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Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection – Entre Monstros e Política

Monster Hunter Stories 3 é o mais novo jogo derivado da série Monster Hunter no estilo JRPG, focado em combate de turnos. Como o foco da série está em monstros (aqui chamados carinhosamente de monsties), no combate e captura das criaturas, essa série derivada lembra bastante Pokémon. Mas não se trata apenas de uma mera […]

Daniel Tanan
Daniel Tanan Redação
14 min de leitura
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Monster Hunter Stories 3 é o mais novo jogo derivado da série Monster Hunter no estilo JRPG, focado em combate de turnos. Como o foco da série está em monstros (aqui chamados carinhosamente de monsties), no combate e captura das criaturas, essa série derivada lembra bastante Pokémon. Mas não se trata apenas de uma mera cópia, os jogos anteriores da série foram muito elogiados por seu próprio mérito. Será que a mais nova entrada repete a façanha dos anteriores? É o que vamos analisar aqui. 

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Monsties e Sinergia

A jogabilidade de Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection parte de um princípio bastante claro: traduzir a essência da franquia Monster Hunter para um formato de JRPG de turnos sem perder a sensação de “caçada” que caracteriza a série principal. Não é uma tarefa simples. Enquanto os jogos tradicionais da franquia giram em torno de combate em tempo real, preparação meticulosa e batalhas prolongadas contra monstros gigantes, Stories precisa transformar tudo isso em um sistema estratégico de turnos que continue transmitindo a ideia de estudar o inimigo, explorar suas fraquezas e administrar recursos. O resultado é um sistema que, à primeira vista, parece simples, mas que rapidamente revela várias camadas.

A base do combate gira em torno de uma mecânica inspirada em pedra-papel-tesoura. Em vez dessas três opções clássicas, o jogo trabalha com três tipos de ataque: força, velocidade e técnico. Cada um deles vence um dos outros, criando um ciclo de vantagens que se repete durante os confrontos. Pode parecer simplista quando explicado dessa forma, mas na prática o sistema se torna surpreendentemente estratégico. Monstros seguem padrões de ataque específicos, e aprender a ler esses padrões é parte essencial da experiência. Quando você escolhe o tipo de ataque correto contra o que o inimigo está prestes a usar, vence o chamado “confronto direto”, anulando o golpe adversário e causando dano considerável. 

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Essa dinâmica cria um jogo constante de previsão. Em vez de simplesmente escolher a habilidade mais forte, o jogador precisa observar o comportamento dos monstros, entender quando eles mudam de padrão e reagir adequadamente. Em alguns momentos, a batalha se transforma quase em um duelo psicológico entre o jogador e a inteligência artificial. Quando você acerta várias previsões seguidas, a sensação de domínio sobre o combate se torna muito satisfatória.

Mas o sistema não para por aí. Uma das mecânicas centrais da série é a chamada “afinidade” entre o cavaleiro e seu monstie. À medida que você vence confrontos e executa ataques coordenados, uma barra de afinidade é preenchida. Quando ela chega ao máximo, é possível montar no seu monstie e liberar uma habilidade especial devastadora, geralmente acompanhada de uma animação elaborada que reforça o vínculo entre o personagem e a criatura.

Esses ataques especiais não são apenas efeitos visuais impressionantes. Eles podem interromper ações do inimigo, virar o rumo de uma batalha complicada e criar momentos bastante cinematográficos durante o combate. Saber quando ativá-los se torna uma decisão estratégica importante, especialmente em confrontos contra chefes.

Outro elemento interessante é a possibilidade de realizar ataques duplos. Quando você e seu monstie escolhem o mesmo tipo de ataque vencedor contra o inimigo, os dois executam um golpe conjunto que cancela completamente a ação do adversário naquele turno. Esse tipo de coordenação transforma o combate em algo mais cooperativo, reforçando a ideia de parceria entre cavaleiro e criatura.

A troca de monsties durante o combate também acrescenta outra camada estratégica. Diferente de muitos RPGs de turno, onde a equipe é relativamente fixa durante a batalha, aqui é possível alternar criaturas conforme a situação exige. Cada monstie possui habilidades próprias, tipos de ataque preferenciais e características únicas. Alguns são mais rápidos, outros mais resistentes, enquanto alguns têm habilidades especiais que podem virar uma luta difícil a seu favor.

