Críticas

Review | Splatoon Raiders é o desvio mais ousado (e mais acertado) que a Nintendo já deu com a franquia

Splatoon Raiders troca o PvP competitivo por uma aventura viciante de exploração e loot. A repetição chega, mas demora muito para incomodar.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
8 min de leitura

Existe uma pergunta que toda franquia de sucesso enfrenta em algum momento da sua trajetória: e se a fórmula que funcionou três vezes seguidas simplesmente não for a única coisa que aquele universo tem a oferecer? 

A resposta mais segura seria embalar mais do mesmo com um número na capa e seguir vendendo milhões de cópias sem sobressaltos. A Nintendo, com Splatoon Raiders, escolheu o caminho mais arriscado. E o resultado é surpreendentemente bom.

Lançado em 23 de julho de 2026 exclusivamente para Switch 2, o primeiro spin-off da franquia abandona quase completamente o PvP competitivo que definiu três gerações consecutivas de jogos numerados, trocando isso por uma campanha voltada para exploração, progressão de personagem e combate cooperativo contra inimigos controlados por IA. 

É a maior mudança estrutural que a série já experimentou, e funciona bem o suficiente para render um texto detalhado.

Uma aposta que parecia arriscada demais para dar certo

Vale contextualizar por que essa mudança de rumo era tão inesperada. Desde sua estreia em 2015, Splatoon construiu sua identidade em torno de partidas competitivas onde o objetivo nunca foi eliminar adversários, mas cobrir o maior território possível com tinta colorida. 

Foi uma resposta original da Nintendo ao gênero shooter, e ao longo de três entradas principais essa fórmula vendeu dezenas de milhões de cópias e conquistou uma base de fãs extremamente dedicada. O modo cooperativo Salmon Run sempre existiu como atividade paralela divertida, mas nunca como o motivo principal para ligar o jogo.

Transformar exatamente esse elemento secundário, a caça a inimigos chamados Salmonídeos, no coração de uma campanha completa e voltada para progressão individual, era uma aposta que poderia facilmente sair pela culatra. O resultado poderia ter sido genérico, esticado artificialmente, ou simplesmente sem identidade própria. Não foi isso que aconteceu.

Uma premissa simples que cumpre exatamente o que promete

A história começa quando o protagonista, um personagem customizável conhecido apenas como “o Mecânico”, termina isolado nas misteriosas Ilhas Spirhalite ao lado do trio Deep Cut, formado por Shiver, Frye e Big Man. Sem meios de retornar para Splatsville, o grupo descobre sinais de radar apontando para tesouros espalhados pelas ilhas, e decide que ficar ali em busca de riquezas é uma alternativa perfeitamente razoável a se preocupar com como voltar para casa.

Ninguém vai se lembrar de Splatoon Raiders pela profundidade do seu roteiro. A trama existe fundamentalmente como justificativa para novas expedições e para o processo gradual de remover a neblina que cobre boa parte do mapa. As trocas entre os membros do Deep Cut mantêm o tom despretensioso e engraçado que os fãs da série já conhecem, e funcionam bem como tempero entre uma expedição e outra sem nunca tentar carregar peso dramático que o jogo simplesmente não busca ter. 

Para quem gosta do lado mais expansivo do universo Splatoon, há bastante material de lore escondido em colecionáveis espalhados pelas ilhas, desde relíquias antigas até registros detalhando a biologia dos Salmonídeos, tudo isso funcionando como recompensa natural pela exploração em vez de tarefa artificial para inflar o tempo de jogo.

O loop que conquista rápido demais

O que sustenta Splatoon Raiders do início ao fim é a simplicidade genial do seu ciclo central: você seleciona uma ilha, enfrenta hordas cada vez mais agressivas de Salmonídeos, coleta tesouros e recursos, e retorna à base para investir tudo isso em melhorias. Parece básico na descrição, mas a execução é o que faz a diferença.

A variedade de objetivos dentro das expedições evita que o combate vire repetição pura. Algumas missões pedem para coletar ovos dourados que alimentam a perfuratriz do mecha usado pelo jogador, permitindo escavar cristais gigantes enquanto ondas de inimigos tentam impedir o progresso. Outras exigem defender pontos específicos, sobreviver a um número determinado de rounds, ou simplesmente eliminar tudo que aparece pela frente. 

A ameaça representada pelos Salmonídeos também evolui de forma inteligente ao longo da campanha, com variações que exigem leituras táticas diferentes a cada nova região visitada. Isso obriga o jogador a ajustar constantemente a abordagem em vez de repetir o mesmo padrão de combate do início ao fim. 

Para quem quer variar o ritmo dos combates principais, o jogo também oferece desafios independentes de plataforma e combate que funcionam como pequenas pausas dentro da estrutura maior das expedições, recompensando com recursos valiosos para o desenvolvimento do personagem e da base.

Um arsenal reciclado com personalidade própria

As armas disponíveis em Splatoon Raiders têm uma identidade visual muito particular: em vez de comprar equipamento numa loja, você encontra versões improvisadas e artesanais das armas clássicas da série, montadas a partir de sucata e materiais reciclados encontrados nas ilhas. 

