Crítica | Pânico 7 busca equilíbrio entre Dario Argento e Scooby-Doo
Então, temos em Pânico 7 um dilema. O filme precisa justificar ser uma continuação de uma longa sucessão de histórias anteriores.

A saga de horror inicialmente concebida pelo roteirista Kevin Williamson (no sétimo filme, também diretor) e pelo cineasta Wes Craven (de A Hora do Pesadelo) notabilizou-se desde o princípio por uma perspectiva metalinguística, como se de alguma maneira prenunciasse o que viria a ser, depois, a tendência nas redes sociais de refletir exaustivamente sobre os filmes, estabelecer conexões entre eles e expandir cada produção para o ambiente cultural, criando uma espécie de culto dentro das comunidades de fãs de cada franquia.
Tudo isso teve seu lado positivo (manter vivo o hábito de discutir os filmes e mesmo de assistir a eles em tela grande), mas também negativo: uma boa parte das produções da indústria deixou de ser enxergada por seus atributos individuais (como “filmes” propriamente ditos) e passou a ser julgada pela forma como cada novo título relaciona-se com títulos anteriores ou mesmo com um “universo narrativo” esperado pela audiência. Este é precisamente o caso em Pânico 7, que chega agora aos cinemas em fevereiro de 2026.
A nova produção é estruturada quase milimetricamente em duas metades com distinções evidentes. A sua primeira parte corre facilmente como um filme à parte e o foco está em construir suspense – ou seja, trabalhar as reações do público diante de algo que “iminentemente” irá acontecer. A segunda parte (que começa quando a primeira identidade do assassino é revelada) precisa prestar contas àquela comunidade que vai ver Pânico 7 não pelo que ele oferece como “filme novo”, mas sim como “novo filme” de uma franquia cujos personagens e funcionamento interno já são bem conhecidos.
Seria injusto dizer que a primeira metade é ruim. Ela funciona muito bem: tem bom ritmo, os personagens são apresentados de forma tradicional dentro do gênero e a sequência de abertura é particularmente inspirada: estão nela todos os elementos que fizeram do próprio conceito de Pânico uma ideia tão bem-sucedida. Ademais, Kevin Williamson dirige “à moda antiga” (você pode dizer que ele “sabe dirigir” também, assim fica mais fácil explicar): enquadramentos pensados em relação ao primeiro plano e ao fundo, uso de silêncio e contraste nos ambientes, tempo de reação dos atores, etc. Nada daquele monte de “talking heads” habitual dos novos diretores, acostumados a ver tudo pelo ponto de vista de uma telinha de smartphone e que, talvez por isso mesmo, esquecem que você pode “abrir o quadro” vez por outra (e como isso ajuda a contar sua história).
Na segunda metade, tanto o roteiro quanto a direção precisam justificar a franquia e atender a uma expectativa (até previsível) da base de fãs. O filme retoma então a noção de metalinguagem e autorreferência, mas de forma bastante austera (como se soubesse, e isto é um fato, que a repetição da fórmula após seis produções dá pistas claras de seu desgaste), sem pesar a mão – o que, ironicamente, pode ser frustrante para quem espera de Pânico 7 não um filme por si só, mas um “filme da saga”, com obrigações a cumprir nesse sentido.
A trama procura seguir uma linha daquilo que já sabemos e tem pouco a trazer de novo. Sidney Prescott (Neve Campbell) leva sua nova vida de casada com uma filha adolescente e cuidando de uma cafeteria numa pacata cidade do interior dos Estados Unidos. A garota parece ser o novo alvo de um Ghostface imitador que se utiliza (ou não) de I.A. para enviar vídeos com rostos conhecidos do passado de Prescott. Ao longo da projeção (e vamos evitar spoilers aqui), algumas caras conhecidas irão reaparecer, embora o roteiro use desse expediente com cuidado, exatamente para não exagerar na autorreferência e exaurir ainda mais o conceito original.
Então, temos em Pânico 7 um dilema. O filme precisa justificar ser uma continuação de uma longa sucessão de histórias anteriores. Mas, ao mesmo tempo, são muitas horas explorando uma situação inicial e um rol de personagens que já “deu o que tinha que dar”, e é preciso abrir alguma janela nova para que a franquia respire.
Neve Campbell empresta graça a sua sofrida personagem e mostra estar em ótima forma. Algumas cenas (como a brilhante fuga do quarto do pânico – literal – na casa de Prescott) colocam o filme um nível acima do que se vê normalmente no gênero hoje. Especialmente na primeira metade, a impressão que a direção passa é de querer abraçar um pouco um estilo meio Giallo, lembrando o pastiche gótico, burlesco, que geralmente se atribui ao cinema de Dario Argento, por exemplo. Esse aspecto possibilita ao filme seus melhores momentos (como nas cenas no teatro). Por outro lado, a segunda metade precisa retomar a natureza “Scooby-Doo” da franquia, a necessidade de “puxar a máscara” e revelar identidades, o que é um jogo previsível, cartunesco, de “imprevisibilidade” calculada.
A saga Pânico ficou conhecida por ser um arabesco cinematográfico de autorreferências e jogos internos, o que pode ser divertido para os fãs, mas também cansativo para o público comum, mais interessado em entretenimento que numa gincana que só é plenamente aproveitada pelos fanáticos pelos personagens. Pânico 7 busca um equilíbrio entre as duas audiências e, por não ser um filme longo, atinge seu objetivo com razoável sucesso – embora, provavelmente, o espectador comum irá curtir mais a experiência que o fanático pela franquia.