Crítica | Razão e Sensibilidade (2026) traz uma boa história bem contada mais uma vez

Razão e Sensibilidade preserva a força de Jane Austen com direção sensível de Georgia Oakley e duas protagonistas marcantes.

Daniel Moreno
Daniel Moreno 15 min de leitura

Existe uma diferença importante entre adaptar uma obra clássica para o cinema e usar uma obra clássica como pretexto para fazer outra coisa. Parece uma distinção óbvia, mas nem sempre é respeitada. De vez em quando, aparece um cineasta que olha para uma história consagrada e parece sentir uma necessidade quase irresistível de modernizá-la, atualizá-la, torná-la mais pessoal. Como se o material original não fosse suficientemente bom e precisasse receber uma dose generosa da personalidade de quem está atrás da câmera.

A adaptação recente de O Morro dos Ventos Uivantes é um exemplo que me vem à cabeça. Em Razão e Sensibilidade, por outro lado, a impressão é bem diferente. A diretora Georgia Oakley não parece particularmente interessada em demonstrar que tem uma visão revolucionária do romance de Jane Austen. Sua preocupação é preservar o espírito da história, respeitar os personagens e deixar que a narrativa faça o trabalho que precisa fazer.

Existe uma espécie de humildade nessa abordagem. É como se a diretora reconhecesse que tem diante de si uma história que atravessou mais de dois séculos porque alguma coisa nela continua funcionando. Não é necessário reinventá-la a qualquer custo. Basta encontrar uma maneira cinematográfica de contá-la sem destruir aquilo que a tornou interessante.

Parece simples. Mas, diante de certas adaptações contemporâneas, essa simplicidade acaba sendo quase um gesto de resistência.

Razão e Sensibilidade revisita Jane Austen sem reinventar sua essência

A nova versão de Razão e Sensibilidade, baseada no romance publicado por Jane Austen em 1811, tem uma concorrente bastante forte: a adaptação de 1995, dirigida por Ang Lee e roteirizada pela atriz Emma Thompson, que também interpreta Elinor Dashwood naquela versão. É um filme muito conhecido, bastante querido e que estabeleceu uma referência difícil de ignorar para qualquer nova adaptação.

A produção de Georgia Oakley não tenta simplesmente reproduzir o filme anterior, mas tampouco parece determinada a provar que consegue superá-lo por meio de alguma grande reinvenção. Ela parte daquilo que já existe: uma história sólida, personagens bem construídos e conflitos que continuam relevantes.

A trama acompanha a família Dashwood depois da morte do pai. Por causa das regras de herança e da organização econômica da época, a viúva, Mrs. Dashwood e suas três filhas precisam deixar a propriedade em que viviam e se mudar para uma residência muito mais modesta.

As duas filhas mais velhas, Elinor e Marianne, interpretadas respectivamente por Daisy Edgar-Jones e Esmé Creed-Miles, estão em idade de buscar um casamento. E, naquela sociedade, essa não era uma questão sentimental que pudesse ser resolvida simplesmente seguindo o coração. Casamento significava também segurança material, posição social e perspectiva de futuro.

A irmã mais nova, Margaret, vivida por Bodhi Rae Breathnach, completa o núcleo familiar. Ao redor delas, surgem os homens e as famílias que irão interferir em suas possibilidades de encontrar felicidade e estabilidade: Edward Ferrars, interpretado por George MacKay; John Willoughby, vivido por Frank Dillane; e o coronel Brandon, interpretado por Herbert Nordrum, entre outros personagens.

É uma história de amor, evidentemente. Mas reduzi-la a isso significa perder uma parte importante do que Jane Austen estava observando.

O romance trata de sentimentos, mas também de dinheiro, herança, convenções sociais, reputação e das limitações impostas às mulheres. O que acontece com as irmãs Dashwood não pode ser separado da posição que ocupam numa sociedade em que a autonomia feminina é extremamente restrita.

E o filme funciona porque compreende a força dessa estrutura narrativa, mesmo quando escolhe dar mais espaço aos dilemas românticos do que às suas implicações sociais.

Jane Austen era mais ácida do que parece

Existe uma diferença entre a Jane Austen dos romances e a Jane Austen que frequentemente chega ao cinema.

Seus livros podem ser românticos, mas não são necessariamente indulgentes com a sociedade que retratam. Austen observa os costumes, as convenções e as relações de interesse com uma ironia bastante afiada. Seus personagens não vivem apenas à procura do amor. Vivem num sistema em que o dinheiro, a posição familiar e a reputação podem determinar o destino de uma pessoa.

