Crítica | A Odisseia é síntese grandiosa das qualidades e defeitos do cinema de Christopher Nolan
Há pelo menos três maneiras de analisar o novo filme do realizador Christopher Nolan, A Odisseia, que chega agora em julho aos cinemas. A primeira é simplesmente como o filme que aparece na tela. A segunda é não como um “filme qualquer”, mas como um blockbuster tremendo, com orçamento de 250 milhões de dólares. E […]

Há pelo menos três maneiras de analisar o novo filme do realizador Christopher Nolan, A Odisseia, que chega agora em julho aos cinemas. A primeira é simplesmente como o filme que aparece na tela. A segunda é não como um “filme qualquer”, mas como um blockbuster tremendo, com orçamento de 250 milhões de dólares. E a terceira é como ele se encaixa na própria filmografia do diretor.
A Odisseia é um épico ambientado na antiguidade clássica, tal qual filmes como Troia, dirigido por Wolfgang Petersen em 2004, e Gladiador, de Ridley Scott (2000). Comparado a essas duas célebres produções contemporâneas, cujo imaginário e material aproximam-se da adaptação de Nolan, A Odisseia é certamente mais autoral e representativo do esforço de um diretor-roteirista-produtor – ou seja, ele é menos “qualquer filme” que “um filme com a assinatura do cineasta”. Tróia é uma narrativa mais limpa, fluida e fácil de acompanhar. Em termos de cinema clássico, é um filme mais bem resolvido.
Embora esteja longe de ser tolo ou maniqueísta, ele conduz o espectador pelo enredo de uma forma mais direta e linear. Gladiador por sua vez é mais recompensador emocionalmente e tem um desfecho climático muito superior ao desta produção de 2026. A Odisseia é, em comparação, um filme mais tortuoso de ser assistido e que exige mais da audiência (inclusive fisicamente). É também mais ambicioso e provocativo, especialmente quanto à adaptação de uma sucessão de eventos que configuram um dos suportes de toda a herança literária ocidental.
Nesse sentido, Nolan parece influenciado pelo trabalho da professora e tradutora da Universidade da Pensilvânia, Emily Wilson, reconhecida por fazer uma releitura do clássico de Homero que, ao menos no recorte usado pelo diretor, mira nos conceitos de civilização e nos papéis masculinos na guerra e da sociedade (preocupações que, de fato, acabam verbalizadas em três ou quatro momentos ao longo do filme).
Mesmo a partir somente do trailer, esse ponto de vista assumido por Christopher Nolan acaba gerando o efeito habitual na opinião pública, com uma taxa alta de reprovação. É difícil julgar o quanto a atitude do realizador traduz um interesse intelectual genuíno e o quanto se reduz a um mero aceno à comunidade de cinéfilos que, não raramente, tende a aceitar ou rejeitar os filmes encaixando cada um deles numa agenda de interesses políticos e sociais. Porém, seria ingenuidade considerar que o cineasta ignora tal contexto. E algumas das decisões que ele eventualmente tomou por causa daquele recorte atrapalham e sobrecarregam o filme. Novamente, não parece razoável crer que o próprio diretor não se dê conta disso, de modo que talvez ele tenha realmente optado pelo “aceno” ao “papel social” do filme numa discussão maior que em somente providenciar o melhor filme possível.
Toda essa controvérsia revela outro aspecto problemático da relação entre a comunidade e os lançamentos: em decorrência da substituição gradual da figura do “crítico” pela do “influenciador”, a atenção se volta para “acontecimentos cinematográficos” e não para os filmes propriamente ditos, que deixam de significar somente pelo que entregam na tela para aparecer como um conjunto de eventos mais amplo – que envolve o que se comenta a respeito dos filmes, atitudes dos atores e diretores em redes sociais, etc. O resultado é que a discussão especificamente cinematográfica fica em segundo plano, sendo ofuscada por todos esses elementos externos à obra, os quais certamente a influenciam, mas não podem ser confundidos com o filme em si.
Muito se fala também do aparato técnico e da expertise que Nolan costuma apresentar em seus filmes, mas isso não deveria ser exatamente uma surpresa se levarmos em conta o tamanho das produções e a quantidade de recursos humanos e materiais envolvidos – afinal, como aceitar menos que perfeição em um orçamento tão alto? Como blockbuster, A Odisseia tem uma vantagem que não pode ser desprezada: é um filme adulto que trata seu público como adulto, ao contrário da maioria das outras produções na mesma faixa de investimento (como aventuras da Marvel ou infantis com o selo Disney).
