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Review | Valor Mortis traz o Soulslike em primeira pessoa em uma Europa corrompida

Confira nossa análise de Valor Mortis, soulslike em primeira pessoa ambientado na guerra napoleônica.

Daniel Tanan
Daniel Tanan 14 min de leitura

Os soulslikes encontraram diferentes maneiras de renovar uma fórmula que se tornou bastante popular nos últimos anos, mas poucos caminhos parecem tão curiosos quanto aquele escolhido por Valor Mortis.  Desenvolvido pela One More Level, conhecida pela série Ghostrunner, o jogo transporta os combates exigentes do gênero para a perspectiva em primeira pessoa e os coloca em uma versão sobrenatural das Guerras Napoleônicas. 

Em meio a campos de batalha devastados, soldados deformados e uma Europa consumida por uma praga misteriosa, precisamos sobreviver utilizando armas, aparadas e habilidades especiais. Valor Mortis apresenta um mundo no qual a violência da guerra parece ter ultrapassado os limites humanos, transformando soldados e comunidades em vítimas de uma corrupção que ameaça tudo ao redor. 

Essa premissa abre espaço tanto para confrontos intensos quanto para uma narrativa marcada por mistérios, ambição e sobrevivência. Mas será que a perspectiva em primeira pessoa realmente renova a fórmula soulslike, e a história consegue aproveitar o potencial de sua guerra napoleônica alternativa? 

Um Soulslike Diferente

A primeira coisa que chama a atenção em Valor Mortis é a maneira como a perspectiva em primeira pessoa transforma uma estrutura bastante conhecida.

 O combate exige atenção aos movimentos dos adversários, administração da resistência e precisão na hora de defender ou atacar. 

Entretanto, em vez de observar o protagonista de longe, como acontece na maioria dos soulslikes, acompanhamos os confrontos diretamente pelos olhos de William, o soldado que precisa sobreviver a uma Europa devastada por uma praga sobrenatural. 

O resultado é uma experiência mais claustrofóbica, na qual os inimigos ocupam boa parte do espaço à nossa frente e cada erro pode custar caro.

Essa escolha poderia parecer apenas uma mudança estética, mas influencia a maneira como os confrontos são conduzidos.

 A proximidade com os adversários torna a leitura dos movimentos particularmente importante, enquanto a câmera ajuda a transmitir a sensação de vulnerabilidade diante de criaturas que podem ser muito mais fortes do que o protagonista.

Valor Mortis não pretende ser um jogo de tiro convencional, mesmo utilizando uma perspectiva associada ao gênero. Sua estrutura está muito mais próxima de um RPG de ação centrado em combates corpo a corpo, progressão e aprendizado por tentativa e erro.

O sistema de combate combina ataques com armas brancas, esquivas, bloqueios e aparadas. Saber quando agir é tão importante quanto escolher o equipamento adequado, principalmente diante de inimigos capazes de interromper uma sequência ofensiva ou punir movimentos precipitados.

A aparada merece atenção especial, pois recompensa quem consegue identificar o momento correto para responder aos ataques adversários. Em vez de simplesmente golpear até derrubar um oponente, precisamos observar seus padrões e compreender quais oportunidades podem ser aproveitadas.

A perspectiva em primeira pessoa torna esse processo interessante, mas também apresenta desafios próprios. Em um soulslike tradicional, a câmera permite observar melhor a postura do personagem e acompanhar ameaças ao redor. 

Em Valor Mortis, a proximidade dos inimigos intensifica a experiência, embora possa dificultar a percepção espacial em determinadas situações.

 É necessário se acostumar à maneira como os golpes são apresentados e calcular distâncias sem contar com a mesma visão ampla encontrada em jogos de terceira pessoa. Quando funciona, essa abordagem faz com que os confrontos pareçam mais pessoais e agressivos.

As aparadas também ajudam a estabelecer o ritmo das batalhas. Defender-se não significa apenas esperar uma oportunidade segura para atacar, mas aprender a transformar a ofensiva inimiga em uma vantagem.

Essa dinâmica aproxima Valor Mortis de outros jogos de ação que valorizam o domínio dos movimentos, embora sua estrutura de progressão e dificuldade remeta diretamente aos soulslikes.

 A satisfação vem da sensação de que um adversário antes intimidador se torna administrável depois que compreendemos seu comportamento.