No caso das mulheres, essa dependência é especialmente evidente. Uma mulher podia ter inteligência, sensibilidade e personalidade, mas isso não significava que tivesse condições materiais de decidir o próprio futuro. Um casamento vantajoso podia representar a diferença entre uma vida relativamente confortável e uma existência de insegurança econômica.

A situação das Dashwood deixa isso claro desde o início. A morte do pai não é apenas um acontecimento triste que põe a história em movimento. Ela altera radicalmente as condições de vida da família. A mudança da propriedade de Norland para Barton Cottage não é somente uma troca de cenário: é a manifestação concreta de uma perda de posição e de segurança.

O cinema, entretanto, costuma privilegiar a parte romântica desse universo. Os vestidos, as paisagens, as casas de campo, os bailes e os olhares trocados entre os personagens podem acabar produzindo uma imagem excessivamente agradável de uma sociedade que, para boa parte de seus integrantes, estava longe de ser.

É possível assistir a certas adaptações de Jane Austen e sair com a impressão de que o principal problema daquela época era encontrar a pessoa certa para dançar num baile.

O problema era um pouco maior do que isso.

As mulheres precisavam encontrar parceiros que lhes garantissem sustento e estabilidade. Os homens, por sua vez, estavam submetidos à expectativa de desempenhar o papel de provedores, preservar patrimônio e cumprir obrigações familiares. A estrutura econômica condicionava os dois lados, embora não os atingisse da mesma maneira.

Nesse sentido, a sociedade retratada por Austen não é apenas um cenário bonito para histórias de amor. É uma estrutura que interfere diretamente nas escolhas dos personagens.

A nova adaptação reconhece esse contexto, mas não parece interessada em aprofundá-lo tanto quanto o romance permitiria. Seu centro de gravidade está nos sentimentos das duas irmãs, nas decepções amorosas e nas dificuldades que elas enfrentam para encontrar um lugar no mundo.

Isso torna o filme mais leve e acessível. Mas também reduz um pouco a acidez do material original.

O mérito de não transformar tudo em discurso

Existe uma tentação bastante comum nas adaptações contemporâneas de histórias antigas: olhar para os conflitos do passado e procurar maneiras de traduzi-los diretamente para as preocupações do presente.

Não há nada de errado em estabelecer relações entre épocas diferentes. O problema começa quando o filme parece não confiar na capacidade da própria história de produzir essas relações. Em vez de deixar que as circunstâncias e as ações dos personagens revelem as contradições de seu mundo, a narrativa passa a sublinhar o que devemos pensar a respeito delas.

Razão e Sensibilidade não parece particularmente interessado nesse tipo de intervenção. Não tenta transformar cada situação numa declaração sobre a sociedade contemporânea. Também não precisa procurar vilões em todos os personagens masculinos para demonstrar que a posição das mulheres era desfavorável.

Isso é um mérito.

A opressão social não depende da existência de um vilão individual. Uma sociedade pode limitar drasticamente as possibilidades de alguém sem que todas as pessoas envolvidas sejam monstros. Aliás, é justamente aí que o retrato social se torna mais interessante: quando percebemos que os indivíduos agem dentro de uma estrutura que muitas vezes consideram natural, inevitável ou simplesmente parte da vida.

Os homens também têm obrigações, interesses familiares e expectativas sociais a cumprir. Isso não elimina as desigualdades entre homens e mulheres, nem torna equivalentes as suas condições. Apenas ajuda a compreender que o mundo de Austen não é uma coleção de vilões e vítimas distribuídos conforme as necessidades de um discurso.

O filme ganha quando permite que os conflitos existam sem transformar tudo numa disputa entre personagens moralmente classificados de antemão.

Ao mesmo tempo, seria exagero dizer que essa adaptação recupera toda a força crítica do romance. Ela prefere o drama sentimental à análise mais detalhada das convenções sociais. O retrato da época está presente, mas funciona principalmente como a estrutura que condiciona os relacionamentos. É uma escolha legítima. E o filme não precisa ser uma tradução perfeita de todas as dimensões literárias de Austen para funcionar como cinema.

Duas irmãs, duas maneiras de enfrentar o mundo

O coração da história está na relação entre Elinor e Marianne Dashwood.

