Crítica | Verity é diversão convencional, mas difícil de resistir
Verity traz um suspense convencional, mas que funciona bem e faz jus ao sucesso estrondoso do livro de Hoover.
Verity é um drama de suspense e mistério baseado no livro de Colleen Hoover (a mesma autora de É Assim que Acaba) e dirigido por Michael Showalter. O filme parte de alguns clichês bastante conhecidos desse tipo de história, mas consegue fazer algo que nem sempre é tão simples: afastar-se progressivamente deles, sem precisar multiplicar reviravoltas artificiais, e chegar a um resultado aceitável que tem seu charme particular.
A história acompanha Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora que ainda não alcançou o sucesso e atravessa dificuldades financeiras. A oportunidade surge de maneira um tanto conveniente: ela é convidada a tornar-se escritora-fantasma de Verity Crawford (Anne Hathaway), uma autora extremamente famosa que, depois de sofrer um grave acidente, não consegue terminar a série de livros responsável por sua carreira. O convite parte de Jeremy Crawford (Josh Hartnett), marido de Verity, e leva Lowen à mansão isolada da família, em Vermont.
É quando chega àquela casa que Verity começa efetivamente a funcionar. Lowen passa a ler os rascunhos e anotações deixados pela escritora e, ao mesmo tempo, conhece melhor a história daquele casamento. Quanto mais lê, porém, mais difícil fica saber exatamente o que aconteceu. Existe um mistério naquela casa, mas existe também uma questão mais interessante: quem está contando a verdade?
É aí que o filme deixa de ser simplesmente uma história de suspense e começa a trabalhar com a questão do ponto de vista. Basicamente, temos um triângulo formado por Lowen, Jeremy e Verity, mas as relações entre os três são mediadas pela literatura. Lowen não está apenas conhecendo aquela família: ela está tentando reconstruir seu passado por meio dos textos de Verity.
Consequentemente, existem duas versões possíveis dos acontecimentos. Uma é aquilo que Lowen observa diretamente; outra é aquilo que ela encontra escrito. De um lado, temos o ponto de vista da escritora novata. De outro, os textos atribuídos à escritora famosa. E o filme passa a brincar justamente com a distância entre aquilo que é narrado e aquilo que efetivamente aconteceu.
A comparação mais evidente é com Garota Exemplar, de David Fincher, em que também existe uma constante reorganização dos fatos conforme a perspectiva de quem os narra. Em Verity, porém, esse mecanismo ganha uma particularidade interessante: são duas escritoras, e uma delas está lendo aquilo que a outra escreveu. É quase uma disputa entre duas formas de contar a mesma realidade. Quem está dizendo a verdade? Quem está manipulando os fatos? Quem escreve para explicar o que aconteceu e, principalmente, quem escreve para esconder o que aconteceu?
Essa é a principal qualidade do filme. Ele não precisa produzir uma reviravolta atrás da outra para manter o interesse, porque o próprio problema do ponto de vista já é suficiente para criar uma tensão permanente. Estamos sempre tentando decidir se devemos acreditar naquilo que vemos, naquilo que lemos ou nas conclusões que Lowen tira da combinação entre essas duas coisas.
O elenco também ajuda bastante. Josh Hartnett está muito bem como Jeremy, um homem marcado pelo sofrimento que carrega uma espécie de peso emocional sem precisar explicar continuamente o que sente. Anne Hathaway aparece menos, mas sua presença domina o filme justamente porque tudo gira em torno de Verity. Mesmo quando ela não participa diretamente de uma cena, existe alguma coisa relacionada a ela funcionando dramaticamente.
Já Dakota Johnson conduz praticamente toda a experiência. É através de Lowen que entramos naquela casa e descobrimos os textos, e sua presença discreta combina com uma personagem que precisa observar mais do que persuadir. A atriz não precisa construir uma figura exuberante para chamar atenção: ela é “confiável” para o público feminino e “atraente” ao masculino numa dosagem equilibrada. Há nela uma espécie de naturalidade que facilita a identificação e funciona particularmente bem num filme em que grande parte da tensão depende de pequenas mudanças na relação entre os personagens.
Verity também recupera algo do cinema comercial dos anos 1990. A mansão isolada, a direção de arte luxuosa, a atmosfera de riqueza e os interiores sofisticados remetem a uma tradição de suspense adulto que hoje aparece com menos frequência, com um pé no “softcore” que acaba servindo bem à pudica Geração Z. Curiosamente, embora a história trabalhe com casamento, desejo, ciúme, atração, poder e manipulação, o filme é relativamente tímido na exploração sexual desses elementos. A tensão erótica está presente, mas o que interessa mais é a ambiguidade.
E essa ambiguidade chega ao final. O cinema contemporâneo muitas vezes constrói um mistério durante duas horas e depois parece sentir necessidade de explicar tudo num pacote artificial que mais se assemelha ao mecanismo de um relógio. Verity faz o contrário: reserva algumas peças soltas. A pergunta não é apenas “o que aconteceu?”, mas também “quem está contando o que aconteceu?”. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas. Um filme pode revelar todos os acontecimentos e, ainda assim, não revelar a verdade.
Nesse sentido, Instinto Selvagem, de Paul Verhoeven, é outra referência possível. Também há ali uma escritora de mistério, ambiguidade e personagens cujas intenções nunca ficam inteiramente disponíveis ao espectador – mas o sexo e a violência são brutais, de um jeito que só o cinema dos anos 1990 permitiria. O Escritor Fantasma, de Roman Polanski, oferece uma aproximação diferente: novamente temos um escritor contratado para assumir a voz de outra pessoa, uma casa afastada, documentos, relatos e personagens que parecem saber mais do que dizem. Porém, o romantismo levemente erotizado de Verity é substituído pela intriga política ao estilo britânico.
Nenhuma dessas referências significa que Verity esteja revolucionando o suspense. Pelo contrário: o filme trabalha com elementos bastante usuais – casa isolada, família misteriosa, relacionamento triangular, escritora famosa, novata que chega de fora, segredos do passado e um texto que pode conter a chave para compreender tudo. O mérito está em combinar esses clichês com eficiência e desviá-los o suficiente para preservar a curiosidade até o final, sem depender o tempo todo de decisões absurdas dos personagens.
É, portanto, uma diversão relativamente simples, até um pouco culpada por seu caráter folhetinesco, mas difícil de resistir. Não é excessivamente longo, não fica produzindo reviravoltas incessantes (embora em ao menos dois momentos o acaso e decisões estúpidas levem o espectador mais exigente a balançar a cabeça) e consegue manter o interesse praticamente o tempo inteiro. Talvez seu verdadeiro mérito esteja justamente em compreender que, numa história sobre escritores, o mistério não precisa ser apenas descobrir o que aconteceu. Pode ser descobrir quem está contando a história – e por que deveríamos acreditar nessa pessoa. Ou não.