Crítica | Contos Paralelos é desafio para Farhadi filmando em idioma estrangeiro
Contos Paralelos ganharia se a montagem desenvolvesse mais calmamente cada uma das janelas (paralelas) que o roteiro abre
Da tríade de cineastas iranianos mais consagrados internacionalmente, Asghar Farhadi é o que alcançou um reconhecimento mais amplo porque é – dentre eles – o que trabalha mais tradicionalmente a narrativa cinematográfica ficcional. Enquanto o cinema de Abbas Kiarostami é poético e metalinguístico no limite do ascetismo e o de Jafar Panahi usa o ruído entre construção formal e realidade para trazer à tona as contradições políticas de seu país, Farhadi adapta a própria estética cinematográfica iraniana a uma “embalagem” compreensível para boa parte do público sem, ao mesmo tempo, confrontar o regime no limite da penalização (preocupação que Panahi, recentemente condenado à prisão, parece não demonstrar).
Apesar de contar com uma margem de manobra bem mais ampla em relação à ditadura islâmica que manda no Irã que Panahi e também Makhmalbaf (de Um Instante de Inocência), por exemplo, os filmes de Farhadi nunca deixaram de ser extremamente reveladores a respeito das fissuras sociais ocasionadas pelo sectarismo e de como suas consequências criam raízes profundas na sociedade iraniana, ampliando distâncias que são religiosas, ideológicas e também econômicas.
A fratura cultural no Irã está bem narrada em filmes excepcionais como Procurando Elly, de 2009, A Separação e O Apartamento, respectivamente de 2011 e 2016 e ambos vencedores do Oscar internacional em seus anos. Todos esses títulos são superiores a Contos Paralelos, sua jornada em uma produção onde ele trabalha em idioma francês com um elenco também internacional. Isso não significa, entretanto, que o filme não tenha seu próprio rol de qualidades.
Costuma ser desafiador para um diretor acostumado a trabalhar em seu país com atores e idioma próprios ter de se adaptar a uma coprodução com muitos agentes de diferentes origens como é o caso aqui. Cineastas de sucesso no mesmo segmento da indústria como Wong Kar-wai, Wim Wenders, Ang Lee, o próprio Kiarostami e tantos outros passaram anteriormente por tal experiência, com resultados e êxitos variados. Mas Farhadi parece confortável em fazer um filme que é, antes de “internacional”, tipicamente francês.
Na trama, a indefectível Isabelle Huppert é Sylvie, uma escritora reclusa que vive num apartamento imenso e caótico que precisa desocupar para dividir o valor da venda com sua sobrinha grávida Laurence (India Hair). Esta por sua vez sofre uma tentativa de assalto no metrô parisiense e é salva por Adam, personagem do ator franco-argelino Adam Bessa, um refugiado sem teto que recupera sua carteira e termina sendo contratado pela tia para ajudar na mudança.
Sylvie atravessa uma crise criativa que ela tenta mitigar ao espionar seus vizinhos do prédio da frente, onde funciona um estúdio de som liderado por Pierre, vivido por Vincent Cassel. Ele grava sons acompanhado pelo irmão Théo, personagem de Pierre Niney (da exuberante versão de 2024 para O Conde de Monte Cristo), e sua namorada Nita, vivida por Virginie Efira. A escritora elabora dramas para aquele triângulo desconhecido de vizinhos, até que o próprio Adam, semiletrado mas com uma visão poética do cotidiano e algum tipo de ambição artística inexplorada, começa a intervir nos dois universos, o real e o ficcional, funcionando como uma ponte imprevista entre os dois lados da rua, entre a vida e a literatura, trazendo à tona as limitações e sentimentos envolvidos entre todos os personagens, alguns já descobertos e outros que serão revelados.
Filme parte de uma premissa de outro filme famoso
O roteiro de Contos Paralelos credita como inspiração o clássico drama do diretor polonês Krzysztof Kieslowski, o sexto episódio de seu famoso Decálogo e conhecido no Brasil como Não Amarás, de 1988. É de lá que ele retira o seu ponto de partida sobre a interação de um voyeur que aos poucos vai entrando na vida do objeto de sua observação. Porém, enquanto o filme de Kieslowski está mais interessado na dimensão humana do amor e suas implicações filosóficas, existenciais, o interesse de Farhadi está em outro lugar: na forma como a premissa original pode se desdobrar numa estrutura que, de tão visível, acaba pesando sobre o próprio filme.
A maioria dos filmes costuma se equilibrar num eixo que vai da emoção à razão, ou seja: dependendo da natureza do projeto e do interesse de seus realizadores, um filme irá trabalhar mais a resposta emocional do público, enquanto outro estará mais dedicado à uma formulação racional da obra. Coração, de um lado, e mente, na outra ponta. De forma geral, o cinema de entretenimento, o “cinemão”, Hollywood, está mais interessado em despertar emoções no espectador (encanto, excitação, medo, piedade), e é nesse caminho que ela concentra uma grande parte de seus esforços. O cinema “de arte” e “de festivais” costuma ter uma abordagem mais cerebral, e é precisamente o caso de Contos Paralelos – e por isso uma boa oportunidade para observar as limitações que a própria natureza dessa abordagem encontra quando bate na tela.
