Dustin Hoffman diz que filmar A Primeira Noite de um Homem foi uma experiência terrível
Dustin Hoffman diz que Mike Nichols o tratava com sadismo e que se achava a escolha errada para o papel de Benjamin.
Vinte e sete vezes. Foi esse o número de tapas que Katharine Ross precisou dar em Dustin Hoffman numa única cena de A Primeira Noite de um Homem. No dia seguinte, depois de horas no fundo de uma piscina, o ator percebeu um filete de sangue escorrendo do ouvido. Tinha perfurado o tímpano.
O relato aparece em um ensaio que Hoffman publicou na revista The New Yorker. Quase seis décadas depois da estreia, ele revisita o filme que o transformou em astro e não economiza na franqueza. Para ele, rodar o longa foi uma experiência terrível, mesmo sendo o trabalho que mudou sua vida.
A cena que nem entrou no filme
O episódio dos tapas acontece no momento em que Benjamin invade o quarto de Elaine, encharcado de chuva, para confessar o caso com uma mulher mais velha. Em segundos, ela entende que a amante é a própria mãe. Mike Nichols queria a reação perfeita e pedia que Ross batesse cada vez mais forte.
A atriz temia machucar o colega. Hoffman a tranquilizou e fez um único pedido: que ela evitasse acertar a orelha. Não deu certo. Alguns golpes saíram tortos, o ator terminou o dia tonto e o tapa acabou cortado da montagem final.
A gravação seguinte piorou o quadro. Hoffman passou várias tomadas submerso com roupa de mergulho, numa das sequências mais lembradas do longa. Quando subiu para respirar, veio o sangue. A combinação da pancadaria com a pressão da água tinha rompido o tímpano.
Um diretor que mudou de humor
Hoffman conta que Nichols era outra pessoa nos ensaios. Durante as filmagens, o cineasta ficou azedo e irritadiço com toda a equipe. O ator descreve a mudança como chocante e diz que, com ele, a impaciência ganhava um toque de sadismo que não aparecia com os demais.
O resultado foi um medo constante de demissão. Hoffman lembra de gravar cenas que se tornariam icônicas pensando, em termos bem menos educados, que não fazia ideia do que estava fazendo. Ele chegou a acreditar que o diretor estava furioso por ter percebido o erro de escalação que todos já enxergavam.
O ator que se achava errado para o papel
A insegurança vinha de antes do primeiro dia no set. Hoffman tinha lido o romance de Charles Webb e via Benjamin Braddock como o retrato do jovem americano privilegiado: atleta, aluno exemplar, líder do grupo de debates. Nada parecido com ele.
O ator, de família judia, não entendia por que alguém com a sua aparência seria chamado para viver o típico WASP, sigla usada nos Estados Unidos para o americano branco, anglo-saxão e protestante. Ele nem queria fazer o teste. Foi o agente quem o convenceu a gravar a prova, e o papel acabou ficando com ele.
Hoffman já disse em outras ocasiões que esperava ver alguém como Robert Redford no papel. Havia ainda a questão da idade. Com cerca de 30 anos, ele interpretava um recém-formado de 21, enquanto Anne Bancroft, a Sra. Robinson, tinha só 35.
Um clássico nascido do desconforto
Toda essa tensão gerou um dos filmes mais importantes da década. A Primeira Noite de um Homem estreou no Brasil em 15 de janeiro de 1968 e acompanha Benjamin, um jovem sem rumo dividido entre a amante mais velha e a filha dela. A trilha de Simon & Garfunkel, com Mrs. Robinson à frente, virou parte da cultura pop.
O longa recebeu sete indicações ao Oscar, incluindo a primeira de Hoffman como melhor ator, e deu a Nichols a estatueta de melhor direção. O filme ajudou a abrir caminho para a Nova Hollywood, geração que revelaria nomes como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola.
Hoffman venceria o Oscar de melhor ator duas vezes depois, por Kramer vs. Kramer e Rain Man. Nichols morreu em 2014, aos 83 anos. O ensaio chega, portanto, sem direito a resposta do diretor, que por décadas foi lembrado como o homem que apostou no desconhecido certo.
Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema.
Apaixonado por histórias que transformam.
Contato: matheus@nosbastidores.com.br
Comentários 0
Sem senha nova e sem cadastro. Seu nome e sua foto aparecem no comentário; o e-mail nunca. Ao entrar, você aceita as .
Ninguém comentou ainda. Que tal abrir a conversa?
Ofensa, golpe e spam não entram no ar. Quando o filtro fica em dúvida, o comentário espera a equipe dar uma olhada.