Elinor, interpretada por Daisy Edgar-Jones, tende a conter as próprias emoções. Ela observa, pondera e procura agir com prudência, mesmo quando a situação a afeta profundamente. Marianne, vivida por Esmé Creed-Miles, é mais impulsiva, mais aberta à expressão dos sentimentos e menos disposta a esconder aquilo que pensa ou deseja.

A oposição sugerida pelo próprio título não significa que uma irmã tenha razão e a outra esteja condenada ao erro. A história trabalha justamente com os limites de cada postura. A razão pode ajudar alguém a enfrentar as adversidades, mas também pode exigir uma contenção dolorosa. A sensibilidade permite viver os sentimentos com intensidade, mas pode tornar uma pessoa mais vulnerável às próprias expectativas.

A força desse contraste está em evitar que as duas personagens sejam reduzidas a simples exemplos de comportamentos. Elas são irmãs, mulheres submetidas a circunstâncias semelhantes, mas que não respondem a elas da mesma maneira.

E as duas atrizes sustentam muito bem essa dinâmica.

Daisy Edgar-Jones transmite a contenção de Elinor sem transformar a personagem numa figura fria ou indiferente. A sua interpretação precisa comunicar emoções que nem sempre podem ser expressas abertamente. Já Esmé Creed-Miles oferece a Marianne uma energia diferente, mais imediata, sem que isso a transforme numa caricatura da jovem apaixonada.

É nesse núcleo que o filme encontra boa parte de sua força. As protagonistas não precisam ser cercadas por grandes demonstrações de virtuosismo cinematográfico para manter nossa atenção. O interesse está no que acontece com elas, nas decisões que tomam e na maneira como cada uma enfrenta os limites de sua situação.

O restante do elenco cumpre sua função, embora, na minha avaliação, não alcance de maneira tão consistente o nível das duas protagonistas. A comparação com a versão de 1995 é inevitável, especialmente porque aquela produção tinha um elenco masculino muito forte.

Mas a nova versão não depende de rivalizar em todos os aspectos com o filme anterior. Seu principal acerto é encontrar duas intérpretes capazes de sustentar o centro emocional da história.

E, para uma narrativa como esta, isso não é pouco.

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Um filme que confia na literatura

Há filmes em que a direção se impõe de maneira tão evidente que a história parece quase um pretexto para a exibição de um estilo. A câmera, a montagem, os movimentos dos atores e a organização das imagens chamam a atenção para a presença de alguém construindo aquela experiência diante de nós.

Em Razão e Sensibilidade, a impressão é outra. A direção não desaparece, evidentemente, mas tampouco exige que o espectador interrompa a experiência para admirar constantemente a maneira como cada cena foi construída.

É um filme essencialmente narrativo. Sua aposta está no desenvolvimento dos personagens, nos acontecimentos e na maneira como os conflitos se acumulam e encontram seus desdobramentos.

O ponto de vista está menos numa afirmação visual ostensiva do que na escolha de como contar a história de Austen. A adaptação confia que os personagens e as situações são interessantes o bastante para sustentar o filme.

Isso não significa que o cinema deva ser apenas um veículo para a literatura. Uma adaptação precisa encontrar sua própria linguagem, e há inúmeras maneiras de fazer isso sem sacrificar a obra original. Mas também não existe uma obrigação de demonstrar personalidade por meio de alterações constantes, reinvenções ou rupturas estilísticas.

Às vezes, a escolha mais acertada é não interferir além do necessário.

A montagem é eficiente, e as pouco mais de duas horas passam com relativa leveza. Existe, porém, uma certa pressa. Como há bastante história para contar, o filme está quase sempre correndo atrás do próximo acontecimento. Há pouco espaço para respirar, para deixar uma cena se prolongar ou para permitir que o espectador preencha as lacunas por conta própria.

Tudo está em movimento. Quando um conflito começa a se desenvolver, logo surge outra situação que exige atenção. Essa velocidade mantém a narrativa acessível, mas reduz a possibilidade de contemplação. Algumas passagens poderiam ganhar força se o filme confiasse um pouco mais no silêncio, na duração dos olhares e naquilo que não precisa ser explicado imediatamente.

Ainda assim, a estrutura funciona. O filme não se perde em subtramas desnecessárias nem transforma a história numa sucessão de episódios desconectados. Existe uma direção clara para a narrativa, e os acontecimentos se articulam em torno das experiências das irmãs.

