Pois é, o indivíduo especialista e melhor conhecido por seus grandes plot-twists ou reviravoltas finais que despertam sensações e discussões mistas e diferentes no público, voltou à atacar de novo em seu recente e divisório filme, Vidro. Onde M. Night Shyamalan veio entregar uma conclusão talvez ousada até demais para a sua trilogia iniciada em Corpo Fechado e continuada com Fragmentado e concluída agora em Vidro, ou nomeada como a Trilogia Eastrail 177, e que vem dividindo bastante seu público e fãs sobre suas decisões finais.

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Se questionando bem além do porquê dessas decisões tomadas e sim o que exatamente seu diretor quis dizer com isso. Um tiro no pé pretensioso? Ou uma brava despedida para a sua trilogia de super-heróis realistas? Bem, não estamos aqui para defender qual posição está certa, e sim apenas desvendar os motivos por detrás das revelações finais de Vidro e o que elas significam dentro da história contada por Shyamalan ao longo de toda a trilogia.

O Fim do Início

Tudo começa quando após um longo segundo ato lento e dramático onde os três protagonistas, David Dunn, A Horda/Kevin Crumb, Elijah Price foram cruelmente questionados e psicologicamente torturados com dúvidas impostas pela misteriosa doutora Ellie Staple, o senhor Vidro finalmente coloca seu plano em moção fazendo com que ele e a Horda juntos escapem do hospício ao mesmo tempo em que David consegue escapar de sua cela para impedi-los, mas que faz tudo parte do grande plano do vilão para fazer os dois seres poderosos se enfrentarem no prédio mais alto da cidade que está para se inaugurar naquele dia.

Mas depois de David conseguir intercepta-los no pátio frente ao hospício e um intenso confronto entre herói, vilões e policiais começar, tudo chega à um trágico fim. Com a Horda sendo atingida por um tiro de um Sniper com um trevo tatuado no braço, Elijah/Vidro sucumbe lentamente as feridas causadas pela besta após revelarem que ele havia matado o pai de Kevin no mesmo trem que David sobrevivera em Corpo Fechado (amarrando muito bem a conexão dos três filmes), e David está sendo afogado em uma poça por um misterioso guarda com o mesmo símbolo do trevo.

Porém, antes de seu fatal destino, a doutora Staple pede para ele segurar sua mão onde lhe é revelado através de uma visão que ela faz parte de uma organização secreta. Que logo depois revela o mesmo para Elijah dizendo que sua organização opera por mais de dez mil anos impedindo que os seres com habilidades especiais (ou super-heróis) sejam revelados para o mundo, mantendo assim o balanço natural das coisas.

Só para mais tarde ter seu trabalho completamente arruinado quando é revelado que todo o confronto no hospício não passou de uma mera distração para que as câmeras do local, programadas por Elijah, capturassem toda a ação cometida com os superpoderes de David e da Horda, com os vídeos no final sendo espalhados na internet e na mídia para todo o mundo ver que super-heróis sim existem.

Matando a Fé

Um bando de conceitos entregues na última hora com uma metralhadora de informações, o bastante para pessoas ou ficarem confusas com o que está acontecendo ou facilmente irritadas com as decisões “fáceis” e de última hora que o diretor entrega bem no final de sua história. Mas que na teoria na verdade é um conceito bem simples e que até melhora dentro do filme após refletir sobre o que  Shyamalan quis dizer com isso para com seus heróis e vilões, e a ordem secreta criada para extermina-los.

Basta se lembrar sobre o que o senhor Vidro já citava desde Corpo Fechado, especificamente quando conheceu David pela primeira vez e apresentou para ele, e ao público, suas fortes crenças sobre a mitologia das histórias em quadrinhos de super-heróis. E sobre como ele piamente acredita que os quadrinhos sempre uma forma de transmitir história, não a ficção mas sim a real, onde se os egípcios se usavam das escrituras pictográficas nas pirâmides e os homens das cavernas desenhavam nas paredes, todos desenhando partes e momentos de suas histórias presenciadas, então também um autor de revistas e quadrinhos fez o mesmo. Ao testemunhar algo de especial e surpreendente e a transcreveu para as páginas dos quadrinhos, a exagerando, enfeitando e endeusando como toda forma de arte faz.

Então, essa misteriosa ordem liderada pela Doutora Staple se revela como basicamente uma exterminadora dessa crença. Que tratam as histórias em quadrinhos como desilusões mentais, e que tratam essas pessoas com a possibilidade de possuírem essas dádivas especiais e sobre-humanas como doentes mentais, incapazes de conviver entre pessoas “normais”. Realizando assim um tratamento para que essas pessoas, como fez aos três protagonistas do filme, deixarem de acreditar que possuem esses “superpoderes” e começar a pensarem que tudo não passa de ilusões de suas mentes.

Por isso as palavras finais de Elijah/Vidro dizendo que existem forças misteriosas nesse mundo que não quererem os ver despertar o seu potencial, sua dádiva especial. O que também fazem parte do que Elijah já dizia sobre se ele viver em um espectro da vida. Se existia alguém como ele, um homem facilmente quebrável, com certeza também existiria alguém no espectro oposto, um homem inquebrável como David. Então se existiram mesmo autores e artistas que transcreveram a história dos super-seres para os quadrinhos, indivíduos crentes de sua existência, então também existem as forças que não querem permitir que elas se tornem realidade, os descrentes da existência e capacidade dos super-heróis no mundo real.

Mas o que parecia ser uma inevitável derrota para os três superpoderosos, se torna graças ao dono do título do filme, uma grande vitória com um ar de esperança. Já que antes de morrer, o senhor Vidro diz que tudo isso não era o fim e sim era uma história de origem. O que quis dizer com isso? Mais sentido do que imaginam!

Uma História de Origem

No final, após descobrir que tudo fez parte do plano do Senhor Vidro para espalhar para o mundo as imagens de David e da Horda demonstrando seus poderes em ação e revelando a existência de seres superpoderosos, ou super-heróis, o senhor Shyamalan parece querer fincar uma nota quase autobiográfica com a ação cometida pelo personagem de Elijah/Vidro.

Com o personagem se tornando quase essa figura de um artista de quadrinhos que sempre aspirou ser ao longo da trilogia. E com todos os motivos para tal, já que ele deu vida à um herói e um vilão que foram criados na mesma origem, o mesmo acidente de trem, onde David descobriu seus poderes pela primeira vez, e Kevin após a morte do pai começa a ser abusado pela mãe durante toda sua vida, que desencadeou na criação das 23 personalidades.

E agora através dos vídeos de todo o confronto final, ele se torna o símbolo de um criador de conteúdo, um artista que fez vídeos (ou um filme) de heróis à sua própria forma e agora espalhou para o mundo ver, mesmo que essas forças misteriosas o tentassem matar e impedir (soa familiar?), sua arte agora sempre estará viva e será para sempre lembrada.

Indulgente e pretensioso com certeza, mas que casa bastante com a mensagem subliminar do mundo dominado pela cultura dos super-heróis endeusados e exagerados, mas que foram vistos nessa trilogia como seres humanos com habilidades especiais e que agora poderão inspirar à outros como eles no mundo a se revelarem.

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