Entretanto, a dificuldade precisa ser equilibrada para que esse aprendizado funcione. Existem problemas de balanceamento, sobretudo em determinados chefes, cujos danos elevados podem transformar uma luta em uma sequência excessivamente punitiva.

Isso é relevante porque existe uma diferença entre exigir que o jogador aprenda os padrões de um inimigo e oferecer poucas oportunidades para que ele consiga fazê-lo. A dificuldade é parte essencial da proposta, mas funciona melhor quando a derrota ensina alguma coisa em vez de apenas prolongar a tentativa.

Outro elemento importante é a combinação entre armamentos convencionais e poderes sobrenaturais. William pode utilizar armas de combate corpo a corpo, armas de fogo e habilidades associadas à corrupção que o transformou. 

Essas possibilidades ampliam o repertório disponível e impedem que os encontros dependam exclusivamente de aparar e golpear. Os disparos oferecem alternativas para lidar com determinadas situações, enquanto os poderes podem provocar efeitos especiais, causar dano elemental ou controlar temporariamente os movimentos dos inimigos.

É nesse ponto que noto semelhanças com BioShock. A comparação não está necessariamente na estrutura narrativa ou na ambientação, mas na sensação de combinar armamento convencional com capacidades extraordinárias. 

O jogador não depende de uma única ferramenta para resolver todos os problemas. A possibilidade de alternar entre diferentes formas de ataque cria oportunidades para experimentar combinações e adaptar a abordagem conforme a ameaça encontrada. O poder sobrenatural deixa de ser apenas um recurso visual e passa a integrar as decisões tomadas durante os combates.

As habilidades também se relacionam com a progressão do protagonista. Ao avançar, William pode aprimorar seus recursos e desbloquear novas possibilidades, tornando-se mais preparado para enfrentar as criaturas que infestam o mundo. 

Essa evolução segue uma lógica familiar aos RPGs de ação, mas ganha uma dimensão temática interessante porque o fortalecimento está ligado à mesma corrupção que ameaça consumir o personagem. 

A progressão, portanto, não representa apenas um aumento de poder, mas também uma aproximação das forças responsáveis pela transformação daquele mundo.

Noto também uma semelhança com a série  Dishonored considerando a exploração e a mobilidade. Observar o ambiente, procurar caminhos alternativos e descobrir segredos faz parte da experiência.

A movimentação também pode ser utilizada para superar obstáculos e alcançar áreas que antes pareciam inacessíveis, aproximando a estrutura de uma exploração interconectada, com atalhos e possibilidades que se revelam gradualmente. 

A influência dos jogos de ação e movimentação desenvolvidos anteriormente pela One More Level, responsável pela série Ghostrunner, também se manifesta nessa preocupação com o deslocamento do jogador.

A exploração ainda se beneficia da ambientação histórica alternativa. Campos de batalha, vilarejos destruídos e estruturas abandonadas compõem uma Europa do século XIX marcada pela guerra e pela presença de criaturas sobrenaturais. 

O cenário contribui para a sensação de decadência, mas também funciona como um espaço a ser investigado. Encontrar desvios, recursos e informações pode fazer diferença na sobrevivência, incentivando o jogador a não avançar de maneira automática.

Como em outros soulslikes, os pontos de descanso oferecem momentos para reorganizar a estratégia, recuperar recursos e se preparar para continuar. O retorno dos inimigos após o descanso reforça o ciclo de risco e recompensa, enquanto a possibilidade de morrer e retornar mais forte faz parte da lógica de progressão. 

Essa estrutura pode gerar repetição, mas também cria uma familiaridade gradual com os cenários e os adversários. Aos poucos, caminhos inicialmente perigosos passam a ser percorridos com mais segurança, demonstrando o quanto o jogador aprendeu.

Assim, Valor Mortis encontra sua identidade ao aproximar o combate metódico dos soulslikes da perspectiva imersiva dos jogos de tiro e das possibilidades de exploração associadas aos immersive sims. Nem todas essas influências têm o mesmo peso, e a dificuldade precisa respeitar o aprendizado que o jogo exige. 

Mesmo assim, a combinação de aparadas, armas, poderes sobrenaturais e exploração torna a experiência mais interessante do que uma simples transposição da fórmula soulslike para a primeira pessoa. 