Essa flexibilidade permite que o jogador adapte sua estratégia constantemente. Se um inimigo começa a usar ataques de velocidade com mais frequência, por exemplo, talvez seja o momento de trazer um monstie especializado em ataques técnicos. Essa dinâmica mantém as batalhas interessantes, evitando que o combate se torne uma simples repetição de comandos.

As armas também desempenham um papel importante. Mesmo sendo um JRPG de turnos, Stories 3 mantém a tradição da franquia ao permitir diferentes tipos de armamento. Cada arma possui habilidades próprias e tipos de dano distintos, como corte, impacto ou perfuração, e algumas são mais eficazes contra determinadas partes do corpo dos monstros. 

Essa mecânica reforça um dos elementos clássicos da série: atacar partes específicas do inimigo. Quebrar a cabeça, a cauda ou as asas de um monstro não apenas enfraquece suas habilidades durante a batalha, mas também aumenta as chances de obter materiais raros após o combate. Assim, mesmo em um sistema de turnos, o jogo preserva a sensação de caça estratégica que sempre definiu Monster Hunter.

Outro detalhe interessante é a quantidade de sistemas que o jogo coloca diante do jogador logo nas primeiras horas. Além das mecânicas básicas de combate, há sistemas de evolução de equipamentos, coleta de materiais, gerenciamento de monsties, habilidades de exploração e uma série de recursos adicionais. Para quem está chegando à série pela primeira vez, isso pode parecer um pouco intimidador.

Nas primeiras horas, a sensação é quase de estar sendo bombardeado por mecânicas diferentes. Entretanto, com o tempo, tudo começa a fazer sentido. O jogador percebe que cada sistema existe para alimentar outro, os materiais coletados servem para melhorar armas, as armas facilitam derrotar monstros mais fortes, e esses monstros oferecem novas criaturas e recursos.

Essa progressão gradual é justamente o que faz o jogo funcionar. Apesar da aparente complexidade inicial, a curva de aprendizado é relativamente natural. O jogador que insiste e experimenta diferentes combinações acaba descobrindo um sistema surpreendentemente acessível.

A exploração também merece destaque. Espalhados pelo mapa estão os chamados “ninhos de monstros”, onde é possível encontrar ovos de novas criaturas. Cada monstie possui habilidades de exploração únicas, alguns conseguem voar, outros escalar ou quebrar obstáculos no cenário, permitindo acessar áreas antes inacessíveis. 

Esse aspecto cria uma estrutura quase metroidvania na exploração do mundo. À medida que você obtém novas criaturas, novas possibilidades de exploração se abrem. Isso incentiva o retorno a regiões antigas e reforça a sensação de progressão constante.

Visualmente, o jogo também contribui para tornar tudo mais envolvente. O estilo artístico colorido e inspirado em anime ajuda a dar personalidade aos monstros e aos ambientes. Mesmo criaturas que já eram conhecidas da série principal ganham aqui uma apresentação mais leve e estilizada, o que combina bem com o tom de aventura do jogo.

No entanto, nem tudo é perfeito. Como acontece com muitos JRPGs, o jogo pode exigir uma certa dose de repetição. Algumas batalhas e missões secundárias acabam se tornando um pouco previsíveis depois de várias horas. O sistema de coleta e evolução também pode exigir grind em determinados momentos, especialmente quando se busca equipamentos mais poderosos.

Felizmente, o combate estratégico ajuda a manter as batalhas interessantes mesmo quando a estrutura se repete. A necessidade de prever ataques, coordenar monsties e administrar habilidades impede que o jogo se transforme em um simples apertar de botões.

No fim das contas, a jogabilidade de Monster Hunter Stories 3 consegue algo que nem sempre é fácil: transformar um universo conhecido por sua complexidade em uma experiência estratégica acessível, sem perder a identidade da franquia. 

O resultado é um JRPG que, apesar de lembrar outros jogos de captura de criaturas, encontra personalidade própria ao combinar sistemas de combate inteligentes com a tradicional obsessão de Monster Hunter por monstros, equipamentos e exploração.

Quando o Passado Molda o Presente

A narrativa do jogo surpreende justamente por investir em algo que nem sempre é o foco da franquia Monster Hunter: uma trama política relativamente complexa e personagens que realmente passam por transformações ao longo da jornada. Enquanto muitos títulos do universo Monster Hunter utilizam a história apenas como pano de fundo para justificar as caçadas, Stories 3 tenta fazer algo um pouco mais ambicioso, construindo um mundo em que conflitos históricos e identidades nacionais moldam diretamente os acontecimentos.