Em nenhum momento ele cede às tentações da indústria de piscar para a plateia de modo a lembrar o tempo todo que estamos diante de um filme e que não devemos levar nada muito a sério. Este A Odisseia e seu diretor levam a si mesmos e ao cinema a sério. Muito a sério – para o bem e para o mal. Ademais, o formato iMax é o que o próprio conceito revela: um “formato”, e não o filme. O filme é um sistema muito mais complexo, do qual o formato é uma das partes dinâmicas. E não muito mais que isso. Reduzir um filme a sua mera “dimensionalidade” é, novamente, distorcer o fenômeno e rebaixar a discussão.
Finalmente, A Odisseia pode ser visto dentro da filmografia altamente bem-sucedida do diretor. Nolan – diferente de David Fincher, por exemplo, que tem idade e prestígio parecidos, a despeito de atitudes diferentes em relação à indústria – troca quantidade por obsessão: ele prefere filmar menos mas aparentemente filmar exatamente o que queria (e nisso ele se aproxima também de Kubrick, outro diretor que não gostava de dar ponto sem nó). Ele imprime ao filme a cara que deseja, mas isso também lhe confere grande responsabilidade. A Odisseia provavelmente ocupará um lugar intermediário em sua filmografia. Está longe do acerto monumental e do equilíbrio de Interestelar, por exemplo.
É tecnicamente rigoroso como Dunkirk, mas mais pesado e alongado, como se trouxesse “notas de rodapé” que atravancam a trama que realmente interessa. Porém, é certamente mais humano e menos esquemático que Tenet, e tenta atingir a proeza de ser meticuloso e labiríntico como A Origem sem se afastar demais do material original (o poema de Homero) – filme do qual A Odisseia também herda uma tendência quase neurótica de acumular camadas sobre camadas de tempo, flashbacks dentro de flashbacks, o que exige ainda maior atenção da plateia e em determinado momento, reduz o ato de assistir ao filme à montagem de um quebra-cabeças.
A parte mais fraca de A Odisseia é certamente seu início, onde sobressai a tendência de Nolan em exagerar no falatório (ou seja: confiar pouco na imagem) e acelerar a edição (especialmente nos diálogos em plano/contraplano), como se estivesse em uma corrida pessoal contra o relógio. Mais adiante, os melhores momentos do filme são aqueles em que Nolan segura o ritmo e deixa as sequências fluírem mais naturalmente: menos cortes, menos verborragia, mais paciência com o quadro e espaço para que as atuações ganhem dimensão enquanto transcorrem (o que dificilmente ocorre quando se corta o tempo todo do ator para ele mesmo sem motivo aparente).
Entretanto, a mão de Nolan pesa um pouco ao confiar e apostar demais em sua própria capacidade técnica (“tecnológica” seria uma palavra mais apropriada). Há tanto peso na música e na edição de som, tanto barulho e tanta informação sensorial ao mesmo tempo, que é quase impossível não considerar alguma insegurança em relação ao material em si.
Um som tão alto, uma trilha tão invasiva, não deixam que o espectador decida por muitos minutos o que ele deve pensar ou como deve reagir ao que está assistindo: a tela invade seu corpo, a percussão preenche o peito, num espetáculo frenético, intenso, mas fisicamente incômodo. A tela gigante e o som surround viram ferramentas de submissão nas mãos de Nolan: já não é mais emoção o que ele parece querer alcançar, mas um tipo de rendição estética, um gigantismo formal que talvez mais atrapalhe que ajude a obra em si. É o diretor lutando sua própria “Guerra de Tróia” estética.
Embora tivesse um elenco igualmente impressionante (incluindo Peter O’Toole e Julio Christie), Tróia parece menos pretensioso. O que não impede que seus maiores acertos na escalação sejam mais bem-sucedidos que algumas apostas estranhíssimas de Nolan por aqui. Zendaya, conforme se sabe, tem muita dificuldade de sair do modo “Erraram meu pedido na cafeteria”: está sempre emburrada e à beira de uma discussão, incorporando uma “californiana conflituosa” para quem o mundo corporativo, a família, o noivo, o capitalismo, sempre estão devendo alguma coisa.