O principal mérito está em fazer a câmera participar diretamente da tensão dos confrontos, enquanto a variedade de ferramentas oferece espaço para experimentar diferentes maneiras de sobreviver.

 A Guerra Transforma os Homens em Monstros

A história de Valor Mortis parte de uma premissa que chama a atenção pela maneira como mistura acontecimentos históricos e horror sobrenatural. Em uma versão alternativa das Guerras Napoleônicas, o conflito que deveria ter terminado com a derrota definitiva de Bonaparte continua consumindo a Europa. 

A campanha militar deixa para trás cidades destruídas, populações submetidas à ocupação e soldados que parecem ter perdido qualquer perspectiva de retornar à vida que conheciam.

 Como se a violência humana não fosse suficiente, uma praga misteriosa começa a transformar homens e paisagens, levando o continente a uma realidade na qual a morte deixou de representar o fim de tudo.

O protagonista é William Dowsett, um soldado que serviu ao exército de Napoleão e desperta depois de ter sido dado como morto. A ressurreição, porém, não significa uma segunda oportunidade de viver normalmente. 

William retorna em um mundo irreconhecível, carregando no próprio corpo os efeitos da mesma força que corrompeu seus antigos companheiros. A partir daí, sua jornada envolve descobrir a origem da praga, compreender o que aconteceu com o exército e decidir qual será sua relação com o homem a quem jurou servir.

 O cenário histórico oferece a base para a narrativa, mas o verdadeiro interesse está na maneira como a guerra e a corrupção sobrenatural passam a se confundir.

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Napoleão ocupa uma posição particularmente interessante nessa estrutura. Em vez de ser apenas uma figura histórica distante, ele continua exercendo influência sobre William, inclusive por meio de uma voz que o protagonista escuta em sua mente. 

Essa presença estabelece uma relação ambígua entre os dois. William foi um soldado que dedicou sua vida a uma causa e agora precisa lidar com as consequências dessa lealdade, enquanto o imperador representa uma autoridade que parece incapaz de aceitar limites. A guerra é uma força que continua controlando os homens mesmo depois de destruir tudo aquilo que deveriam defender.

Essa abordagem permite que Valor Mortis explore a figura de Napoleão sem precisar transformar o jogo em uma reconstituição histórica convencional. 

O personagem carrega a memória de um líder associado à ambição, à estratégia militar e à tentativa de reorganizar a Europa pela força. Na versão apresentada pelo jogo, entretanto, a expansão do poder assume contornos ainda mais sombrios.

A conquista deixa de estar limitada à ocupação de territórios e passa a envolver a própria fronteira entre vida e morte. O horror nasce justamente da possibilidade de que a ambição política não conheça mais nenhuma barreira, nem mesmo aquelas impostas pela natureza humana.

A praga funciona como a manifestação física dessa degradação. Os soldados transformados em criaturas grotescas não são apenas obstáculos que William precisa eliminar. Eles também representam a perversão de uma instituição construída em torno da disciplina, da obediência e do sacrifício.

O exército que deveria simbolizar força e organização converte-se em uma coleção de corpos deformados, submetidos a uma lógica que já não pode ser explicada pelas regras convencionais da guerra. 

A corrupção deixa de ser apenas uma ameaça biológica ou sobrenatural e passa a funcionar como uma imagem da própria máquina militar, que consome seus integrantes em nome de objetivos cada vez mais distantes de qualquer ideal humano.

É nesse ponto que o horror corporal ganha significado. As transformações físicas tornam visível algo que, em uma narrativa exclusivamente histórica, poderia permanecer abstrato.

 A guerra já havia alterado a vida dos soldados, exigindo que matassem, obedecessem e aceitassem a possibilidade de morrer por decisões tomadas muito acima deles. 

A praga leva essa lógica ao extremo, convertendo os corpos em instrumentos de uma violência que não termina nem depois da morte. William ocupa uma posição especialmente desconfortável porque não está completamente separado dessa ameaça. 

O poder que lhe permite continuar lutando também está relacionado à força responsável pela destruição ao seu redor.

A narrativa ganha outra dimensão com a presença da resistência liderada por Shrike. Sua oposição a Napoleão introduz uma perspectiva diferente daquela oferecida pela hierarquia militar. 

Em vez de aceitar a autoridade do imperador, o movimento representa a possibilidade de enfrentar um poder que passou a tratar a Europa como propriedade. 