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A premissa central gira em torno de dois reinos que, Azuria e Vermeil, que em algum momento do passado, formavam uma única nação. Esse detalhe histórico não é apenas um elemento de lore jogado ao acaso; ele funciona como o eixo em torno do qual toda a narrativa se desenvolve. A separação dessas duas entidades políticas criou uma tensão permanente entre os povos, uma espécie de cicatriz coletiva que nunca foi completamente curada. O jogo faz questão de mostrar que a divisão não foi apenas territorial, mas também cultural e ideológica. Cada reino desenvolveu sua própria forma de lidar com monstros, com a natureza e com o poder que essas criaturas representam.

Essa abordagem dá ao mundo do jogo uma densidade narrativa interessante. Em vez de um conflito simplista entre “bem” e “mal”, o que vemos é uma disputa de perspectivas. Para um dos lados, os monsties representam parceiros e aliados naturais; para o outro, são recursos que devem ser controlados ou neutralizados para garantir estabilidade. Essa diferença de visão cria uma tensão política constante, que se manifesta tanto em diálogos quanto em eventos importantes da trama.

O protagonista, inserido nesse cenário delicado, acaba se tornando uma espécie de ponte entre esses dois mundos. Ao longo da história, ele se vê frequentemente no meio de disputas que vão muito além de simples batalhas contra monstros. Diplomacia improvisada, mal-entendidos históricos e preconceitos acumulados entram em jogo, criando uma narrativa que, em muitos momentos, parece mais preocupada em explorar as consequências da divisão do que em simplesmente resolvê-la.

Uma das qualidades mais marcantes da história é justamente a forma como os personagens são tratados. Em vez de funcionarem apenas como companheiros de jornada sem grande relevância, cada membro do elenco parece ter seu próprio arco narrativo bem definido. Isso significa que cada personagem entra na história com motivações específicas, enfrenta dilemas pessoais e, em muitos casos, termina a aventura transformado pelas experiências vividas.

Esse cuidado na construção dos arcos individuais ajuda a dar mais peso emocional à narrativa. Quando um personagem questiona suas crenças ou precisa confrontar o passado de seu próprio povo, a história ganha uma dimensão mais humana. Não se trata apenas de salvar o mundo ou derrotar uma ameaça final, mas de compreender como as decisões do passado continuam influenciando o presente.

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Outro ponto interessante é como o jogo utiliza os monstros não apenas como adversários ou companheiros de batalha, mas também como elementos narrativos. Em vários momentos, a relação entre humanos e monsties funciona como metáfora para o próprio conflito entre os reinos. Enquanto alguns personagens defendem uma convivência harmoniosa com essas criaturas, outros enxergam nelas apenas ferramentas de guerra ou símbolos de poder.

Essa dualidade reforça um dos temas centrais da história: a dificuldade de romper ciclos históricos de desconfiança. Quando um mundo passa gerações dividido, as narrativas construídas por cada lado se tornam quase tão poderosas quanto os próprios acontecimentos que deram origem ao conflito. Monster Hunter Stories 3 parece consciente disso e frequentemente apresenta situações em que a verdade não é tão clara quanto os personagens acreditavam.

A narrativa também se beneficia de um ritmo bem equilibrado. Nos primeiros capítulos, o jogo dedica bastante tempo a apresentar o mundo, suas culturas e as diferenças entre os reinos. Pode parecer um início mais lento, especialmente para quem espera uma aventura cheia de reviravoltas desde o começo, mas esse tempo de construção acaba sendo importante para que os conflitos posteriores tenham mais impacto.

À medida que a história avança, as tensões políticas começam a se intensificar. Decisões tomadas por líderes, alianças inesperadas e revelações sobre o passado gradualmente ampliam a escala da narrativa. O jogador passa de pequenas missões locais para eventos que podem redefinir o equilíbrio de poder entre as nações. Esse crescimento gradual da trama ajuda a criar a sensação de que estamos participando de algo maior do que apenas uma jornada pessoal.

