Shin Godzilla: quando Hideaki Anno transformou Evangelion em um filme de Godzilla

Shin Godzilla às vezes pareça ter vindo de outro mundo...ou melhor, de um anime.

Ayrton Magalhães
Ayrton Magalhães 7 min de leitura

É impossível assistir a Shin Godzilla sem sentir que, em algum momento, você está assistindo a um episódio gigantesco de “Neon Genesis Evangelion”. E isso não é por acaso.

Hideaki Anno, criador de Evangelion, dirige o filme ao lado de Shinji Higuchi, seu antigo colaborador desde os tempos de “Gainax”, e a assinatura de Anno está espalhada por praticamente todos os cantos da produção. A montagem acelerada, os diálogos disparados, as salas de comando, os enquadramentos fechados, a linguagem militar, a obsessão por mapas, computadores e procedimentos de emergência e, principalmente, a sensação de que o mundo está prestes a acabar enquanto os personagens tentam descobrir o que fazer.

Shin Godzilla não é simplesmente um filme influenciado por Evangelion. Em muitos momentos, ele parece uma espécie de Evangelion sem os famosos EVAS.

E talvez seja justamente isso que torne essa versão de Godzilla tão diferente de todas as anteriores.

O MESMO CÉREBRO POR TRÁS DE EVANGELION

Antes de falar das referências, é importante entender que Shin Godzilla reúne praticamente a mesma equipe criativa responsável por boa parte da identidade de Evangelion.

Hideaki Anno assume a direção e o roteiro, Shinji Higuchi divide a direção — especialmente nas sequências de efeitos e ação — e Shiro Sagisu compõe a trilha sonora, repetindo uma parceria que já havia produzido uma das identidades musicais mais reconhecíveis dos animes japoneses.

Higuchi, inclusive, não era um estranho ao universo de Anno. Ele trabalhou em Evangelion desde os primeiros anos da produção e participou da criação da série. Sagisu, por sua vez, é o compositor de praticamente toda a franquia.

Por isso, quando Shin Godzilla começa a acelerar seus cortes, apresentar personagens através de textos na tela e transformar reuniões governamentais em cenas de tensão, existe uma familiaridade imediata.

GODZILLA COMO UM ANJO

A primeira grande semelhança está no próprio Godzilla.

Em Evangelion, os Anjos são criaturas difíceis de compreender. Eles aparecem sem que o público tenha necessariamente uma explicação imediata sobre sua origem ou seus objetivos. São ameaças quase alienígenas, biologicamente estranhas, que possuem formas e poderes completamente diferentes umas das outras.

O Godzilla de “Shin Godzilla” é apresentado de maneira muito semelhante. Ele não é imediatamente o gigantesco monstro que conhecemos. Surge inicialmente como uma criatura aquática estranha, quase incompreensível, e passa por diferentes estágios de evolução até assumir sua forma adulta.

Essa ideia de uma criatura que evolui durante o próprio conflito lembra diretamente os Anjos de Evangelion. A aparência de Godzilla muda, seu corpo se transforma e suas capacidades parecem surgir conforme ele se adapta ao ambiente.

A própria maneira como a câmera observa o monstro contribui para isso. Godzilla não é filmado como um personagem tradicional. Ele muitas vezes parece um fenômeno biológico que os humanos estão tentando compreender. Seus olhos, sua pele, sua anatomia e seus movimentos são tratados com estranheza.
Isso o aproxima muito mais de anjos do universo de Evangelion como Sachiel, Ramiel ou Zeruel do que do Godzilla tradicional.

A OPERAÇÃO YASHIORI E A OPERAÇÃO YASHIMA

Talvez a referência mais evidente esteja no clímax.

Em Evangelion, o 6° episódio apresenta a famosa Operação Yashima, um plano desesperado para destruir o Anjo Ramiel utilizando uma enorme quantidade de energia elétrica concentrada em uma arma de longo alcance. É uma sequência construída como uma operação militar gigantesca: planos, mapas, equipes técnicas, cálculos, comunicação entre diferentes setores e uma contagem regressiva que transforma toda a preparação em suspense.

Em Shin Godzilla, a estratégia final para derrotar o monstro recebe o nome de Operação Yashiori. E a semelhança de ambas operações não está apenas no nome!

