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De Olhos Bem Fechados e Arquivos Epstein: o que realmente há por trás do filme de Kubrick e o que é boato de internet?

De Olhos Bem Fechados sobrevive e permanece não porque revela, enfim, algo “escondido”, mas unicamente por suas qualidades estéticas.

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
16 min de leitura
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A recente divulgação de mais de três milhões de páginas referentes aos chamados “Arquivos Epstein” (ligados ao financista e criminoso norte-americano Jeffrey Epstein, morto em agosto de 2019) trouxe ao menos uma consequência curiosa e que envolve cinéfilos do mundo todo: o renovado interesse na produção De Olhos Bem Fechados, o último filme dirigido por Stanley Kubrick, aquele que é talvez o mais polêmico e extravagante entre os grandes autores da História do Cinema ocidental e cuja fama construída alimenta todo tipo de suspeita e divagação.

Embora usem elementos do próprio filme para estabelecer ligações entre eventos reais e a ficção da tela, a maioria dos vídeos e “reacts” postados nas últimas semanas sobre De Olhos Bem Fechados parte de premissas falsas, ignorando deliberadamente (ou não) informações factuais para construir uma narrativa paranoica e “misteriosa” – exatamente o tipo de conteúdo que costuma viralizar porque exige pouca participação ativa de quem curte e compartilha, disseminando um clima de “investigação” onde, geralmente, há apenas falta de conhecimento aprofundado sobre determinado assunto.

Separamos aqui os quatro principais tópicos que costumam aparecer no conteúdo postado sobre o filme: a novela da qual ele foi adaptado, seu tema central, a edição final e, finalmente, a morte de Stanley Kubrick.

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Breve Romance de Sonho: a obra literária que deu origem ao roteiro do filme

Nem todo mundo que ouve falar a respeito da produção tem conhecimento de que ele não é um enredo original, mas sim a adaptação de uma curta novela escrita por Arthur Schnitzler em 1926. O texto do escritor austríaco teve ao menos três adaptações menos conhecidas antes de Kubrick debruçar-se sobre ele e, ao lado do roteirista norte-americano Frederic Raphael, levar às telas a atualização do enredo que conhecemos hoje.

O livro “Kubrick – De Olhos Bem Abertos”, escrito por Raphael, é uma descrição sagaz do processo de adaptação do livro, a partir do ponto de vista do parceiro do diretor na empreitada. Ele contém detalhes importantes e que ajudam a compreender muita coisa que está no filme (embora biógrafos do diretor vejam no livro um viés de autocomiseração do roteirista). 

Não é demais salientar que o texto original de Schnitzler faz 100 anos no momento em que os arquivos Epstein vêm a público. Seu enredo imaginativo e provocador é muito anterior a todos os fatos cujas “conspirações” ligam às cenas do filme. De fato, todas as suas principais cenas estão presentes na novela: portanto, seria impossível que acontecimentos ou práticas supostamente reais e ligadas a personalidades do presente (ou ao menos dos últimos 100 anos) pudessem ter de alguma forma inspirado um livro escrito muitas décadas antes.

As duas sequências mais controversas do filme de Kubrick estão claramente presentes na novela austríaca e fazem referência à sociedade da época: a orgia sigilosa da elite, povoada de “mulheres imóveis, todas com véus negros ao redor da cabeça, testa e nuca, máscaras de renda negra no rosto, seus corpos inteiramente nus” (Raphael se gaba de ter acrescentado uma contextualização modernizada para a cena que teria horrorizado o próprio diretor, mas esta é uma versão que, aparentemente, só ele mesmo corrobora); e o ultrajante episódio da loja de fantasias, em que o proprietário negocia favores sexuais da própria filha, nas palavras literais do escritor, “uma mocinha encantadora, ainda bastante jovem, quase uma criança, vestindo uma fantasia de pierrete e meias brancas de seda”.

