Crítica | Godzilla Minus Zero é uma verdadeira aula de cinema de gênero

Godzilla Minus Zero une drama humano, direção precisa e efeitos visuais impressionantes. Leia a crítica.

Daniel Moreno
Daniel Moreno 7 min de leitura

Assim como seu antecessor, Godzilla Minus One, Godzilla Minus Zero é uma verdadeira aula de cinema de ação, fantasia e ficção científica.

Hollywood deveria aprender alguma coisa com essa nova escola japonesa de blockbusters. São filmes que, em geral, custam menos do que as grandes produções dos estúdios norte-americanos, mas conseguem a proeza de parecer mais caros na tela. E não é apenas uma questão de efeitos visuais. O segredo está na maneira como esses filmes combinam espetáculo e consistência dramática.

Você tem personagens, tem uma trama na qual consegue acreditar e uma história contada de maneira econômica e eficiente. O filme não precisa recorrer o tempo inteiro a truques espalhafatosos, reviravoltas artificiais ou novas premissas extraordinárias para manter sua atenção.

O capricho da produção é extraordinário. Existe uma paixão artesanal aplicada a uma linha de produção industrial, com atenção aos detalhes em praticamente todos os elementos da encenação.

Godzilla Minus Zero retoma os traumas do Japão do pós-guerra

Dirigido, escrito e supervisionado nos efeitos visuais por Takashi Yamazaki, o mesmo cineasta responsável por Godzilla Minus One, o novo longa dá continuidade à história iniciada em 2023. 

Não se pode revelar muito a respeito da trama. Existe uma nova ameaça, e os desdobramentos certamente irão surpreender o espectador. O Japão do pós-guerra continua sendo o ambiente da narrativa. Mais uma vez, as neuroses, os traumas e as consequências do pesadelo nuclear são personificados na ameaça dos monstros.

O roteiro transforma a ameaça do monstro em um drama coletivo

Há algumas características fundamentais que fazem de Godzilla Minus One e agora de Godzilla Minus Zero exemplos tão bem-sucedidos de cinema de ação e ficção científica.

A primeira delas está no roteiro.

O filme tem uma premissa extraordinária, que precisa ser aceita pelo espectador. Se você aceitar esse ponto de partida, está ganho. O roteiro não vai introduzir uma nova premissa fantástica a cada vinte minutos, como acontece com frequência em filmes contemporâneos de super-heróis, fantasia e ficção científica.

Não há uma sucessão interminável de portais dimensionais, saltos temporais, poderes recém-descobertos e explicações improvisadas. O elemento fantástico está muito bem inserido na estrutura da história. A criatura é uma ameaça, e a narrativa se organiza em torno das consequências concretas dessa ameaça.

O filme não ganha o espectador pelo cansaço. Ganha pela inteligência.

Godzilla Minus Zero é, em muitos momentos, quase um drama de guerra. O monstro é o componente extraordinário de uma narrativa que se apoia em conflitos humanos, decisões coletivas e situações que possuem uma lógica interna. O espetáculo não substitui a história. Ele nasce dela.

Existe também uma característica bastante particular da tradição cinematográfica japonesa: a importância dos grupos, em vez da concentração absoluta em indivíduos isolados. Isso aparece o tempo inteiro na maneira como o filme constrói seus planos e organiza a encenação.

São grupos de pessoas confrontados com decisões difíceis, obrigados a escolher entre coragem e cautela, honra e senso prático, sacrifício e sobrevivência. A narrativa não depende apenas de um herói que resolve tudo sozinho. Ela acompanha uma comunidade tentando encontrar uma saída diante de uma situação extraordinária.

Nesse aspecto, é possível reconhecer uma tradição que remete a grandes mestres do cinema japonês, como Akira Kurosawa, Yasujirō Ozu, Kenji Mizoguchi e Masaki Kobayashi, diretor de Harakiri. Não estou dizendo que Takashi Yamazaki esteja no mesmo patamar desses cineastas ainda. Mas existe uma herança de encenação e de construção dramática que merece ser reconhecida.

Takashi Yamazaki dá peso à ação com poucos cortes e efeitos precisos

O filme também é bastante econômico na linguagem cinematográfica. E o trabalho de câmera é um espetáculo.

Ele demonstra uma coisa que parece ter sido esquecida por boa parte do cinema comercial contemporâneo: se você consegue resolver uma cena com dois ou três cortes, resolva com dois ou três cortes.