Por tudo isso, ela funciona mal aqui como uma Athena anódina e burocrática. A desconstrução que o diretor tenta fazer do mito de Helena (Lupita Nyong’o) também está deslocado na montagem, como uma peça sobressalente incômoda com a qual ele tenta lidar (diferente também de Tróia, onde Diane Kruger resplandece a cada nova curta aparição, assim como Brad Pitt faz o filme inteiro). Não deixa de ser irônico que o diretor pareça tão preocupado em ser “fiel aos fatos” (mas também à própria cultura) quando ele se debruça sobre Oppenheimer ou sobre a participação britânica na Segunda Guerra, mas se permita certas liberalidades ao se referir à cultura grega…
Nem de longe há em A Odisseia uma presença tão sólida quanto a de Brian Cox no filme de Petersen, quando o ator escocês parecia ensaiar para um futuro e antológico Logan Roy que viveria quase duas décadas mais tarde. Nem Matt Damon, como Odisseu, ou muito menos Robert Pattinson, são capazes de produzir em cena o impacto de Pitt e Cox, em Tróia, e Russel Crowe, em Gladiador. Charlize Theron continua aprisionada em seu modo automático de “comercial de perfume”, enquanto Elliot Page surpreende e indica um bom candidato (e rival) para todos os próximos papéis que Timothée Chalamet pretende pegar nos próximos anos. Anne Hathaway entrega uma Penélope comovente e Tom Holland não merece a rejeição que tem sido demonstrada antes mesmo de o filme estrear.
Se tivesse meia hora a menos (e cortar as subtramas resolveria isso facilmente, apostando no ponto de vista de Odisseu que é mais do que suficiente para sustentar o interesse) e equilibrasse um pouco melhor os momentos onde o som e a música prevalecem violentamente sobre o drama, A Odisseia seria um filme melhor. O que está longe de significar que ele não tenha grandes momentos, e é neles que nos lembramos de como o diretor é um realizador competente.
Talvez seu maior talento seja a capacidade de criar seu universo próprio, estabelecer suas regras diante dos olhos da plateia e se manter rigorosamente dentro delas, aperfeiçoando a cada cena sua noção de “realismo cinematográfico” pessoal. Seu filme é visceral sem ser vulgar – em momento nenhum, a violência gráfica torna-se apelativa (como facilmente acontece com Mel Gibson e Sam Raimi, por exemplo). Nolan é um dos diretores mais elegantes para lidar com a brutalidade na tela. Especialmente quando o roteiro permite, o filme se aprofunda em sequências de profundo interesse: é nelas que tanto os efeitos quanto os atores funcionam melhor, quando não têm de competir com um turbilhão de efeitos sonoros.
Esses momentos são, especialmente, toda a sequência na ilha de Eeia com Circe (Samantha Morton, formidável como de costume): quando a ação física está perfeitamente combinada aos efeitos visuais (outra marca do cinema de Nolan); e também a aventura trágica na caverna do ciclope: quando, embora o efeito digital chame mais atenção que o necessário, toda a condução funciona brilhantemente. Não é nada desprezível o final apoteótico num espaço fechado, outro instante em que a capacidade do diretor de tornar verossímil um evento que beira a pura fantasia dificilmente encontra similares mesmo entre os principais diretores de Hollywood. Está ali, no equilíbrio tão bem ajustado entre mecânica, magia e computação, entre coreografia e truque, a contribuição de um artista apaixonado pela artesania mais primordial do cinema: a direção do olhar do espectador no jogo permanente de “mostrar e esconder” que é sua própria essência.
Tal qual Spielberg e Cameron, Nolan é um cineasta que funciona como “autor” dentro da indústria, ao mesmo tempo que se posiciona como sua face mais visível. Os três estão longe de ser outsiders como Coppola ou Orson Welles – para ficarmos aqui em dois nomes que têm filmes igualmente bons, mas uma relação atribulada, à beira da tragédia, com os executivos. As proezas de Nolan, por sua vez – um aluno prodígio, mas bem-comportado, da escola hollywoodiana – parecem maiores como produtor, um diapasão do cinemão de Hollywood, que especificamente como narrador de histórias audiovisuais.
Seu cinema é muitas vezes impaciente, frenético, ansioso e descuidado na decupagem, como se temesse que o espectador pare 30 segundos para respirar e eventualmente perca o interesse. Seu ponto alto é quando realmente se detém no material, para de apostar corrida consigo mesmo e confia no universo que escolheu retratar. Esses momentos (que, em A Odisseia, representam uns 30% do filme inteiro) ainda justificam com sobra o ingresso.