Ou seja: tanto a orgia como o episódio do abuso infantil têm origem na obra literária e não em qualquer “informação privilegiada” que o diretor pudesse ter a respeito de eventos contemporâneos. O retrato das depravações típicas à alta classe social (seja da Viena do início do século XX ou da Nova York de seu final) funciona, na melhor das hipóteses, como uma metáfora abrangente da decadência moral das elites, e não de uma elite específica (seja ela “moderna”, “ocidental”, “globalista”, etc.). Para alguns estudiosos do diretor, a exuberância da orgia é mero reflexo da “libido frágil e atormentada” do ciumento Bill Harford, o personagem vivido por Tom Cruise, o que é uma interpretação muito mais lógica e que se explica internamente, dentro do próprio filme, não precisando recorrer a elementos externos para fazer sentido.

O tema central do filme não tem qualquer relação com “sociedades secretas”

Stanley Kubrick tinha muita dificuldade em escolher o material de seu próximo filme e este é um dos motivos (talvez o principal) de ele ter filmado tão pouco diante das possibilidades que a indústria lhe oferecia ao longo da carreira. Cada novo projeto era objeto de um extenso processo envolvendo pesquisa, uma infinidade de colaboradores (remunerados ou não, creditados ou não) e o cineasta só decidia por um tema quando havia esgotado todas as outras possibilidades de momento.

Durante muitos anos, Kubrick demonstrou interesse em adaptar a novela de Schnitzler, mas teve grande dificuldade em se decidir pela atualização dos eventos, a ambientação na sociedade contemporânea e a questão étnica dos personagens principais. O livro “Kubrick – Uma Odisseia”, escrito por Robert P. Kolker e Nathan Abrams, descreve todas as tentativas de adaptação (entremeadas por oportunidades frustradas de realizar outros filmes, como um sobre o Holocausto e aquele que, anos depois, viria a ser a produção A.I. – Inteligência Artificial, de Steven Spielberg, amigo íntimo de Kubrick) até a que seria a definitiva e bem-sucedida, em parceria com Frederic Raphael. 

Dos três principais livros que oferecem um retrato do processo de realização do filme a partir de fontes primárias, entrevistas com os envolvidos e documentos originais da década de 1990 (a biografia de Kubrick, o livro de Raphael e “Eyes Wide Shut – Stanley Kubrick and The Making of His Final Film”, também de Kolker e Abrams), nenhum deles evidencia qualquer interesse do diretor por denunciar “conspirações” ou “sociedades secretas” em atividade notadamente para negociar favores sexuais de menores de idade. Ou seja: se quiséssemos acreditar que o diretor tinha tal objetivo sigiloso, seria preciso acreditar também que tal missão tenha permanecido totalmente secreta por todos os anos em que ele havia estado envolvido com o projeto, jamais tendo comentado nada com nenhum de seus principais colaboradores, incluindo a esposa, o cunhado e amigos íntimos, bem como não deixando qualquer rastro na forma de material pesquisado ou anotações. 

De fato, o subtema da “elite secreta” é totalmente secundário dentro do filme e um tema geral sobre o qual Kubrick demonstrava baixo interesse ao longo da carreira se comparado a outros tópicos mais significativos para ele. Seu maior interesse em adaptar a novela não era a observação que o escritor fazia sobre “sociedades secretas” na Viena de sua época, tampouco fazer uma analogia sobre a atuação desses grupos nos Estados Unidos do final do século, mas sim o “casamento” e todas as suas implicações morais e sociais, que para Kubrick persistiam independente do tempo e do espaço. 

Todo o processo de pesquisa de Kubrick antes de filmar De Olhos Bem Fechados está concentrado no tema. Ele orientou sua equipe a buscar referência literárias e visuais sobre “sexo”, “casamento” e “relações extraconjugais”. Seu parente e produtor Jan Harlan era categórico: “Ele (S.K.) estava profundamente obcecado por ciúmes – os ciúmes são o verdadeiro tema de “Breve Romance de Sonho”, e a sexualidade uma subcategoria. A gente falava muito sobre isso, sobre como os ciúmes são o elemento mais destrutivo de todas as relações humanas – desde uma relação entre irmãos até o nacionalismo exacerbado e as guerras. Ele quis fazer um filme sobre isso por anos e anos…”.

