Listas

10 filmes esquecidos de grandes diretores

De Nolan a Scorsese, grandes diretores têm obras menores que revelam seu talento com mais clareza do que qualquer blockbuster. Aqui estão dez que merecem ser assistidos.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
10 min de leitura

Existe uma lógica estranha em como a reputação de um grande diretor se forma. O público o conhece pelas obras que chegaram ao pico, pelas que venceram o Oscar ou quebraram recordes de bilheteria. Mas os diretores que realmente importam quase sempre têm um catálogo paralelo de filmes menores, mais pessoais ou mais experimentais, que deixam ver o que a grandeza parece quando ainda está se formando, ou quando se permite arriscar sem a pressão de uma franquia. São projetos onde não havia rede de proteção. E é exatamente isso que os torna interessantes.

Esta lista não é sobre filmes ruins que merecem reavaliação. Todos os filmes aqui são bons, a maioria é muito boa, e alguns são obras-primas disfarçadas de curiosidades. O que os une é o fato de ficarem eclipsados pela sombra mais longa do restante da filmografia de seus diretores.

Tangerine (2015) — Sean Baker

Dez anos antes de Anora ganhar a Palma de Ouro e o Oscar de Melhor Filme, Sean Baker fez Tangerine com US$ 100 mil, três iPhones 5s e atores descobertos no Los Angeles LGBT Center. O próprio diretor admitiu que a decisão de filmar no celular foi financeira: não havia dinheiro para equipamento profissional. O que saiu foi um dos filmes mais vivos e urgentes do cinema americano da década, filmado nas ruas reais de Hollywood com uma saturação de cores que parece pop art em movimento.

A história acompanha Sin-Dee Rella, uma mulher trans e profissional do sexo que sai da prisão na véspera de Natal e vai atrás do namorado que a traiu durante o mês em que ficou presa. Tangerine foi o primeiro filme filmado em smartphone a estrear no Festival de Sundance, e a revelação nos créditos finais, que o público levou um choque coletivo ao descobrir no pós-sessão do festival, abriu um debate sobre o que ainda define “cinema profissional”. A resposta que o filme dá é simples: o que importa é o que aparece na tela.

Gosto de Sangue (1984) — Irmãos Coen

Joel e Ethan Coen fizeram Gosto de Sangue (Blood Simple) com investidores captados em apresentações para qualquer um que aceitasse assistir ao trailer que tinham montado especificamente para levantar dinheiro. O orçamento foi de US$ 1,5 milhão. Frances McDormand, que seria musa e musa da carreira posterior deles, era uma recém-formada sem grandes créditos. O diretor de fotografia Barry Sonnenfeld também virou diretor depois, responsável por Men in Black.

O que os Coen fizeram com essa estreia foi estabelecer de imediato um vocabulário que nenhum outro dupla de diretores do cinema americano soube replicar: crime que desmorona por mal-entendidos em cascata, violência que chega de lugar errado, humor negro entranhado numa tragédia que deveria ser evitável. Um bar no Texas, um marido ciumento, um detetive corrupto e uma série de coincidências que ninguém controla. Sangue por Sangue estreou no Festival de Nova York em 1984 com crítica entusiasmada e ainda hoje aparece como obra de referência para quem estuda o estilo Coen em sua forma mais concentrada.

Crooklyn (1994) — Spike Lee

Crooklyn é a exceção gentil em uma filmografia construída sobre provocação. Spike Lee chegou ao início dos anos 1990 como um dos cineastas mais controversos dos Estados Unidos, com Faça a Coisa Certa e Malcolm X deixando marcas profundas no debate cultural americano. Crooklyn foi o oposto deliberado: um drama familiar PG-13, semiautobiográfico, ambientado no Brooklyn dos anos 1970, sobre uma menina de dez anos lidando com a dinâmica caótica da própria família.