É uma diferença importante entre uma história movimentada e uma história dispersa. Razão e Sensibilidade pode até correr um pouco demais, mas sabe o que está contando.

O passado sem cartão-postal

Outro aspecto positivo é que o filme não parece empenhado em transformar o interior da Inglaterra numa espécie de paraíso perdido.

As paisagens são bonitas, os ambientes têm seu encanto e a época oferece naturalmente oportunidades para uma composição visual atraente. Mas a produção não depende de uma idealização excessiva do passado para criar interesse.

O mundo antigo não é apresentado simplesmente como uma época de elegância, bons modos e romances impossíveis. Há regras econômicas, limitações sociais e obrigações familiares que condicionam a vida dos personagens. A beleza dos cenários não apaga inteiramente a dureza dessas circunstâncias.

Isso ajuda a manter o filme num registro adulto, sem torná-lo pesado. Ele não precisa converter cada conflito numa tragédia nem interromper a narrativa para explicar a importância histórica de cada situação. A própria trama oferece elementos suficientes para percebermos que aquelas personagens não tinham a liberdade de escolha que hoje tendemos a considerar natural.

E talvez esse seja um dos aspectos mais interessantes de revisitar uma história como esta.

É fácil olhar para o passado com uma mistura de nostalgia e superioridade: nostalgia por aquilo que parece visualmente bonito, superioridade porque sabemos que determinadas convenções já foram contestadas e transformadas. O desafio é reconhecer as condições concretas em que as pessoas viviam, sem transformar a experiência histórica num simples catálogo de costumes exóticos.

O filme faz isso de maneira econômica. Não é uma análise social particularmente profunda, mas também não tenta disfarçar as limitações daquele mundo com uma camada de romantismo.

O valor de contar uma boa história

No fim das contas, Razão e Sensibilidade é um filme bem-sucedido porque entende a natureza do material com que está trabalhando.

Ele tem uma boa história, personagens sólidos e duas protagonistas que conseguem manter a atenção do espectador. Não precisa transformar Jane Austen numa autora diferente, nem adaptar cada aspecto do romance às expectativas do presente. Sua proposta é relativamente modesta: contar a história com clareza, respeitar o espírito da obra e confiar que os conflitos ainda têm alguma coisa a dizer.

É verdade que o filme privilegia o romance em detrimento de parte da crítica social presente no livro. Também poderia respirar mais, dedicar um pouco mais de tempo às situações e permitir que determinadas emoções se desenvolvessem sem tanta pressa. E o elenco, no conjunto, não me parece tão marcante quanto o da adaptação de 1995.

Mas essas ressalvas não anulam o resultado. O filme consegue ser sério sem ser excessivamente pesado, romântico sem transformar tudo num conto de fadas e socialmente consciente sem depender de discursos contemporâneos para justificar a relevância de sua história.

E há uma lembrança importante por trás de tudo isso: a liberdade individual de que dispomos hoje não surgiu espontaneamente, nem esteve sempre ao alcance de todos. As irmãs Dashwood vivem num mundo em que as possibilidades de organizar a própria vida são severamente limitadas pela família, pela herança, pelo dinheiro e pelas convenções sociais.

O direito de escolher com quem viver, como conduzir a própria existência e que tipo de futuro construir parece natural quando já faz parte da nossa experiência cotidiana. Mas a história mostra que essas possibilidades foram, e continuam sendo em muitos lugares, difíceis de conquistar.

É justamente por isso que vale a pena preservar a memória dessas limitações. Não para transformar toda obra de época numa lição moral, mas para reconhecer que a sociedade em que vivemos é resultado de mudanças concretas e que a autonomia individual não deve ser tratada como uma conquista irreversível. Mesmo em 2026, em muitos lugares do mundo, a perspectiva e a situação de mulheres como as irmãs do filme são até piores que as da Inglaterra regencial.

Mas Razão e Sensibilidade não precisa fazer um discurso sobre isso. A situação das personagens já nos oferece material suficiente para refletir.

Talvez essa seja a principal qualidade da adaptação: ela entende que nem toda obra precisa ser reinventada para continuar relevante. Às vezes, uma boa história, personagens bem construídos e uma direção que não atrapalhe são suficientes.

Não é uma proposta revolucionária. Mas, diante de tantas adaptações que parecem ter medo de confiar no material original, é uma qualidade que merece ser reconhecida.

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