Então, para que não fique dúvida: o interesse do diretor em fazer este filme e não outro não tinha nada a ver com “sociedades secretas”, tampouco com “exploração sexual” (embora o sexo fosse um tema central do livro e do filme, mas de uma perspectiva muito mais psicológica, “freudiana”, e pouco “criminal”). Seu interesse estava no relacionamento entre as pessoas, notadamente naquele entre homem e mulher dentro de um casal monogâmico tradicional, e em como certas convenções sociais a respeito da repressão dos desejos criava conflitos – para ele, tão bem descritos por Schnitzler em sua novela. Ele via o material como uma grande reflexão a respeito de seu próprio casamento e de relacionamentos anteriores com outras mulheres e filmar era sua maneira pessoal de lidar com as angústias decorrentes da vida de casado.

A ambientação extremamente rica e provocativa da longa sequência da orgia no filme resulta muito mais da capacidade típica do diretor de trabalhar um ritmo crescente de “climas e emoções” (conforme ele mesmo dizia ser uma de suas maiores preocupações como cineasta), presente tantas vezes em seus outros filmes (como nas famosas cenas icônicas de 2001 – Uma Odisseia no Espaço e O Iluminado) do que em algum projeto secreto de “passar pistas” para “avisar o público”. Da mesma forma, os elementos supostamente “escondidos” ao longo do filme (sejam palavras, objetos, cores, figurantes duplicados, etc.) relacionam-se mais com o processo altamente orgânico, detalhista e que envolvia colaboradores fiéis de Kubrick e que tinham a tendência natural a de certa forma “repetir” elementos autorreferentes, e não com “códigos” como indicações externas a fatos e personalidades do mundo real.

Ademais, diferente da maioria de outras produções, como os filmes do diretor estendiam-se por muitos meses, a chance de sua equipe ir inserindo “easter eggs” nos cenários e figurinos era muito maior que num filme comum, onde o relógio trabalha contra esse tipo de detalhamento.

A edição final do filme é a mais próxima possível do que Kubrick imaginou antes de morrer

Uma das lendas mais repetidas que circulam pela internet a respeito do filme é que ele teria sido “cortado” pelos produtores, supostamente preocupados com seu “conteúdo revelador” sobre as elites e suas práticas criminosas.

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Para abordar este tema, é preciso em primeiro lugar esclarecer a respeito do que é o processo de edição de filme de longa-metragem financiado especialmente por um grande estúdio (no caso aqui, pela Warner). 

Um filme grande como De Olhos Bem Fechados, com um casal de atores famosos (Tom Cruise e Nicole Kidman) e envolvendo a expectativa por cenas de nudez e sexo explícito, com uma filmagem de mais de um ano e mantido secreto por iniciativa do próprio diretor (conforme ele habitualmente fazia, diga-se de passagem), é resultado de um complicado e tortuoso processo de negociação artística, prazos correndo e dezenas de profissionais técnicos diretamente envolvidos. Ou seja: sua edição resulta de toda essa previsível atribulação, com a vontade do diretor de um lado, os interesses dos produtores de outro, e toda uma cadeia de colaboradores no entremeio (montadores de imagem, de som, mixadores, compositores, etc.). O filme que se vê na tela é fruto desse “litígio”, que é ao mesmo tempo estético, financeiro, operacional e até “emocional”, entre todos os envolvidos, considerados os pesos dos poderes de tais agentes.

Kubrick era conhecido por cuidar minuciosamente de cada filme até mesmo depois da edição final, supervisionando cartazes, propaganda de cada lançamento e as próprias projeções em sala de cinema. Contudo, ele nunca esteve alheio ou a salvo de interferências dos produtores, com suas demandas especialmente sobre a metragem de cada projeto. Um filme mais longo pode não só diminuir o público geral como permitir menos sessões diárias. Da mesma forma, a quantidade de sexo na tela interfere na classificação do filme e, ato contínuo, em seu potencial de bilheteria. E assim por diante. Por tudo isso, seria impensável que um filme com as características deste não tivesse de passar por algum tipo de “readequação” comercial em sua edição final, sem que isso esteja relacionado de forma alguma com “conteúdo proibido ou revelador” que Kubrick quisesse manter na versão definitiva e que possa ter sido eliminado pelos produtores por motivos escusos.