A estrutura da sequência é praticamente uma homenagem à linguagem de Evangelion. Pessoas trabalhando em diferentes setores, ordens sendo transmitidas rapidamente, equipes militares se posicionando, equipamentos sendo preparados e uma enorme operação coletiva sendo executada em questão de minutos.

E, principalmente, a música! A trilha utiliza “DECISIVE BATTLE”, composição de Shiro Sagisu feita para Neon Genesis Evangelion. O uso do tema é tão direto que a referência deixa de ser apenas uma semelhança estética. A operação final em Shin Godzilla é filmada como uma gigantesca Operação Yashima contra um Anjo que, por acaso, é Godzilla.

“DECISIVE BATTLE”

Eu juro que arrepiei na primeira vez que assisti e ouvi essa música, pois logo associei ela a Evangelion.

Shiro Sagisu não apenas compôs uma trilha com o mesmo estilo de Evangelion. Shin Godzilla utiliza temas diretamente utilizados no anime!

“DECISIVE BATTLE” aparece durante momentos de planejamento e ação, criando uma conexão imediata com as batalhas de Evangelion. A própria cadência da música faz com que uma reunião de funcionários do governo pareça subitamente uma batalha contra um Anjo. O efeito é curioso porque Shin Godzilla transforma algo extremamente burocrático em espetáculo. Uma sala cheia de pessoas discutindo estratégias passa a ter a mesma tensão de uma sala de comando da NERV. E isso é muito Anno.

Em Evangelion, muitas vezes a batalha mais importante não acontece necessariamente no campo de batalha, mas na sala onde alguém está tentando decidir o que fazer. Shin Godzilla entende perfeitamente essa lógica. As salas de comando da NERV viram o governo japonês

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Uma das maiores características visuais de Evangelion são suas salas de comando. Personagens sentados diante de computadores. Telas exibindo informações. Telefones tocando. Pessoas dando ordens. Técnicos analisando dados. Funcionários discutindo possibilidades enquanto o perigo se aproxima.

Shin Godzilla pega exatamente essa linguagem e transforma isso em uma das suas principais fontes de humor e tensão. Os personagens falam rápido, interrompem uns aos outros, mudam de sala, recebem novas informações e precisam tomar decisões enquanto a situação piora.

O SOPRO ATÔMICO

E então chega uma das imagens mais emblemáticas do filme. Godzilla abre a boca e dispara seu enorme raio. Mas não é simplesmente o tradicional sopro atômico.

O ataque se comporta de maneira quase sobrenatural: a energia atravessa a cidade, corta prédios e se espalha como uma lâmina de destruição.

Visualmente, ele possui uma relação muito forte com os ataques dos Anjos.

A comparação fica ainda mais evidente porque Evangelion utiliza diferentes tipos de raios, feixes e ataques energéticos como manifestações de poderes que não obedecem necessariamente às regras convencionais da física.

BODY HORROR

Outra semelhança bastante interessante está na maneira como Shin Godzilla trata o corpo do monstro.

Godzilla sangra. Seu corpo é deformado. Sua pele parece estar em constante transformação. Ele não possui a aparência limpa e heroica de alguns designs anteriores. Existe algo profundamente desconfortável em sua anatomia.

Isso aproxima o filme do body horror de Evangelion. Pois os Evangelions, apesar de serem apresentados inicialmente como robôs gigantes, sempre tiveram uma dimensão corporal perturbadora. Sangram, gritam, entram em estado de fúria e se comportam como seres vivos. Godzilla faz algo parecido neste filme

GODZILLA COMO DIVINDADE

Evangelion sempre brincou com a ideia de seres que estão entre o biológico e o divino.

Entre Anjos. Evas. Lilith. Adão. Instrumentalidade, etc…O limite entre Deus, humano e monstro é constantemente questionado.

E em Shin Godzilla, o Rei dos Monstros é tratado como uma criatura que ultrapassa as categorias conhecidas. Ele é descrito como uma forma de vida extremamente avançada e quase divina. Ele não é tratado simplesmente um animal gigante. É algo que está evoluindo além daquilo que os humanos conseguem compreender. Essa ideia aproxima o Godzilla de Shin muito mais dos seres de Evangelion do que do tradicional monstro radioativo.

É Godzilla visto pelos olhos de Hideaki Anno.
E talvez seja justamente por isso que, apesar de ser um filme de Godzilla, Shin Godzilla às vezes pareça ter vindo de outro mundo…ou melhor, de um anime.

 

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