Cinema

O Mago do Kremlin é apresentação competente mas convencional da política russa do século XXI

Quase no final de O Mago do Kremlin, o novo filme dirigido por Olivier Assayas, uma cena curta mostra o que poderia ter sido o filme inteiro: um dos personagens desaparece quase por mágica, diante de nossos olhos. É um trecho ligeiro e que pouco interfere no restante da trama, que tem “vida própria” em […]

Daniel Moreno
Daniel Moreno Redação
4 min de leitura
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Quase no final de O Mago do Kremlin, o novo filme dirigido por Olivier Assayas, uma cena curta mostra o que poderia ter sido o filme inteiro: um dos personagens desaparece quase por mágica, diante de nossos olhos. É um trecho ligeiro e que pouco interfere no restante da trama, que tem “vida própria” em relação ao filme em si. Isso significa que a escolha do diretor foi por privilegiar as referências factuais de sua ficção, e deixar a inventividade cinematográfica em segundo plano. O fato é que a cena (a parte) sintetiza o universo de preocupações pelo qual o filme completo (o todo) transita de maneira bastante convencional (embora profissional): a atmosfera de paranoia palaciana e disputa de poder em que qualquer um pode a qualquer momento ser alçado a uma condição de poder – ou sumir sem deixar vestígios.

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Filmes sobre acontecimentos e personagens históricos estão no degrau mais alto do cinema de ficção na escala de “comprometimento com a realidade factual”, e isso é uma sombra que paira sobre seus realizadores. Diferente dos habituais enredos que partem de situações reais (mas pouco conhecidas), as produções que remetem diretamente ao noticiário precisam se equilibrar entre a invenção e a fidelidade – se só valesse esta última, talvez o gênero documental fosse mais apropriado. Grande parte do esforço reside então em fazer com que a obra de ficção tenha códigos claros e de identificação imediata, para que o público sinta estar diante de um retrato “honesto” dos personagens e fatos verdadeiros. A maior parte do tempo, isso converte (e também reduz) o filme em um “jogo de semelhanças”, o que fatalmente compromete todo o resto.

É sempre um desafio reduzir a uma centena de minutos uma série alongada de acontecimentos, que por sua vez envolvem um sem número de agentes participantes, obrigando a produção e a direção a se ocupar disso – muitas vezes, em vez de criar cenas como aquela, que pouco tem de “factual” mas consegue traduzir sobre o que realmente é o filme em uma forma poética e cinematográfica. Kubrick dizia que “realista era bom”, mas “interessante” era ainda melhor. Sorrentino tinha a exata noção disso ao filmar a vida dos políticos italianos Giulio Andreotti e Silvio Berlusconi e, para sempre, o cinema terá ganho o “Andreotti” e o “Berlusconi” de Sorrentino. Não parece ser esta a pretensão de Assayas aqui: o Vladimir Putin de O Mago do Kremlin é tão genérico que parece saído de um verbete da Wikipedia.

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Na trama, Vadim Baranov (Paul Dano) é um produtor de TV russo com formação teatral que desenvolve relações com figuras poderosas após a dissolução do império soviético. Para atender favores ao magnata Boris Berezovsky (Will Keen), ele acaba por se tornar o assessor de propaganda de um burocrata da espionagem relutante em assumir a carreira política de nome Vladimir Putin (Jude Law). O enredo irá acompanhar a ascensão do trio rumo ao poder total enquanto a Rússia salta do socialismo real para um regime que mistura capitalismo e banditismo até finalmente desembocar numa autocracia, enquanto Baranov faz e desfaz seu caso de amor com a arrivista Ksenia (Alicia Vikander). A história toda é narrada do ponto de vista de um jornalista (Jeffrey Wright), a quem o produtor conta suas memórias numa mansão nos arredores de Moscou.

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Tarantino costuma estar certo na maioria das polêmicas em que se envolve, mas quanto a Paul Dano ele está bastante enganado: ele é um excelente ator e entrega aqui mais uma atuação convincente, assim como Vikander. Law é ótimo, mas tem pouco a fazer com seu Putin, sobre o qual o filme se dedica de forma bastante superficial, prevalecendo o “mistério dentro do enigma” ao qual aludia Churchill referindo-se à Rússia como nação. E o papel de Wright é quase decorativo mesmo.

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O enredo de O Mago do Kremlin precisa cobrir duas décadas conturbadas da história da Rússia, envolvendo atentados, guerras e toda sorte de escaramuças políticas internas. Talvez um formato mais longo (como o próprio Assayas usou em Carlos, o chacal) permitisse ao diretor encontrar a perfeita tradução cinematográfica do universo do filme: a atração mórbida de um povo pelo autoritarismo do qual parece não conseguir se livrar e a personalidade misteriosa (ora rebuscada, ora primitiva como a de um típico servidor de carreira) de seu mais recente autocrata. Em menos de duas horas e meia, o filme se limita a ilustrar e compilar fatos e apresentar personagens, numa reconstituição competente mas bastante convencional, cuja melhor parte é o retrato de uma Rússia recém-liberta da escravidão comunista: caótica, transpirante de liberdade e desatenta à nova modalidade de servidão que estaria por vir.

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Tags: #Jude Law
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