Hideo Kojima diz que rótulo de ‘simulador de caminhada’ em Death Stranding é o que mais incomoda
Hideo Kojima e Alejandro G. Iñárritu, diretor de Digger, discutem como redes e IA criam opiniões sobre obras que ninguém viu.
Desde 2019, Death Stranding carrega um apelido que Hideo Kojima nunca engoliu: “simulador de caminhada”. Sete anos e uma sequência depois, o criador japonês voltou ao assunto, e desta vez com uma preocupação maior que o próprio jogo. O que o assusta, diz ele, é que o rótulo se espalhou entre pessoas que nunca jogaram.
A reflexão surgiu numa conversa com o cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu, publicada por um site japonês para marcar a estreia de Digger no Japão. Os dois falaram sobre como as redes sociais fabricam certezas sobre obras que o público nem experimentou.
Opinião pronta sobre o que ninguém viu
Iñárritu puxou o tema. O diretor de Birdman e O Regresso disse viver preocupado com a forma como cada um se fecha em verdades fragmentadas dentro do celular, herdando opiniões em vez de formar as próprias. Segundo ele, a conversa em torno de Digger é alimentada menos pelo filme e mais pelas histórias que circulam sobre ele.
Ele comparou o fenômeno a uma gripe. Quem é contaminado passa a enxergar tudo através do mesmo filtro, e a realidade de outra pessoa acaba imposta a todos. Na imagem do cineasta, se alguém diz que algo é amarelo, todo mundo passa a ver amarelo, mesmo quando é vermelho.
O desabafo tem contexto. Digger, sátira estrelada por Tom Cruise como um magnata do petróleo que provoca uma catástrofe ecológica, estreou no Brasil em 1º de outubro e teve desempenho fraco nas bilheterias pelo mundo.
A entrega que virou “caminhada”
Kojima concordou e trouxe o próprio exemplo. Em Death Stranding, o jogador vive Sam Porter Bridges, um entregador que atravessa uma América devastada para reconectar o país. Para o criador, quem nunca jogou repete que aquilo é só um simulador de caminhada, como se tivesse experimentado.
A percepção, segundo ele, persiste até hoje. É uma das descrições mais comuns do jogo, e foi isso que ele apontou como o que mais o assusta. Death Stranding 2: On the Beach, lançado em 2025, ampliou o combate e os veículos, mas não apagou o apelido.
O medo de nunca esbarrar no diferente
O japonês foi além e falou da inteligência artificial nas redes. Com algoritmos cada vez mais afinados, cada pessoa só encontra o que já gosta e opiniões com as quais já concorda. Perspectivas completamente diferentes deixam de aparecer.
Para Kojima, esse é o ponto mais preocupante: a chance de encontrar alguém ou algo por acaso desaparece. É uma ironia curiosa vinda dele. Death Stranding foi construído justamente em torno da ideia de conexão, com jogadores que nunca se veem deixando pontes, escadas e recados uns para os outros.
Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema.
Apaixonado por histórias que transformam.
Contato: matheus@nosbastidores.com.br
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