescente que nunca conheceu. Nicolas Cage entregou uma das atuações mais contidas de sua carreira, o que por si só já tornaria o filme digno de atenção.
O que Scott faz com o material é um exercício preciso de gênero duplo: Matchstick Men é simultaneamente um thriller de golpe e um drama sobre paternidade, e cada linha do roteiro carrega as duas histórias ao mesmo tempo. Roger Ebert deu quatro estrelas ao filme e recomendou indicações ao Oscar para Cage e para o roteiro, nenhuma das quais aconteceu. O filme saiu do radar tão rápido que hoje aparece nos créditos de Scott como nota de rodapé entre dois blockbusters.
Embriagado de Amor (2002) — Paul Thomas Anderson
Paul Thomas Anderson tem uma das filmografias mais consistentes do cinema americano contemporâneo, mas cada um de seus filmes dura pelo menos duas horas e exige uma disposição quase física do espectador. Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love) é a exceção total: 95 minutos, Adam Sandler num papel sério e quieto, e uma história de amor que também é um thriller sobre extorsão que também é um estudo de personagem sobre violência reprimida.
Sandler recebeu críticas entusiasmadas e nunca repetiu esse tipo de trabalho com a mesma frequência. Anderson colocou o filme entre Magnólia e Sangue Negro e ele simplesmente desapareceu na sombra dos dois. O que Embriagado de Amor faz de mais específico é usar o próprio desconforto do espectador com Sandler em papéis sérios como parte da tensão dramática. Você nunca sabe quando o personagem vai explodir, e Anderson sustenta essa incerteza pelos 95 minutos inteiros.
Amnésia (2000) — Christopher Nolan
Antes de ser o diretor de Batman Begins, A Origem e Oppenheimer, Christopher Nolan era um britânico que havia feito seu primeiro longa com US$ 6 mil filmado nos fins de semana em Londres. Amnésia (Memento) foi seu segundo filme e custou entre US$ 4,5 e 9 milhões, dependendo da fonte. Vários estúdios, incluindo Harvey Weinstein na Miramax, assistiram ao filme e recusaram a distribuição. A Newmarket Films entrou e lançou o filme em 500 salas depois de uma rodada de festivais que incluiu Veneza, Toronto e Sundance.
O roteiro em ordem inversa não era um truque: era a única forma honesta de colocar o espectador dentro da experiência de Leonard, um homem com amnésia anterógrada que não consegue formar novas memórias e usa tatuagens e fotos Polaroid para perseguir o assassino de sua mulher. Nolan admitiu depois que foi influenciado pelo conto “Funes el memorioso” de Borges, sobre um homem que não consegue esquecer. Amnésia arrecadou US$ 40 milhões e abriu todos os projetos seguintes para Nolan. Steven Soderbergh assistiu ao filme e indicou seu nome à Warner Bros. para dirigir Batman Begins. Sem Amnésia, a trajetória inteira muda.
Songs My Brothers Taught Me (2015) — Chloé Zhao
Songs My Brothers Taught Me foi a tese de conclusão de curso de Chloé Zhao na Tisch School of the Arts de Nova York. Ninguém que viu o filme na época tinha como saber que a mesma diretora ganharia o Oscar de Melhor Direção e Melhor Filme por Nomadland em 2021, seis anos depois.
O filme acompanha dois irmãos na Reserva Pine Ridge, em Dakota do Sul, enquanto lidam com a morte do pai. Zhao filmou com atores não profissionais, misturou moradores locais com o elenco e usou a paisagem árida da reserva como personagem tanto quanto os humanos. A indicação ao Independent Spirit Award de Melhor Estreia foi o único reconhecimento formal que o filme recebeu, o que torna ainda mais interessante revisitá-lo hoje como o ponto de partida de uma diretora que em 2026, com Hamlet, acumula oito indicações ao Oscar na mesma edição.