Cinema

Crítica | A Morte do Demônio: Em Chamas repete ideia esperando obter o mesmo resultado

Evil Dead precisa se reinventar e fugir das limitações originais de sua proposta.

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
4 min de leitura

Duas franquias altamente bem-sucedidas das últimas décadas em Hollywood, Evil Dead e Alien têm ao menos um ponto central em comum – ambas partem de uma ideia central muito poderosa e muito simples. Porém, esta não é a única similaridade. Existe outra, igualmente determinante: nenhuma delas contém material dramático suficiente para que se produza mais que dois ou três longas-metragens (sendo bastante generoso).

As duas premissas são limitadas pelo fator espacial e se resumem, basicamente, a uma caçada claustrofóbica promovida por um inimigo que é bem conhecido do público. Sendo assim, cada nova continuação ou subproduto é pouco mais que uma repetição da produção original, na qual são modificados os personagens e, eventualmente, a ambientação.

Diferente de outras franquias cura variedade de personagens permite ir ramificando os novos filmes e abrindo janelas diferentes, tanto em Alien quanto em Evil Dead, cada nova “janela” na verdade abre-se para si mesma, num jogo de espelhos que só pode interessar e satisfazer uma comunidade fechada de adeptos.

Desde que foi iniciada, com o original (à época) e barato A Morte do Demônio, em 1981, a premissa lovecraftiana proposta por Sam Raimi teve quatro segmentos até chegar a este A Morte do Demônio: Em Chamas, de 2026 – Uma Noite Alucinante 2 (1987), Uma Noite Alucinante 3 (1992), A Morte do Demônio (2013) e A Morte do Demônio: A Ascensão (2023). É possível reparar como o apetite da indústria foi mudando com o passar dos anos pelos intervalos entre os filmes, que eram muito mais alongados que hoje em dia.

De toda forma, excetuando talvez a terceira parte, todos os outros são quase réplicas da primeira ideia, cada uma com o desafio de superar eventualmente as anteriores especialmente na quantidade e variedade com as quais demonstra como o corpo humano pode ser seviciado, o que se converte aos olhos da audiência num espetáculo mórbido que costuma atrair apenas os fãs do cinema gore e causar alguma repulsa ou mesmo desprezo entre o restante dos espectadores.

O que este novo filme traz de acréscimo à franquia é estabelecer um paralelo curioso entre a esfera sobrenatural da ideia principal e um retrato superficial da vida familiar neurótica e perturbada por ruídos psicológicos que são perfeitamente mundanos. Embora tal abordagem esteja presente o filme todo, o roteiro não dá a devida atenção à própria ideia, tendo de retornar seguidamente à rotina originalmente concebida e aguardada pelos fãs: sangue, cortes, dejetos, horrores visíveis que dão pouco espaço para a imaginação.

Não há muitas lacunas visuais por aqui: a direção está interessada no detalhismo visual das torturas, e isso tem obviamente um apelo de mercado para o filme. Mas não deixa de ser cinematograficamente vulgar e até mesmo infantil: uma infantilidade de que mesmo Sam Raimi (cuja carreira expandiu-se muito além de seu primeiro sucesso, décadas atrás) jamais conseguiu desvencilhar-se.

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Sobra pouco para falar sobre a trama, em que uma família norte-americana perde o filho dono de um restaurante e casado com uma francesa para logo se ver cercada pela maldição do livro Necronomicon, que retorna na forma de uma ameaça doméstica que expõe e radicaliza conflitos que já existiam sem depender de fantasma algum. A direção de Sébastien Vanicek (também um dos roteiristas) tenta ser fiel ao material original e cria um ou dois eventos de suspense no primeiro ato – mas o restante do filme é a habitual correria ensandecida em que uma cena simplesmente procura superar a anterior na brutalidade.

Tal brutalidade corroi também a linguagem cinematográfica, que não escapa das angulosidades e edição frenética, onde o espectador tende a ficar atordoado e sua capacidade de julgamento acaba engolida por um turbilhão incessante de estímulos audiovisuais repetidos e bem conhecidos no gênero.

Deixando de lado aqueles poucos momentos onde a direção tenta construir estados de tensão sem apelar para os efeitos visuais puros, o filme acrescenta pouco ao cinema, ao gênero e até mesmo à sua pobre franquia, cujo interesse não ultrapassa muito além de seus aficionados (o que evidentemente não impede que renda dinheiro, o real – e legítimo – objetivo da indústria). Tem filme de horror melhor e menos conhecido dando sopa por aí. Basta ir atrás.

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