Cinema

Crítica | Oasis: Don’t Look Back in Anger celebra rock como experiência de encontro coletivo

O documentário musical Oasis: Don’t Look Back in Anger chega aos cinemas antes de aparecer na plataforma Disney Plus como um retrato emocionante

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
4 min de leitura

Projeto do experiente roteirista Steven Knight (do seriado Peaky Blinders e tantos outros sucessos da indústria), o documentário musical Oasis: Don’t Look Back in Anger chega aos cinemas antes de aparecer na plataforma Disney Plus como um retrato emocionante, descritivo e revelador da turnê Oasis Live ‘25 Tour, que marcou o retorno da banda em uma sequência de espetáculos monumentais em grandes estádios, passando por países como Escócia, Irlanda, Japão, Coreia do Sul, Argentina e Brasil.

Foram mais de dois milhões de ingressos vendidos, quase meio bilhão de dólares de faturamento, 41 apresentações e uma certeza: a permanência do Oasis como fenômeno décadas depois de seu surgimento e uma carência do público pelo “grande evento” catártico numa época posterior aos traumas e neuroses do isolamento social, ameaça terrorista e guerras que têm assolado a humanidade na década presente.

Como filme, o documentário de quase duas horas dirigido pela dupla Will Lovelace e Dylan Southern é um registro tradicional, extremamente bem editado, mas que – ao contrário de outras produções que voltam seu olhar para os bastidores e conflitos fora do palco – concentra toda a sua atenção no momento mágico, quase sobrenatural, de encontro entre os dois irmãos (Liam, o vocalista, e Noel Gallagher, o cérebro musical) perante uma audiência extasiada nos imensos estádios, o que reforça o componente “esportivo” e visceral das apresentações.

O Oasis sempre foi uma banda caracterizada por uma identificação profunda com a classe operária e seu sentimentalismo rebelde, sendo o futebol (os irmãos são torcedores fanáticos do Manchester City, cujo ex-treinador Pepe Guardiola marca presença na forma de um totem de cachecol em todos os shows) parte integrante do imaginário relacionada a ela. 

Algumas das canções mais famosas do Oasis lembram hinos cantados em arquibancada, relação que o filme reforça no segmento argentino, na torcida do San Lorenzo de Almagro. Não há espaço para “intimismo”: a força da banda e, por conseguinte, do próprio documentário, está na amplitude das apresentações públicas e na comunhão comovente entre os músicos e seus fãs, em momentos de genuína beleza que nos lembram mais uma vez da importância da música popular na construção de relações sociais e numa espécie de “sentimento coletivo”, social, que a sonoridade e a performance da banda reforçam (talvez de maneira até despretensiosa).

Conhecidos por uma relação conturbada, Liam e Noel cortaram relações por muitos anos, criando o doloroso hiato da banda e aumentando ano após ano a expectativa de retorno pela comunidade de fãs, composta pelos ouvintes originais e por uma geração inteira que conheceu a banda sem nunca tê-la visto pisar num palco. O documentário não está muito interessado em dramatizar excessivamente o reencontro, tampouco o retorno, deixando que a musicalidade fale mais alto.

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O resultado na tela é composto de momentos realmente emocionantes: ver e ouvir a banda oferecendo performances altamente energéticas de clássicos como Champagne Supernova, Wonderwall, Some Might Say e a canção que dá nome ao filme é um deleite para os fãs e um pacote interessante para quem gosta do gênero de documentário musical.

A volta do Oasis, seu reencontro tão natural com os fãs, o sucesso estrondoso, representam não somente a reafirmação de suas qualidades como banda, mas também a defesa insuspeita de um modo de vida, tão ocidental e que muitas vezes parece tão “natural” que não precisa ser defendido com unhas e dentes: a liberdade artística, de reunião coletiva, e a quebra das distâncias através da arte popular.

Tudo isso aparece no filme como um subtexto discreto, mas reconfortante, assim como a volta dos músicos e sua afetuosidade taciturna, sua espontaneidade e renúncia quase completa a alguns vícios que perturbam muitos artistas de sucesso que vieram depois.

O documentário termina com um depoimento tocante de Liam, o “babaca engraçado” (como ele provavelmente definiria a si mesmo) que atingiu surpreendente maturidade artística (e provavelmente também como irmão e pai) e nos brinda, ainda hoje, com sua expressividade inocente e ao mesmo tempo poética.

Um menino pobre, rebelde e crescido, que aprendeu a converter sua raiva em vocais incríveis, e deu a sorte de nascer irmão de um músico cerebral e talentoso com o qual trocou farpas e socos uma boa parte da vida. E, ainda assim, este lindo documentário musical nos lembra – mais uma vez – que certas coisas dolorosas valem a pena porque são bonitas e imperfeitas como são.

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