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O interessante dos gêneros para o cinema é o como são maleáveis, como podem se encaixar e ser encaixados de diferentes formas, seja de maneiras mais simples, o que dá margem para muita incompetência e filmes esquecíveis, seja da sua subversão. E isso parece ser potencializado ainda mais quando é deslocado para um polo produtivo que não o do cinema ocidental. O cinema sul-coreano já vem conquistando seu espaço desde a década de 90 e já adquiriu apelo suficiente, até mesmo entre neófitos, para deixar de ser regional.

Alguns diretores já chegaram até a ser importados com sucesso. Bong Joon-ho soube trabalhar bem em O Expresso da Amanhã, apesar dos seus filmes anteriores merecerem muito mais destaque. O mesmo para Sede de Sangue de Park Chan-wook. Enfim, o diretor da vez não é, nem precisaria ser, nenhuma estrela dessas. Nesse que é seu terceiro longa-metragem, Na Hong-jin tenta fazer um terror alternativo, mesclando diferentes visões do gênero. O Lamento, no entanto, exibe uma enorme distância da potência de O Hospedeiro, por exemplo.

Uma onda de misteriosos e sangrentos assassinatos atinge uma pequena cidade onde mora Jong-gu, personagem principal, que só sente particularmente afetado quando “o que está acontecendo” atinge sua filha, que passa a agir estranha e violentamente. Boatos sobre um japonês que está residindo nas proximidades e que estuprara algumas mulheres da vila costuram uma possível história policial/detetive a um enredo sobrenatural. O protagonista mostra-se, desde o começo, um grande incompetente de maneira ímpar – o que o torna inverossímil e o transforma num amontoado de carne que só substitui o espectador na tela, sem inspirar empatia.

O policial e seu amigo não fazem nada além de visitar as cenas dos crimes, possibilitar alguns quadros chocantes e perturbadores para a câmera, depois berrar e chorar histericamente. Não que as situações enfrentadas sejam de fácil assimilação, nem que bravura fosse a solução para todos os problemas, mas cada cena é um momento frustrado e frustrante atrás do outro. Na epígrafe da Bíblia, com Jesus questionando a crença dos seus apóstolos na materialidade do seu espírito ressuscitado, o filme tem seu ponto de contato mais reconhecível. Não demora para a mensagem se esgotar (antes de metade do filme suas conclusões já estão em tela) e ser substituída pela máxima “Se Deus não existe, então tudo é permitido”, sem ponto de interrogação, em seu sentido mais fraco e insuficiente.

Na Hong-jin sabe mostrar muito bem que o sobrenatural no melhor sentido da palavra. Algo que ultrapassa o natural. Sua melhor discussão, inclusive chave para a cacofonia da sequência final, recai especialmente no fator da materialidade. Guardadas as devidas posições e intenções, lembra inclusive a habilidade da câmera de certo diretor tailandês. Hong-jin, por sua vez, não sabe aproveitar dessa fineza, e a extrapola, como tudo no filme.

Os pontos de contato com o cristianismo (os furos na mão de um demônio, uma mocinha que joga pedra nos policiais em frente a cena do crime, o estrangeiro que passa a doença venérea…) são facilmente abandonados para se fecharam na implacabilidade da cultura budista e xintoísta. A incompetência de Jong-gu passa por cima até dos valores morais para se tornar a autodestruição familiar. O pecado assume uma forma diferente aqui. Lembra, assim, a invencibilidade do mal no direto e eficiente A Bruxa. No mérito da dúvida, O Lamento consegue até ser melhor na medida em que brinca com a imprevisibilidade das situações.

Os três personagens espirituais, digamos – o estrangeiro, o xamã e a mulher de branco –, nunca mostram quem realmente são, o que realmente estão fazendo, se estão ajudando ou piorando a situação. Mas, para Na Hong-jin, isso é suficiente. Basta o roteiro atropelado, pouco coerente e em tom pesado. O ridículo surge mais vezes do que o esperado, e já que o tom predominante é de seriedade, já que ninguém relaxa, o humor negro funciona poucas vezes. Se o diretor tinha alguma pretensão de discutir algum detalhe da cultura sul-coreana, temo que só encontrou tachinhas para seus pneus nessa estrada onde só sobrevive cinema pouco inflado.

O Lamento é um filme para masoquistas que querem passar o filme inteiro intrincando o cérebro, maquinando sobre o quebra-cabeça que é o filme, procurando simbologias em cada plano, em cada movimento. E eles existem, o diretor afirma pelo excesso de montagens paralelas. Um filme que é pura tensão, que foge da tenra e suculenta carne do cinema como o diabo foge da cruz.

No geral, o longa conta com uma boa produção, especialmente em termos de fotografia. As cores fortes impõem identidade na chuva e nos rituais macabros. Os efeitos computadorizados são mais perceptíveis do que poderiam ser, mas não chegam a atrapalhar. As cenas perdem por serem ou simplesmente desinteressantes de um ponto de vista visual, ou por serem absolutamente óbvias. Os símbolos ficam dispersos pelo rastro da película (um gibi de ponta cabeça, uma árvore com panos coloridos, um anzol com duas pontas e uma isca, a cabeça caprina no altar de um feiticeira e a bovina no altar de outro…) e são a única coisa a se notar em revisão. Na Hong-jin faz de O Lamento um gozo para os obsessivos.

Num escancarado exercício de exagero, de elevar certos sentidos à flor da pele, o diretor tenta contar a sua história usando duas horas e meia de projeção sem concessões. Mais cineastas fazendo concessões? Já chega os americanos. Mas o filme é fechado, enclausurado em si mesmo e em sua própria voz. Ou na voz que busca. E todo som necessita de um meio para propagação, precisa chegar em algum lugar.

Mas O Lamento, esse uivo interminável, assustadoramente insuportável, rodopiante em sua própria histeria, nunca encontra seu anteparo, seu alvo. Continua reverberando sem encostar em parede alguma, gaguejando como o seu protagonista – o que não é justificativa nenhuma. Seu maior problema é não aceitar a sua burrice, que é empurrada minuto a minuto. E se o espectador não colaborar com essa ditadura, terá uma péssima experiência. Um filme inchado demais para deixar-se chamar de filme de terror.

O Lamento (Goksung, 2016 – Coréia do Sul, EUA)
Direção:
 Hong-jin Na

Roteiro: Hong-jin Na
Elenco: Jun Kunimura, Jung-min Hwang, Do-won Kwak, So-yeon Jang, Han-Cheol Jo
Gênero: Terror
Duração: 156 min.

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