Crítica | O Bosque Selvagem é bonito, mas bastante complicado para crianças

O Bosque Selvagem é uma obra espetacular visualmente, mas cuja narrativa se transborda de excessos dificultando o acesso ao público-alvo: as crianças.

Daniel Moreno
Daniel Moreno 11 min de leitura

Quando foi que os filmes infantis ficaram tão complicados? Tenho um palpite: depois da trilogia original de O Senhor dos Anéis. Só existe um problema nessa hipótese: O Senhor dos Anéis nunca foi um filme infantil.

É verdade que o universo de Tolkien tem dragões, goblins e criaturas fantásticas que poderiam perfeitamente habitar uma história para crianças. E a literatura de fantasia sempre teve mundos elaborados, com mitologias próprias, povos diferentes e conflitos que ultrapassam a aventura individual dos protagonistas. O problema começa quando os filmes infantis passam a confundir a riqueza de um universo com a obrigação de colocar o máximo possível de coisas dentro de uma única história.

É o que acontece com O Bosque Selvagem, a nova produção do estúdio Laika, conhecido por Coraline e o Mundo Secreto e ParaNorman. Dirigido por Travis Knight e baseado no livro de Colin Meloy, o filme levou quase uma década para chegar às telas. E é justamente essa produção, que poderia explorar uma das grandes virtudes da animação em stop motion, que acaba se perdendo numa ambição desmedida.

A premissa lembra bastante Labirinto: A Magia do Tempo, o clássico de 1986 dirigido por Jim Henson. Uma garota precisa cuidar do irmão mais novo, quebra uma regra, o menino desaparece e ela tem de atravessar sozinha um mundo fantástico, com suas próprias criaturas e convenções, para tentar resgatá-lo.

É uma estrutura simples e eficiente. A aventura exterior acompanha uma transformação interior: a garota precisa aprender a lidar com responsabilidades, medos e limitações. O mundo fantástico não existe apenas para exibir criaturas estranhas. Ele serve à trajetória da protagonista.

Em O Bosque Selvagem, porém, essa linha dramática vai ficando soterrada por uma quantidade cada vez maior de personagens, situações, hierarquias e histórias paralelas. O filme parece estar sempre abrindo uma nova porta, como se cada ideia precisasse necessariamente dar origem a outra. E, quando tudo isso se acumula, a aventura perde a concentração que deveria sustentá-la.

O problema não é a complexidade. É o excesso.

Não estou defendendo que uma criança só consiga acompanhar histórias simples ou que o cinema infantil precise ser intelectualmente limitado. Crianças podem lidar com narrativas sofisticadas, ambiguidades e mundos imaginários complexos. A questão é outra: existe uma diferença entre construir um universo rico e despejar informações sobre o espectador sem dar a elas uma organização dramática convincente.

Pense num computador com dez janelas abertas ao mesmo tempo. Você consegue olhar para todas, mas isso não significa que esteja prestando atenção em alguma delas. É essa a sensação que o filme provoca. Mal começamos a acompanhar uma situação e já somos empurrados para outra, com novos personagens, novas regras e novos conflitos.

A duração superior a duas horas agrava o problema. Quando a narrativa se dispersa, cada nova sequência parece prolongar uma experiência que já perdeu parte de sua força.

O resultado é uma obra que exige atenção constante, mas nem sempre oferece uma razão suficientemente forte para mantê-la. Em vez de permitir que a aventura se desenvolva e que o espectador descubra aquele mundo junto com a protagonista, o filme parece preocupado em mostrar o tamanho do mundo que inventou.

E essa é uma diferença importante. O espectador não precisa conhecer todos os detalhes de um universo ficcional para se envolver com ele. Precisa entender o que está em jogo, reconhecer o percurso dos personagens e sentir que cada acontecimento modifica alguma coisa. Quando a multiplicação de informações passa a competir com a história, o universo deixa de ser um recurso narrativo e vira uma distração.

É aqui que entra O Senhor dos Anéis. A trilogia de Peter Jackson também apresenta povos, línguas, reinos, criaturas, disputas políticas e uma mitologia extensa. Mas há uma diferença de escala e de propósito que não pode ser ignorada: estamos falando de uma obra muito mais densa, distribuída por quase dez horas de cinema, e que nunca foi concebida propriamente como entretenimento infantil.

A complexidade, nesse caso, faz parte da natureza do material. O mundo de Tolkien tem uma história anterior aos acontecimentos narrados, e seus conflitos são sustentados por essa profundidade. Ainda assim, a trilogia não depende apenas da quantidade de informações sobre a Terra-média. Ela tem uma linha dramática central muito clara, com objetivos, obstáculos e consequências que mantêm o espectador orientado.