Não é necessário utilizar cinquenta planos para mostrar uma ação simples, sob o pretexto de manter o espectador acordado. O espectador não vai perder a atenção quando a história é boa e está sendo bem contada.

Isso é uma verdadeira aula de direção cinematográfica.

E o que dizer dos efeitos especiais, dos efeitos visuais, das cenas de ação, das explosões e dos ataques? Tudo é elaborado com um cuidado extraordinário. As situações têm textura, parecem vivas na tela. Em nenhum momento você fica com aquela impressão desagradável de estar assistindo a uma sequência de videogame em vez de um filme.

A integração entre os efeitos digitais e os atores reais é impressionante. A composição dos planos, a posição da câmera e a maneira como a ação é apresentada ao espectador preservam a sensação de que estamos diante de cinema verdadeiro sendo praticado.

Publicidade

Isso é importante porque existe uma tendência, em certas produções contemporâneas, de confundir imersão cinematográfica com a reprodução do ponto de vista de um jogador. É uma escolha que, quando utilizada indiscriminadamente, acaba vulgarizando a linguagem do cinema.

Se eu quiser jogar um videogame, vou jogar um videogame. Não preciso assistir a um filme que tenta imitar a experiência de jogar.

Em Godzilla Minus Zero, a câmera não tenta transformar o espectador em um participante de videogame. Ela o coloca diante de uma situação dramática e visualmente impressionante. E essa diferença é fundamental.

São tantas decisões inteligentes, tanto cuidado com a encenação e tanto capricho na produção que o filme consegue parecer grandioso sem depender dos orçamentos gigantescos de Hollywood.

O elenco dá força aos vínculos familiares em meio ao espetáculo

Isso não significa que o elenco seja apenas um detalhe. Pelo contrário: as atuações ajudam a dar consistência humana à narrativa. O conjunto funciona muito bem, e vale destacar também a presença da garotinha que integra o núcleo familiar da história, uma excelente e encantadora pequena atriz. O filme consegue construir vínculos afetivos sem abandonar sua dimensão de aventura e espetáculo.

O resultado é uma obra interessante, excitante, bonita e, em vários momentos, assustadora. Ninguém faz monstros na tela como os japoneses. E eles continuam demonstrando uma habilidade especial para isso.

Você dificilmente vai sentir mais medo diante do próximo Vingadores do que diante de algumas das sequências de Godzilla Minus Zero.

O ritmo mais lento é a principal ressalva de Godzilla Minus Zero

Existe, naturalmente, um pequeno problema. O cinema japonês, assim como boa parte do cinema oriental, tem uma tendência ao chamado slow burning: gosta de cozinhar a trama lentamente, desenvolver situações e prolongar determinados momentos.

Isso funciona em muitas ocasiões, mas aqui acaba produzindo uma pequena sobra. O filme tem aproximadamente duas horas e quinze minutos e, na minha avaliação, poderia ser uns quinze minutos mais curto. Há momentos em que a narrativa demora um pouco além do necessário para chegar ao seu próximo ponto de interesse.

É um defeito relativamente pequeno diante das qualidades do conjunto. Sem essa sobra, o filme seria praticamente perfeito. E, mesmo com ela, está muito perto disso.

Godzilla Minus Zero é um forte candidato a melhor filme de ação e fantasia de 2026. É difícil imaginar que outra produção consiga superar seu realismo visual, sua criatividade e a precisão com que os efeitos especiais se transformam em realidade diante dos olhos do espectador.

Se você gosta minimamente de cinema de aventura, ação ou ficção científica, este é um filme que precisa assistir.

Godzilla Minus Zero demonstra que não é necessário gastar cifras astronômicas, picotar a edição ou empilhar ideias fantásticas para produzir um grande espetáculo. É preciso ter uma boa história, saber contá-la e compreender que os efeitos visuais devem servir ao cinema – e não substituí-lo.

Assista também

C.S.LEWIS REVIRANDO NO TÚMULO COM ESSA NARNIA DIFERENTE #shorts #narnia #cinema

Dê sua nota nos comentáriosSeja o primeiro a comentar ↓

Compartilhar: Twitter Facebook WhatsApp

Comentários 0

Nota dos leitoresAinda sem notas

Sem senha nova e sem cadastro. Seu nome e sua foto aparecem no comentário; o e-mail nunca. Ao entrar, você aceita as .

Ninguém comentou ainda. Que tal abrir a conversa?

Ofensa, golpe e spam não entram no ar. Quando o filtro fica em dúvida, o comentário espera a equipe dar uma olhada.