A existência dessa resistência também impede que o conflito seja interpretado apenas como uma luta individual pela sobrevivência. 

Há pessoas comuns vivendo sob ocupação, comunidades tentando continuar existindo e indivíduos que precisam decidir se vale a pena arriscar a própria vida para interromper uma violência que parece interminável.

Os personagens secundários ajudam a dar alguma dimensão humana a esse mundo. Figuras como James Stewart e Lucjan Skawinski oferecem pontos de contato com uma realidade que vai além da relação entre William e Napoleão. 

São encontros importantes porque permitem que o protagonista encontre pessoas que não se resumem à sua condição de soldados ou vítimas da praga. Ao mesmo tempo, a estrutura de mistério faz com que nem todas as informações sejam apresentadas imediatamente. 

A história se desenvolve por meio de diálogos, acontecimentos e descobertas durante a exploração, exigindo que o jogador conecte partes de um cenário que raramente oferece explicações completas.

Essa escolha combina com a atmosfera de Valor Mortis, mas também pode tornar a narrativa menos acessível. O jogo parece interessado em criar perguntas antes de oferecer respostas, e a presença de forças sobrenaturais reforça a sensação de que existe algo maior acontecendo por trás dos acontecimentos visíveis. 

Para quem gosta de construir uma interpretação a partir de pistas espalhadas pelo cenário, essa abordagem pode interessar e manter o jogador engajado. Para quem espera uma narrativa mais direta, com conflitos explicados de maneira clara e personagens desenvolvidos por longas sequências de diálogo, parte da história pode parecer distante.

Ainda assim, o cenário é um dos maiores méritos da experiência. A Europa oriental devastada, os assentamentos abandonados e os vestígios da presença militar constroem uma atmosfera em que a destruição parece ter se acumulado durante muito tempo.

 A ambientação histórica também diferencia Valor Mortis de outros jogos de fantasia sombria. Uniformes, armas, arquitetura e referências às campanhas napoleônicas estabelecem uma base reconhecível, enquanto a praga introduz elementos que rompem deliberadamente com a realidade. O resultado é um universo no qual a história parece ter seguido um caminho possível até o momento em que a ambição humana ultrapassou o limite do imaginável.

No fim, Valor Mortis utiliza o horror sobrenatural para ampliar uma ideia que já estava presente nas guerras napoleônicas: a facilidade com que grandes projetos de poder transformam indivíduos em peças descartáveis. William precisa descobrir o que aconteceu com ele, mas sua jornada também envolve compreender o significado de continuar lutando quando a causa original perdeu qualquer legitimidade.

 A história pode deixar algumas questões em aberto e nem sempre desenvolve seus personagens com a profundidade que o cenário sugere. Ainda assim, a combinação de história alternativa, corrupção física e conflito político oferece uma identidade interessante. Mais do que apresentar monstros em meio a uma guerra, Valor Mortis imagina o que acontece quando a própria guerra se torna monstruosa.

Conclusão 

Valor Mortis encontra na perspectiva em primeira pessoa seu principal diferencial. A combinação entre aparadas, armas brancas, armamentos de fogo e poderes sobrenaturais oferece uma abordagem interessante para o combate soulslike, enquanto a exploração e a ambientação reforçam a sensação de estar preso em um mundo hostil. 

Sua identidade está ligada à maneira como diferentes ideias se encontram com a dificuldade e a progressão características do gênero. Ainda existem desafios de balanceamento que podem comprometer alguns confrontos, mas a proposta demonstra personalidade suficiente para despertar o interesse de quem procura uma experiência diferente.

A praga sobrenatural amplia a brutalidade do conflito, enquanto a jornada de William coloca em questão sua lealdade e o significado de continuar lutando em um mundo corrompido. Nem todos os mistérios ou personagens recebem o desenvolvimento que poderiam, mas a atmosfera e a combinação entre horror corporal e história alternativa sustentam uma premissa promissora. 

Em suma, Valor Mortis é uma aposta interessante para quem deseja experimentar um soulslike com outra perspectiva, tanto literal quanto criativa, e está disposto a enfrentar os perigos de uma Europa na qual a própria guerra parece ter se tornado monstruosa.

Agradecemos pela cópia gentilmente cedida para a realização desta análise.

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