Em O Bosque Selvagem, parece haver uma tentativa de reproduzir a sensação de um grande universo fantástico sem que exista espaço suficiente para desenvolver tudo o que ele contém. O filme quer apresentar uma sucessão de povos, criaturas, conflitos e ambientes, mas a acumulação não produz necessariamente a mesma densidade.

É como se alguém tivesse observado o resultado de O Senhor dos Anéis e concluído que o segredo estava em colocar mais reinos, mais personagens e mais acontecimentos na tela. Só que a grandiosidade de uma obra não se mede pelo número de elementos que ela consegue reunir.

Há outro detalhe curioso logo no começo do filme. Portland, no Oregon, aparece como uma espécie de paraíso pós-hippie: um lugar romântico, alternativo, acolhedor, quase uma comunidade idealizada em que a vida urbana parece ter sido higienizada para caber numa fantasia progressista.

É uma representação bastante artificial, especialmente quando comparada à realidade de uma cidade que também enfrenta problemas concretos, como criminalidade e consumo de drogas nas ruas. Mas o ponto aqui não é exigir que um filme de fantasia faça um retrato sociológico de Portland. A questão é entender a quem essa idealização parece se dirigir.

A impressão é que certas referências foram colocadas ali para produzir cumplicidade com os adultos que acompanham as crianças. Os pais reconhecem o código cultural, entendem a piscadela e podem se sentir confortáveis com aquela visão de mundo. A criança, por sua vez, está muito mais interessada no que vai acontecer com a protagonista e com o irmão.

Essa lógica não é exclusiva de O Bosque Selvagem. Ela aparece em produções que se apresentam como filmes para crianças, mas parecem preocupadas em agradar sobretudo aos adultos que compram os ingressos, escolhem o programa e reconhecem as referências culturais.

Pense em Wicked. Há uma camada de comentários, alusões e sinais de identificação cultural que pode ser muito mais significativa para o público adulto do que para o infantil. Isso, isoladamente, não seria um defeito. Um filme pode funcionar em níveis diferentes e oferecer experiências distintas a espectadores de idades diferentes.

O problema aparece quando essa preocupação com as referências e com a cumplicidade dos adultos convive com uma narrativa que se torna excessivamente carregada para o público que deveria estar no centro da experiência.

No caso de O Bosque Selvagem, o resultado é uma combinação curiosa: de um lado, referências que parecem destinadas aos pais; de outro, uma avalanche de personagens, subtramas e estímulos visuais e sonoros que exige do público jovem uma atenção quase permanente. A obra parece querer falar com todo mundo ao mesmo tempo, mas não se decide sobre o que realmente importa.

E existe uma ironia adicional: o filme vem justamente da Laika, um estúdio cuja identidade está profundamente ligada ao stop motion.

Essa técnica tem uma qualidade particular. Como os personagens e os cenários são construídos materialmente, existe uma presença física nas imagens. As superfícies, as texturas e as pequenas irregularidades produzem uma sensação de trabalho artesanal que não depende apenas do que aparece na tela, mas também da percepção de que aquilo foi construído e movimentado quadro a quadro.

É uma magia íntima. Não precisa necessariamente de uma batalha gigantesca para impressionar. Às vezes, a força está na escala de um cenário, na expressividade de um rosto ou na estranheza de uma criatura que parece ter sido encontrada num objeto antigo, num brinquedo ou num sonho.

Em O Bosque Selvagem, essa característica vai perdendo espaço à medida que a narrativa se transforma numa aventura de proporções cada vez maiores. Entram as batalhas monumentais, os confrontos entre grupos, os efeitos digitais e a busca por um espetáculo que precisa parecer maior a cada nova sequência.

O stop motion continua presente, mas deixa de ser o princípio dominante da experiência. Em determinados momentos, parece quase um componente entre tantos outros, subordinado à necessidade de ampliar a escala visual.

E é aí que a produção desperdiça uma de suas vantagens mais interessantes. Em vez de explorar aquilo que a técnica oferece de particular, a beleza e graça dos bonecos e seu movimento quase mágico, tenta competir com modelos de fantasia que dependem de outra lógica de produção e de outra concepção de espetáculo.

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Não se trata de dizer que stop motion e efeitos digitais não possam conviver. Podem, evidentemente. Tampouco existe qualquer obrigação de que um estúdio repita para sempre a fórmula de seus primeiros sucessos. A questão é que a ampliação da escala deveria produzir novas possibilidades, não apagar justamente aquilo que tornava o trabalho reconhecível.

