Cinema

Crítica | Pressão traz discussão histórica envolvente sobre ciência na guerra, política e responsabilidade individual

Crítica de Pressão: drama britânico sobre a previsão do tempo que definiu o Dia D, com Andrew Scott em atuação de destaque.

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
5 min de leitura

Como adaptação de um texto teatral escrito por David Haig, o primeiro desafio da produção inglesa Pressão, que chega agora aos cinema com distribuição da Universal, era de superar a limitação habitual que um material pensado para o palco enfrenta sempre que é convertido em filme – como fazer com que a limitação espaço-temporal da ação não se torne maçante ou previsível para a audiência. O roteiro (do próprio Haig e do também diretor Anthony Maras, de Atentado ao Hotel Taj Mahal, de 2018) se sai muito bem dessa complicação, ao tecer uma sucessão dinâmica de eventos onde os personagens circulam bastante (apesar do drama concentrado) e a ação consegue “respirar” em diferentes locações, numa montagem ágil sem ser espalhafatosa.

Pressão faz parte daquela linhagem tradicional do cinema britânico de qualidade, do qual filmes como O Destino de uma Nação (2017) e Desejo e Reparação (2007) são célebres representantes. Entre os três, há em comum especificamente a forma respeitosa, quase solene, com que os realizadores retratam o tema da guerra (e particularmente a relação dos britânicos com ela), ressaltando o heroísmo originado do cotidiano e de seres humanos comuns, obrigados a superar seus próprios limites e inseguranças para atingir o tamanho que a História lhes exige. Enquanto O Destino de uma Nação é grandioso e Desejo e Reparação, trágico e psicológico, este Pressão é um drama intimista que aborda quase despretensiosamente um dos eventos determinantes para o desfecho da Segunda Guerra Mundial.

Na trama, o meteorologista escocês James Stagg (Andrew Scott) é convocado para chefiar o comitê militar que irá recomendar (ou não) o melhor momento para os aliados invadirem a Normandia, na preparação do fatídico Dia D. Ele encontra resistência de outro especialista em previsões climáticas do exército norte-americano, Irving Krick (Chris Messina), cujos métodos e abordagem do trabalho contrastam vigorosamente com os de Stagg. Em questão de poucos dias, os dois precisam entrar em acordo sobre a previsão do tempo e a data ideal para o desembarque. A cobrança sobre eles é rigorosa, tanto da parte do General Dwight Eisenhower (Brendam Fraser) quanto de sua contraparte inglesa, o Marechal Montgomery (Damian Lewis) – os quais tampouco entendem-se entre si. O prazo se encurta a cada minuto, enquanto Stagg está também preocupado com a gravidez e parto iminente da esposa, Liz Stagg (Tamsin Topolski), inacessível num hospital bombardeado pelos alemães.

O filme é curto, o que lhe confere uma modéstia rara no cinema atual, onde até filmes de super-heróis parecem precisar de mais tempo do que a própria trama exigiria, alongando-se em demasia. Os conflitos entre os quatro personagens principais são amarrados exemplarmente pelo roteiro, que oferece ao público uma chance valiosa de refletir sobre a responsabilidade que homens públicos e autoridades têm ao lidar com “questões científicas” que implicam em decisões que podem afetar a vida e o destino de milhões de pessoas. Sem ser didático em momento algum, o desenvolvimento de Pressão demonstra com rara honestidade como a ideia que se tem de “consenso científico” é falha ou distorcida, sendo muitas vezes fruto não de uma constatação lógica e matematicamente precisa, mas sim de um processo altamente conflituoso, onde cadeia de comando, oportunidade política e mesmo jogo de egos acaba influenciando nas decisões que são tomadas. Da mesma forma, Pressão nos alerta para o fato de que poucas verdades científicas são definitivas e absolutas, e que novas abordagens e releitura de dados existentes podem mudar a percepção que temos da realidade e de como lidar com ela.

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A direção de Marras é discreta, dando mais espaço aos atores, onde o grande destaque talvez seja o nem sempre lembrado Damien Lewis, das séries Band of Brothers e Billions. Andrew Scott é excelente e Brendan Fraser talvez merecesse mais cenas, mas a decisão do filme é claramente fazer um retrato comedido de um evento determinante para o final da guerra e a vitória contra os alemães, evitando a romantização ou o heroísmo marcial forçado.

O grande momento do filme é certamente sua resolução, e as cenas do desembarque ganham relevo exatamente pelo fato de que a direção não abusou da grandiosidade até aquele momento e, quando o filme realmente se torna “de guerra”, ela cai como concreto sobre a plateia. Quando os primeiros soldados desembarcam, fica claro para o espectador que estar na linha de frente era um passaporte quase certo para a morte instantânea, o que reforça a importância das decisões tomadas por aqueles homens e humaniza seus conflitos e hesitação.

A liberdade ocidental que até hoje permite nosso modo de vida – e, incluso nele, o hábito de fazer filmes e assisti-los – não se consolidou por acaso, sendo fruto da coragem e expertise de homens que ousaram defendê-lo sob pena de cometer erros fatais. Para nossa sorte, James Stagg (taciturno, pouco sociável e humilde no domínio de seu conhecimento) acertou mais do que errou – como Pressão nos conta em um filme de narrativa descomplicada, comovente e que faz pensar sem ser pedante ou proselitista.

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