O próprio Kubrick estava sempre aberto a ouvir opiniões e submeter sua visão ao escrutínio da realidade. Em 2001 – Uma Odisseia no Espaço, ele mesmo reeditou o filme após uma exibição pública relativamente mal-sucedida, enviando a cada cinema que já tinha uma cópia pronta para exibição espalhada pelo território norte-americano as marcações na película do que deveria ser descartado antes de o filme estrear (e cortado na tesoura mesmo). Foi essa modificação final que ajudou a fazer de 2001 a obra-prima que conhecemos hoje.

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Após sua morte, a edição de De Olhos Bem Fechados foi pessoalmente supervisionada por seus assistentes e sua esposa, Christiane. O diretor mesmo apresentara dias antes uma versão para amigos e estava “exultante” com a recepção e satisfeito com seu trabalho. Um executivo da Warner viu e aprovou essa edição, que era a próxima da definitiva. Sua esposa diz: “Por sorte, o filme estava finalizado (quando Kubrick faleceu), faltando apenas todo o trabalho de pós-produção (especialmente mixagem). Leon Vitali, o principal assistente de Kubrick desde Barry Lyndon, afirma categoricamente: Kubrick “fez o corte final”.

O único tipo de “interferência” admitida pelos envolvidos e que era prevista (embora ainda não decidida) enquanto o diretor estava vivo foi a modificação digital das cenas de sexo, ocultando detalhes que fariam o filme obter uma classificação indicativa ainda mais restritiva nos Estados Unidos. Christiane Kubrick reprovou a decisão do estúdio a esse respeito e possivelmente o cineasta pudesse ter encontrado uma solução narrativa menos artificial para encobrir a nudez dos figurantes. Mas tal espécie de modificação não tem qualquer relação com “informações reveladoras” ou “denúncias” que pudessem estar na montagem antes de o filme ser finalmente lançado.

A partir desses fatos objetivamente colocados, cabe a cada um se questionar. O filme que foi apresentado é bastante fiel ao texto literário original. Todos os principais colaboradores na produção afirmam que o corte final foi de Kubrick. Mesmo o conteúdo “provocativo” e até mesmo “pornográfico” do filme foi mantido e está na tela (inclusive todas as situações que permitem aos conspiracionistas desenvolverem suas fantasias em cima do filme). Se o intuito oculto dos produtores era “cortar o filme” para proteger personalidades da realidade, por que manter tantas cenas e situações altamente sugestivas a respeito delas? Não faz muito sentido.

A morte de Kubrick não tem nada de “misteriosa”

Conforme a subcultura sobre De Olhos Bem Fechados se dissemina, voltam os boatos sobre as circunstâncias da morte do diretor. De todos os pontos levantados pelos conspiracionistas, este é provavelmente o mais frágil.

Stanley Kubrick tinha quase 71 anos quando morreu dormindo, vítima de infarto agudo, trombose e ateroma. Kolker e Abrams, que biografaram o diretor e se debruçaram por anos sobre sua vida, entrevistando familiares e colaboradores do círculo íntimo do diretor, jamais enxergaram qualquer suspeita em seu falecimento, uma perda inestimável para a arte do cinema mas um fato relativamente previsível dentro das circunstâncias. 

Kubrick praticamente não dormia – quatro horas por noite, no máximo, tal era seu grau de entrega ao trabalho e a seus projetos pessoais. Sua alimentação era péssima: ele era um consumidor voraz de fast food. Estava acima do peso, fumava escondido e vivia sob estresse constante, ora por causa de seus filmes que não saíam do papel a tempo, ora por problemas causados pela relação conturbada com a filha Vivian (envolvida à época com cientologia e, posteriormente, com QAnon). Havia boatos (não confirmados) de que ele usava um tubo de oxigênio e que havia tido um ataque cardíaco anteriormente. 