O arsenal também impressiona pela personalidade visual: cada arma parece genuinamente improvisada com o que estava disponível nas ilhas, reforçando a ideia de que o Mecânico está longe de ter acesso a equipamento profissional. É o tipo de detalhe de design que faz cada nova descoberta parecer uma pequena vitória, não apenas um upgrade estatístico. 

É um toque de world-building inteligente que reforça a identidade do protagonista como alguém se virando com o que tem em mãos, longe de qualquer arsenal profissional.

Complementando as armas principais, dispositivos especiais podem ser equipados em pares e mudam completamente a abordagem tática de cada expedição. 

Torres automáticas que distraem inimigos enquanto disparam tinta sozinhas, machados que permitem investidas violentas atravessando grupos inteiros, discos giratórios que perseguem alvos específicos: a variedade de combinações possíveis entre arma principal e par de gadgets cria um espaço de experimentação genuinamente satisfatório, sem exigir nenhum tipo de conhecimento avançado sobre otimização de builds para se divertir.

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Verticalidade que muda o jeito de jogar

Uma das mudanças mecânicas mais bem recebidas é como o jogo lida com movimentação. Nos jogos numerados da série, a mobilidade sempre foi bastante restrita fora da forma de lula, com pouco incentivo para explorar o eixo vertical dos mapas. 

Raiders introduz elementos que impulsionam o jogador para o alto, permitindo atacar de cima com uma perspectiva tática completamente nova sobre o campo de batalha. É uma mudança que dá ao combate uma dimensão extra de profundidade, e que muitos já especulam poderia influenciar diretamente o próximo jogo numerado da franquia caso a Nintendo decida incorporar essas ideias no futuro.

Cooperativo bem resolvido, com uma ausência que incomoda

O suporte cooperativo permite que até quatro jogadores participem simultaneamente, com a dificuldade e a densidade de inimigos se ajustando de acordo com o número de participantes presentes. Jogar acompanhado transforma consideravelmente a dinâmica: builds diferentes entre os jogadores criam sinergias genuínas, com alguém focado em controle de multidão enquanto outro prioriza mobilidade, criando incentivo real para diversificar abordagens em vez de todo mundo simplesmente perseguir os maiores números de dano.

O que decepciona é a ausência completa de suporte para cooperativo local. Mesmo duas pessoas sentadas lado a lado no mesmo sofá não conseguem compartilhar uma campanha no mesmo console, o que é uma pena considerando como esse tipo de experiência combinaria perfeitamente com o tom despretensioso e divertido do jogo. Para uma franquia que sempre teve forte apelo social, essa lacuna específica soa como uma oportunidade perdida.

A repetição que eventualmente aparece, mas demora para incomodar

Depois de uma dúzia de horas, fica difícil não perceber que a estrutura das expedições segue um padrão bastante reconhecível: vá do ponto A ao ponto B, elimine inimigos ao longo do caminho, cubra a área com tinta, complete objetivos que, mesmo variando na superfície, acabam reciclando ideias semelhantes. 

Os ambientes, apesar de visualmente atraentes, também não evoluem tão dramaticamente quanto poderiam ao longo de vinte e tantas horas de campanha, com paleta de cores e arquitetura que começam a se misturar depois de um certo ponto.

O que evita que essa repetição vire problema real é a curva de progressão cuidadosamente calibrada. Novas armas, gadgets adicionais, upgrades de base e relíquias com efeitos passivos continuam aparecendo em ritmo suficiente para manter a vontade de encarar mais uma expedição sempre presente. É o tipo de jogo que faz você dizer “só mais uma missão” e perceber, horas depois, que o sol já nasceu de novo.

Tecnicamente impecável no Switch 2

Rodando a 60 quadros por segundo estáveis tanto no modo portátil quanto conectado à TV, mesmo durante os confrontos mais caóticos com múltiplos grupos de inimigos em tela simultaneamente, Splatoon Raiders representa um dos desempenhos técnicos mais sólidos já vistos num jogo da Nintendo. 

A direção de arte também merece elogio: o contraste entre a paisagem originalmente acinzentada das Ilhas Spirhalite e as cores vibrantes de tinta espalhadas pelo jogador cria um efeito visual satisfatório a cada expedição concluída.

Vale a pena?

Splatoon Raiders não tenta reinventar completamente o que faz o combate com tinta funcionar, e nem precisava. Em vez disso, pegou os fundamentos mais sólidos da franquia e os aplicou numa direção completamente nova, focada em progressão individual, exploração recompensadora e cooperação que efetivamente incentiva o trabalho em equipe.

As limitações existem: a narrativa nunca ultrapassa o nível de pretexto simpático, a estrutura de missões eventualmente mostra suas costuras, e a ausência de cooperativo local é uma escolha questionável. Nada disso, porém, chega perto de comprometer o que é, fundamentalmente, um dos experimentos mais bem-sucedidos que a Nintendo já fez com uma de suas franquias mais jovens. 

Para fãs de longa data da série, é uma surpresa genuinamente bem-vinda. Para quem sempre evitou o PvP competitivo que definiu os jogos anteriores, é finalmente a porta de entrada que faltava para esse universo cheio de personalidade.

Esta análise foi feita a partir de uma cópia de Nintendo Switch 2 gentilmente cedida pela Nintendo Brasil.

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