Crítica | Digger é sátira provocativa que confunde a cabeça do espectador
Digger pode provocar rejeição, perplexidade ou admiração. Indiferença, porém, parece ser uma das poucas reações que ele realmente não permite.
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É preciso tomar algum cuidado ao falar de Digger, porque estamos diante de um daqueles filmes em que revelar demais sobre a trama pode destruir justamente a parte mais importante da experiência. O roteiro possui dois grandes pontos de virada: o primeiro aparece depois de aproximadamente meia hora, enquanto o segundo é muito mais difícil de antecipar. É uma surpresa dentro de outra surpresa. Por isso, mais interessante do que reconstituir sua história é observar como o filme constrói suas camadas e, sobretudo, como transforma aquilo que inicialmente parece uma sátira relativamente convencional em algo bem mais incômodo.
Uma das primeiras coisas que chamam atenção em Digger é aquilo que está diante dos nossos olhos: o desenho de produção de Dennis Gassner, envolvido em projeto no nível de 007 e Blade Runner. Alejandro González Iñárritu sempre foi um cineasta interessado na relação entre personagens e espaços. Em Birdman, isso aparecia no movimento contínuo dos atores pelos ambientes; em Bardo, ganhou proporções quase oníricas. Em Digger, essa preocupação chega a um nível de realização extraordinário.
O espaço não está simplesmente ali para servir de cenário: ele participa da dramaturgia. A escala das construções, a composição dos planos e a maneira como os personagens ocupam esses lugares fazem parte da narrativa, combinando-se à fotografia de Emmanuel Lubezki e a uma produção concebida em escala monumental. Rodado parcialmente em VistaVision e destinado também às salas IMAX, o filme assume sem constrangimento a condição de espetáculo.
Digger é, essencialmente, uma sátira. Seu protagonista, interpretado por Tom Cruise, é um homem extremamente rico e poderoso, ligado à exploração de petróleo. Uma catástrofe ambiental de proporções gigantescas coloca em risco seus negócios e uma parcela enorme da população, obrigando-o a enfrentar as consequências daquilo que provocou. Só que sua primeira preocupação não parece ser necessariamente resolver o problema, e sim “controlar a narrativa”. Digger precisa convencer o mundo de que continua sendo o homem capaz de solucionar a situação – ou, mais precisamente, de que pode transformar-se em um salvador indigesto da humanidade.
A ideia, em si, é bastante satírica: o homem responsável por uma catástrofe passa a construir a própria imagem como aquele que irá salvar o mundo dela. A complicação é que Iñárritu estabelece as regras dessa sátira e, em seguida, começa a questionar a própria sátira.
Isso cria uma situação desconfortável para o espectador. Você reconhece uma figura política ou econômica sendo ridicularizada, entende a piada e ri. Mas, algum tempo depois, começa a surgir uma dúvida: será que o filme está simplesmente concordando comigo? Será que está me oferecendo exatamente aquilo que eu esperava receber? Ou será que estou sendo manipulado pelo próprio mecanismo que acreditava controlar?
O cinema industrial contemporâneo utiliza constantemente mecanismos destinados a produzir satisfação. O filme apresenta uma situação, confirma uma expectativa, oferece uma recompensa emocional e segue adiante. Digger também utiliza esses mecanismos, mas de maneira particularmente perversa. Ele entrega ao espectador algumas caricaturas bastante reconhecíveis do mundo político e econômico norte-americano – como o assessor presidencial pentecostalista – e permite que a plateia desfrute da sensação de estar do lado certo da piada. É o “biscoito” oferecido pelo filme ao público em troca de aprovação. Só que, em seguida, o enredo parece perguntar: e se eu estiver usando você exatamente dessa maneira, controlando suas reações diante de uma agenda repetidamente explorada pela mídia?
É aí que a segunda camada narrativa começa a adquirir importância. Sem revelar o que acontece, basta dizer que aquilo que inicialmente parece uma sátira sobre política, capitalismo, poder e catástrofe ambiental vai assumindo outro significado. O homem de negócios dominado pela própria ambição não é exatamente uma novidade. A aproximação mais evidente é com Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson: como o personagem de Daniel Day-Lewis, Digger enxerga o mundo fundamentalmente como matéria-prima para conquistar dinheiro, poder, prestígio e influência. Mas há algo profundamente humano nessa ambição, e é justamente essa contradição que impede o personagem de se transformar simplesmente numa caricatura do capitalista.
Também há muito de Stanley Kubrick na maneira como o filme transforma poder político e ameaça de destruição em teatro absurdo. Dr.Fantástico é uma referência evidente, enquanto Laranja Mecânica aparece não apenas nos cenários e na trilha musical, mas na própria organização dos personagens dentro dos espaços. E existe ainda uma aproximação com os Irmãos Coen de Queime Depois de Ler: pessoas poderosas comportando-se de maneira ridícula, enquanto decisões aparentemente gigantescas nascem de interesses pequenos, vaidades e equívocos. Já Nashville, de Robert Altman, fornece outra chave possível, ao apresentar um universo de personagens e interesses cruzados que parece caótico, mas revela progressivamente uma organização sociocultural por trás da desordem.
Tudo isso é colocado dentro de um espetáculo visual gigantesco. E aqui surge uma ironia particularmente interessante. Digger fala de recursos naturais, destruição ambiental, consumo e da maneira como a civilização administra seus próprios recursos. Mas é, ele mesmo, uma superprodução que depende de uma mobilização monumental de recursos humanos, econômicos e tecnológicos. Cenários, equipamentos, efeitos, locações, transporte e pós-produção fazem do cinema industrial uma operação quase de guerra. Qualquer pessoa que já tenha passado poucos dias dentro de um set de filmagem sabe como o desperdício é uma rotina caótica dentro da montanha russa de uma produção de grande orçamento.
Há, portanto, uma contradição inevitável: um filme pode questionar o excesso de consumo e, simultaneamente, ser uma expressão monumental da própria capacidade de acumulação que tornou possível sua existência. Digger quer controlar a realidade, enquanto Iñárritu constrói uma realidade cinematográfica inteira para nos apresentar. Personagem e cineasta acabam funcionando como uma espécie de espelho.
Tom Cruise está muito bem, sustentando uma caricatura que poderia facilmente cair no exagero. O resultado é um personagem desconfortável, contraditório e difícil de enquadrar. E talvez isso seja também uma boa definição do próprio filme.
Digger não é fácil de assistir, compreender ou necessariamente gostar. Mas essas três coisas são diferentes de dizer que ele não é bom. É uma experiência cinematográfica bastante particular: um filme que oferece espetáculo, mas desconfia do próprio espetáculo; que constrói uma sátira, mas começa a questionar a própria sátira; que apresenta caricaturas e depois pergunta ao espectador até que ponto ele está apenas rindo daquilo que já esperava ridicularizar.
Iñárritu é frequentemente acusado de pretensão, mas há uma qualidade importante nessa disposição para correr riscos. Digger é uma comédia ácida e incômoda que pode passar do estereótipo banal à metalinguagem quase dentro da mesma cena. Talvez não seja um filme fácil – e certamente não está interessado em ser simplesmente divertido. Mas, numa época em que boa parte do cinema industrial parece cada vez mais preocupada em entregar ao público exatamente a recompensa emocional que ele espera receber, existe algo estimulante em uma obra que, de tempos em tempos, tira essa recompensa de nossa frente e troca por um remédio amargo e impossível de identificar.
Digger pode provocar rejeição, perplexidade ou admiração. Indiferença, porém, parece ser uma das poucas reações que ele realmente não permite.