O filme arrecadou apenas US$ 13,6 milhões e desconcertou parte do público que esperava outro trabalho politicamente agressivo. O que Lee fez foi usar a mesma precisão técnica de seus filmes mais conhecidos para contar algo mais quieto e mais íntimo. A cena central do filme, onde a protagonista passa o verão na casa de parentes no Sul e o formato de imagem muda para um widescreen distorcido para simular seu desconforto, é um dos usos mais criativos da manipulação de tela que o cinema americano produziu naquela década.

Ligadas pelo Crime (1996) — Irmãs Wachowski

Três anos antes de Matrix, Lana e Lilly Wachowski fizeram Ligadas pelo Crime (Bound), um noir lésbico sobre duas mulheres que planejam roubar US$ 2 milhões da máfia. Quando os estúdios leram o roteiro, ofereceram financiamento com uma condição: mudar o personagem de Corky para um homem. As diretoras recusaram repetidamente, dizendo que esse filme “já tinha sido feito um milhão de vezes”. Dino De Laurentiis acabou topando o projeto com o roteiro original.

Ligadas pelo Crime não foi só o filme que abriu o caminho para Matrix: foi o momento em que as irmãs usaram o gênero noir clássico para contar uma história sobre querer sair do armário, conforme elas mesmas descreveram em entrevistas depois de virem a público como mulheres trans. A primeira cena do filme é um close num armário, literalmente. A colaboração com Susie Bright como consultora para as cenas de intimidade, numa época em que o conceito de coordenadora de intimidade praticamente não existia, foi pioneira. O resultado é um thriller que funciona perfeitamente como noir e como algo muito mais pessoal do que parece.

As Grandes Aventuras de Pee-Wee (1985) — Tim Burton

As Grandes Aventuras de Pee-Wee existe porque Paul Reubens queria fazer um filme com seu personagem e precisava de um diretor. Ele escolheu Tim Burton, um jovem que havia feito apenas curtas para a Disney, para fazer sua estreia em longa-metragem. Burton descreveu o projeto como uma oportunidade de testar ideias estranhas sem responsabilidade, o que em 1985 soou como humildade e hoje soa como o manifesto de toda a sua carreira.

O filme arrecadou quase seis vezes seu orçamento de US$ 7 milhões, o que surpreendeu a todos, inclusive a Warner Bros. A primeira parceria com o compositor Danny Elfman, que escreveu a trilha sonora que estabeleceu o vocabulário musical de Burton para as décadas seguintes, nasceu aqui. Sem o sucesso de As Grandes Aventuras de Pee-Wee, não havia Beetlejuice, não havia Batman, não havia nada que viesse depois. É o filme que tornou Tim Burton possível, feito por alguém que ainda não sabia que era Tim Burton.

Depois de Horas (1985) — Martin Scorsese

Em 1983, Scorsese havia concluído O Rei da Comédia, que foi um fracasso comercial. Um projeto de longa data sobre a vida de Jesus Cristo havia sido cancelado pela Universal sob pressão de grupos religiosos. Ele estava considerando abandonar Hollywood. Depois de Horas (After Hours) foi o projeto que o impediu, e foi realizado com liberdade criativa total e orçamento reduzido de US$ 4,5 milhões, como alternativa ao isolamento.

Publicidade

O filme segue um executivo de escritório durante uma noite catastrófica no SoHo de Nova York, arrastado de coincidência em coincidência em direção a um destino que não faz sentido algum. É Scorsese usando a estrutura do pesadelo urbano para fazer algo que sua filmografia épica raramente permite: humor. Não humor amargo, mas humor propriamente dito. Depois de Horas venceu a Palma de Ouro de Melhor Direção em Cannes em 1986 e tem 90% no Rotten Tomatoes, o que torna ainda mais curioso que viva permanentemente enterrado entre Touro Indomável e Os Bons Companheiros na conversa sobre Scorsese.

Matchstick Men (2003) — Ridley Scott

Ridley Scott é conhecido pelas escalas maiores. Gladiador, Alien, Blade Runner, Black Hawk Down. Matchstick Men é o oposto: um filme de US$ 62 milhões sobre um golpista agorafóbico com TOC que descobre ter uma filha adolescente que nunca conheceu. Nicolas Cage entregou uma das atuações mais contidas de sua carreira, o que por si só já tornaria o filme digno de atenção.