Outro aspecto que merece destaque é o tom geral da narrativa. Mesmo lidando com temas como divisão política e heranças históricas complexas, o jogo mantém uma atmosfera de aventura relativamente otimista. Isso se reflete no estilo visual colorido e no humor ocasional presente em diálogos entre os personagens. A história nunca se torna excessivamente pesada, o que ajuda a manter o equilíbrio com a proposta mais leve do gameplay.

Ainda assim, há momentos em que o jogo surpreende ao abordar consequências mais sérias das disputas entre os reinos. Vilas afetadas por conflitos antigos, personagens que carregam ressentimentos familiares e decisões políticas que impactam populações inteiras são exemplos de como o roteiro tenta dar peso às tensões que construiu. Esses momentos ajudam a evitar que a trama pareça superficial.

Naturalmente, a narrativa também segue algumas convenções clássicas dos JRPGs. Existe uma ameaça maior que acaba emergindo gradualmente, forçando personagens de lados opostos a reconsiderarem suas posições. Revelações sobre eventos do passado ajudam a contextualizar os conflitos atuais e criam momentos de virada importantes na história. Essas estruturas podem ser previsíveis para quem já está acostumado com o gênero, o jogo consegue executá-las com competência.

Um dos fatores que contribuem para isso é justamente a consistência do elenco. Como cada personagem possui um arco próprio, as decisões tomadas durante a história raramente parecem arbitrárias. Mesmo quando há mudanças de postura ou alianças inesperadas, elas geralmente são construídas ao longo da narrativa. Isso dá a impressão de que os personagens realmente evoluem em resposta aos acontecimentos.

A relação com os monsties também evolui narrativamente. No início da jornada, essas criaturas são vistas principalmente como aliados de batalha ou companheiros de exploração. Com o tempo, o jogo passa a tratá-las como símbolos de confiança entre povos diferentes. Quando personagens de origens distintas conseguem lutar lado a lado montados em monsties, o jogo reforça visualmente a ideia de que cooperação é possível mesmo em um mundo marcado por divisões.

Claro que nem todos os elementos da história são igualmente bem desenvolvidos. Em alguns momentos, certas revelações poderiam ter recebido mais tempo de exploração, e alguns antagonistas acabam sendo apresentados de forma um pouco apressada. Ainda assim, esses problemas não comprometem o conjunto da narrativa.

No fim das contas, a história de Monster Hunter Stories 3 funciona justamente porque entende que o verdadeiro conflito não está apenas nos monstros gigantes espalhados pelo mundo, mas nas barreiras invisíveis criadas pela história e pela política. Ao explorar a relação entre dois reinos que já foram um só, o jogo constrói uma narrativa que fala sobre identidade, memória coletiva e a dificuldade de reconciliar visões diferentes de mundo.

Esse cuidado com os personagens e com a dimensão política da trama faz com que a jornada vá além da simples aventura de capturar criaturas e enfrentar inimigos poderosos. O resultado é uma história que, embora siga algumas convenções do gênero, consegue oferecer momentos genuinamente interessantes para quem se envolve com seu universo.

Conclusão

No fim das contas, Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection consegue repetir a façanha de seus antecessores ao provar que o universo de Monster Hunter funciona muito bem dentro da estrutura de um JRPG tradicional. A jogabilidade estratégica baseada no sistema de força, velocidade e técnico cria batalhas que exigem atenção constante do jogador, enquanto as mecânicas de monsties, montagem e habilidades especiais dão ao combate identidade própria. Pode levar um pouco de tempo até que todas as engrenagens do jogo façam sentido, mas, quando o jogador entende como os sistemas se conectam, a experiência se torna bastante recompensadora.

Narrativamente, o jogo também surpreende ao apostar em uma história mais ambiciosa do que se poderia esperar de um spin-off da franquia. O conflito político entre Azuria e Vermeil dá peso à jornada, enquanto os personagens passam por arcos próprios que ajudam a tornar o mundo mais vivo e crível. Mesmo que a trama siga algumas convenções clássicas dos JRPGs, ela consegue se sustentar graças ao cuidado com a construção do elenco e com os temas de identidade e reconciliação. No final, Monster Hunter Stories 3 se mostra não apenas uma boa entrada na série derivada, mas também uma prova de que o universo de Monster Hunter ainda tem muitas histórias interessantes a contar fora da fórmula tradicional das caçadas.

Agradecemos à Capcom por fornecer uma cópia do jogo para a realização desta análise.

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