O filme quer ser grandioso, mas, nessa busca, perde parte da personalidade que poderia distingui-lo de tantas outras aventuras fantásticas.

A comparação com Labirinto: A Magia do Tempo ajuda a esclarecer o que está em jogo. Os dois filmes partem de uma situação semelhante: uma garota precisa atravessar um mundo extraordinário para resgatar o irmão mais novo. Ambos oferecem criaturas fantásticas, lugares estranhos e regras que não correspondem à realidade cotidiana.

Mas Labirinto tem uma linha de progressão muito mais fácil de acompanhar. A protagonista precisa avançar, superar obstáculos e encontrar o caminho até o objetivo. As criaturas e os episódios que encontra pelo percurso contribuem para a aventura e para a transformação da personagem. O filme não precisa explicar a estrutura inteira de um universo para que o espectador compreenda o que está acontecendo.

Essa concentração dá força à experiência. A fantasia pode ser estranha, absurda e até desconcertante, mas o espectador não perde de vista a personagem nem aquilo que ela está tentando fazer.

Em O Bosque Selvagem, a garota acaba se perdendo em meio a tribos, exércitos, rainhas, bandoleiros e animais falantes. Há tantas instâncias de poder, tantos grupos e tantas situações que a aventura parece se afastar de seu ponto de partida.

O que deveria ser uma jornada de autodescoberta passa a disputar espaço com a obrigação de apresentar mais uma facção, mais uma regra ou mais um acontecimento. E a protagonista corre o risco de virar apenas a guia que conduz o espectador por um catálogo de invenções.

É por isso que Labirinto permanece tão eficiente dentro dessa comparação. Não porque seja necessariamente mais simples em todos os aspectos, mas porque sabe concentrar a atenção no percurso da personagem. Sua fantasia tem uma função dramática reconhecível.

Em O Bosque Selvagem, essa concentração se perde. E, em determinados momentos, a sensação é de que o filme já não sabe muito bem para onde está indo. É uma bagunça desgraçada.

No fim, O Bosque Selvagem parece sofrer de um problema recorrente no entretenimento contemporâneo: a ideia de que uma obra precisa ser constantemente ampliada para justificar sua existência. Mais personagens, mais conflitos, mais referências, mais efeitos, mais duração. Como se a experiência fosse necessariamente melhor quando contém mais coisas.

Mas a acumulação não substitui a organização. Uma história pode ter um universo enorme e continuar dramaticamente concentrada. Também pode apresentar poucas ideias e ser confusa. O tamanho do mundo ficcional não determina a qualidade da narrativa; o que importa é a relação entre os elementos e a função que cada um desempenha.

A produção da Laika tinha a oportunidade de combinar uma aventura de fantasia com aquilo que o estúdio faz de maneira tão particular. Em vez disso, parece tentar se aproximar de um modelo de espetáculo grandioso, enquanto distribui a atenção por uma quantidade excessiva de personagens e situações.

Se você esperava uma experiência delicada, artesanal e nostálgica, próxima da magia de Labirinto: A Magia do Tempo, talvez seja melhor ajustar as expectativas. O Bosque Selvagem prefere a ação, as batalhas, a multiplicação de conflitos e uma mitologia que parece crescer a cada sequência.

E não há nada de errado em fazer um filme grandioso. O erro está em supor que grandiosidade significa necessariamente complexidade, e que complexidade significa acumular tudo o que couber dentro da história.

Talvez a pergunta inicial precise ser reformulada. Não é que os filmes infantis tenham ficado complicados demais porque as crianças de hoje não conseguem acompanhar narrativas sofisticadas. É possível que alguns desses filmes estejam tão ocupados tentando impressionar os adultos, construir universos expansíveis e oferecer estímulos incessantes que acabem esquecendo o básico: contar uma boa história.

O Senhor dos Anéis pode se dar ao luxo de uma mitologia extensa porque existe uma estrutura dramática capaz de sustentá-la. Labirinto consegue transformar uma aventura fantástica numa jornada pessoal porque sabe manter o foco. O Bosque Selvagem reúne elementos dos dois modelos, mas não encontra o mesmo equilíbrio.

No cinema, como em qualquer outra forma narrativa, saber o que deixar de fora é tão importante quanto saber o que incluir.

Às vezes, o filme não precisa de mais uma criatura, mais uma batalha ou mais uma história dentro da história. Precisa apenas parar de abrir novas janelas e voltar a olhar para aquela que realmente importa.

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