O cinema moderno parece assombrado pelo fantasma de Rashomon (ou síndrome, se assim preferir), o clássico e influente filme de 1950 dirigido por Akira Kurosawa e um dos primeiros ou principais em trazer à tona a questão de ponto de vista na narrativa e fazer dele a própria essência estrutural do enredo. O fio narrativo condutor deixa de pertencer a um ponto de vista determinado e passa a flutuar entre diferentes perspectivas, que alteram a maneira como a história, os personagens e motivações são percebidos pela audiência. Esta é uma das obsessões do cinema moderno (em contraposição ao clássico), ao lado da não-linearidade e da dificuldade em estabelecer uma verdade objetiva.
Esse procedimento foi se tornando ao longo de décadas uma ferramenta útil e criativa para muitos roteiristas e cineastas, mas também paralelamente ficando cada vez mais perceptível aos olhos do espectador, de modo que, hoje, é uma estrutura tão visível e sobrecarregada formalmente que algumas vezes se torna o filme inteiro e não apenas a armação invisível que deveria sustentar o roteiro. É o caso de Contos Paralelos que, ao apostar acima de outros aspectos na problemática do ponto de vista, vai acumulando camada sobre camada, cena após cena, um expediente que chama tanta atenção para si mesmo que o filme acaba quase que inteiramente reduzido a um jogo onde quem assiste fica desvendando mistérios formais momentâneos e reduz a experiência inteira a essa observância de regras internas.
Temos a história dos vizinhos sendo espiados, e a forma como eles são retratados na literatura de Sylvie, e o ponto de vista de Adam, e a linha narrativa do próprio Adam, e o diário de Nita, e as páginas do livro encenadas, numa sobreposição um pouco confusa, mas certamente cansativa, que torna o filme mais pesado sem necessariamente conseguir torná-lo mais profundo ou humano. A metáfora quase óbvia do trabalho dos sonoplastas (atribuindo ruídos, “diálogos sem palavras”, às imagens que observam) torna ainda mais evidente o caráter da obra.
Eu tenho uma tendência a acreditar que os melhores filmes seguem um ponto de vista exclusivo e focado, rigoroso, e são meticulosos em uma linha narrativa única – ou, quando dividem a atenção do público em mais de uma delas, o equilíbrio trabalha em termos de complementação, e não de saturação (como parece ser o caso aqui). Farhadi está mais interessado nessa multiplicidade de interesses e de camadas que em dotar cada linha narrativa de complexidade real. É como olhar para um relógio e se deparar com todo o seu mecanismo exposto, mas ao mesmo tempo ter dificuldade em saber finalmente que horas são. Esse aspecto meio “mecanizado”, onde as peças ficam soltas e aparentes diante do espectador, são uma marca de toda uma nova tradição de cinema, e não um atributo exclusivo deste filme. Mas a tendência que esse tipo de abordagem tem de, muitas vezes, reduzir a experiência cinematográfica a um jogo de quebra-cabeça, torna sua comparação com o cinema clássico desfavorável em alguns casos.
O balanço do filme é positivo por causa do elenco e da dramaturgia sólida, embora confusa
Nada disso faz de Contos Paralelos um mau filme: ele tem qualidades em quantidade suficiente para manter o interesse. O elenco é muito bem escolhido e mesmo o roteiro, apesar dessa sobrevalorização de sua própria forma, tem aquela consistência típica do bom cinema dramático, urbano, europeu, “afrancesado”, cujo interesse está nas relações entre as pessoas, em como estas se apaixonam, se iludem e se magoam na mesma proporção. Nenhum dos personagens é excepcionalmente dotado de qualidades humanas: todos se parecem com pessoas reais, hesitam e se contradizem, escondem o que pensam e deixam lacunas em suas ações que convidam o espectador a pensar e encontrar neles lampejos de sua própria humanidade. Isso é bom cinema em qualquer idioma.
Contos Paralelos ganharia se a montagem desenvolvesse mais calmamente cada uma das janelas (paralelas) que o roteiro abre, sem ficar empilhando uma sobre a outra – ou melhor descrevendo: se as janelas não se abrissem para si mesmas até o ponto em que nem o filme, nem a plateia, sabe mais em que dimensão do universo criado pelo filme o próprio filme está. Restaria o que ele tem de melhor: a crônica sobre personagens interessantes, cujo passado e as reais motivações jamais ficam plenamente elucidadas; a direção econômica, quase tímida, de Farhadi; e um olhar estrangeiro para uma Paris sem romantização, sustentada mais pelas relações entre seus habitantes que pelas colunas pichadas que se espalham como uma praga pela paisagem da cidade.

Cineasta, roteirista e colaborador esporádico de publicações na área, diretor do documentário “O Diário de Lidwina” (disponível no Amazon Prime e ClaroTV), entre outros.
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