O que Scott faz com o material é um exercício preciso de gênero duplo: Matchstick Men é simultaneamente um thriller de golpe e um drama sobre paternidade, e cada linha do roteiro carrega as duas histórias ao mesmo tempo. Roger Ebert deu quatro estrelas ao filme e recomendou indicações ao Oscar para Cage e para o roteiro, nenhuma das quais aconteceu. O filme saiu do radar tão rápido que hoje aparece nos créditos de Scott como nota de rodapé entre dois blockbusters.

Embriagado de Amor (2002) — Paul Thomas Anderson

Paul Thomas Anderson tem uma das filmografias mais consistentes do cinema americano contemporâneo, mas cada um de seus filmes dura pelo menos duas horas e exige uma disposição quase física do espectador. Embriagado de Amor (Punch-Drunk Love) é a exceção total: 95 minutos, Adam Sandler num papel sério e quieto, e uma história de amor que também é um thriller sobre extorsão que também é um estudo de personagem sobre violência reprimida.

Sandler recebeu críticas entusiasmadas e nunca repetiu esse tipo de trabalho com a mesma frequência. Anderson colocou o filme entre Magnólia e Sangue Negro e ele simplesmente desapareceu na sombra dos dois. O que Embriagado de Amor faz de mais específico é usar o próprio desconforto do espectador com Sandler em papéis sérios como parte da tensão dramática. Você nunca sabe quando o personagem vai explodir, e Anderson sustenta essa incerteza pelos 95 minutos inteiros.

Amnésia (2000) — Christopher Nolan

Antes de ser o diretor de Batman Begins, A Origem e Oppenheimer, Christopher Nolan era um britânico que havia feito seu primeiro longa com US$ 6 mil filmado nos fins de semana em Londres. Amnésia (Memento) foi seu segundo filme e custou entre US$ 4,5 e 9 milhões, dependendo da fonte. Vários estúdios, incluindo Harvey Weinstein na Miramax, assistiram ao filme e recusaram a distribuição. A Newmarket Films entrou e lançou o filme em 500 salas depois de uma rodada de festivais que incluiu Veneza, Toronto e Sundance.

O roteiro em ordem inversa não era um truque: era a única forma honesta de colocar o espectador dentro da experiência de Leonard, um homem com amnésia anterógrada que não consegue formar novas memórias e usa tatuagens e fotos Polaroid para perseguir o assassino de sua mulher. Nolan admitiu depois que foi influenciado pelo conto “Funes el memorioso” de Borges, sobre um homem que não consegue esquecer. Amnésia arrecadou US$ 40 milhões e abriu todos os projetos seguintes para Nolan. Steven Soderbergh assistiu ao filme e indicou seu nome à Warner Bros. para dirigir Batman Begins. Sem Amnésia, a trajetória inteira muda.

Songs My Brothers Taught Me (2015) — Chloé Zhao

Songs My Brothers Taught Me foi a tese de conclusão de curso de Chloé Zhao na Tisch School of the Arts de Nova York. Ninguém que viu o filme na época tinha como saber que a mesma diretora ganharia o Oscar de Melhor Direção e Melhor Filme por Nomadland em 2021, seis anos depois.

O filme acompanha dois irmãos na Reserva Pine Ridge, em Dakota do Sul, enquanto lidam com a morte do pai. Zhao filmou com atores não profissionais, misturou moradores locais com o elenco e usou a paisagem árida da reserva como personagem tanto quanto os humanos. A indicação ao Independent Spirit Award de Melhor Estreia foi o único reconhecimento formal que o filme recebeu, o que torna ainda mais interessante revisitá-lo hoje como o ponto de partida de uma diretora que em 2026, com Hamlet, acumula oito indicações ao Oscar na mesma edição.

Compartilhar: Twitter Facebook WhatsApp