Não obstante, há uma possibilidade considerável de que ele tenha sofrido algum tipo de contaminação durante a filmagem de seu projeto anterior, Nascido para Matar: por amianto e outras substâncias tóxicas nos cenários de uma fábrica abandonada ou mesmo ao ignorar os alertas e continuar filmando ao ar livre enquanto a Europa sofria as consequências ambientais do acidente em Chernobyl, ocorrido na mesma época. Ironicamente, se foi este o caso, ele teria sido atingido pelo mesmo tipo de acaso trágico que acometera outro gênio do cinema: Andrei Tarkovsky, provavelmente contaminado nas locações de sua obra-prima Stalker.

Sobre aquilo, o ator Matthew Modine afirmou: o cenário utilizado em Nascido para Matar era “o lugar mais tóxico” em que ele já estivera (ao lado do Marco Zero do 11 de Setembro). As condições da filmagem foram comprovadamente deploráveis: ar pesado e tomado por uma nuvem de poeira fina e negra. Os atores terminavam cada diária “tossindo muco negro”. Kubrick já era um senhor à época e sofria ainda mais com aquelas condições, ainda que fosse responsável direto pela escolha do local insalubre. Ele se movia lentamente pelo set e parecia cansado o tempo todo. Na verdade, impor condições de altíssima dificuldade a si mesmo e aos seus colegas havia sido uma torturante rotina para Kubrick ao longo da carreira. Em O Iluminado, a utilização dos refletores de quartzo na famosa cena do labirinto produzia uma “densa névoa de fumaça oleosa”, dificultando a respiração. 

Conforme facilmente se conclui, a vida profissional do diretor – sempre explorando os limites físicos das filmagens – não contribuiu para que ele mantivesse boa saúde aos 70 anos, quando veio a falecer, de forma abrupta mas nada “inexplicável” ou “misteriosa”. Sugerir que sua saúde era “perfeita”, conforme fazem alguns vídeos em circulação em redes sociais, é uma ofensa à inteligência alheia.

De Olhos Bem Fechados: uma grande obra de cinema e não um “recado” para conspiracionistas

As alegações atribuídas ao conteúdo do filme de Kubrick não têm nada de novo. Qualquer pessoa minimamente informada sabe que elites conspiram e cometem crimes, fazendo tudo para se safar deles depois. Tais elites o fazem não porque são “inumanas” (“reptilianas”, “alienígenas” ou qualquer besteira parecida), mas precisamente pelo contrário: porque o “erro” e a “queda” são eventos profundamente humanos – a diferença é que as “elites” (de ontem e de hoje) dispõem de meios para tentar se proteger que não estão disponíveis a “pessoas comuns”.

Para os biógrafos de Kubrick, Kolker e Abrams (especialistas inegáveis na obra do diretor), a maior parte do que se fala sobre o filme em redes sociais e fóruns de discussão não passa de “loucura em larga escala, delírios febris de caçadores de significado”. Ou, parafraseando o próprio diretor em outro contexto: fruto de mentes que se aborrecem com coisas claras e se sentem naturalmente atraídas por enigmas e alegorias intermináveis. Por trás da obsessão em enxergar “significados ocultos” em filmes como este (porém, nem só ele), há na verdade uma visão tola da ficção cinematográfica, onde não se encontra valor em si, exceto quando os filmes se apresentam como “veículos” (agentes ou mensageiros) de uma agenda sobreposta, o que distorce e reduz o fenômeno estético – o cinema como meio de expressão oferece a possibilidade de um “recorte” da realidade que independe de teorias externas a cada filme em particular.

De Olhos Bem Fechados sobrevive e permanece não porque revela, enfim, algo “escondido”, mas unicamente por suas qualidades estéticas. É possível ver o filme sem buscar neuroticamente nele “pistas” sobre acontecimentos reais. A fixação por “revelações” é uma paranoia moderna. Os verdadeiros criminosos estão aí, cometendo crimes aos olhos de todos (e não camuflados em “seitas ocultas”).

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Não é preciso vulgarizar a obra de um grande artista como Kubrick para identificar os responsáveis, processar e punir segundo a sociedade e sua estrutura legal eventualmente permitem.

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