Críticas

Review | Star Fox no Switch 2 prova que ressuscitar um clássico é uma arte

Velan Studios entrega o melhor remake já feito pela Nintendo: visuais deslumbrantes a 60fps, narrativa expandida e a mesma fórmula irresistível de 1997.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
10 min de leitura

Existe uma diferença fundamental entre preservar um jogo e honrá-lo. Preservar é arquivar, congelar no tempo, devolver exatamente o que existia antes com a poeira sacudida. Honrar é outra coisa. É entender por que aquele jogo importava, o que ele fazia que os outros não faziam, e perguntar como tudo isso pode soar ainda mais verdadeiro hoje do que quando foi criado. 

A Velan Studios, estúdio nova-iorquino contratado pela Nintendo para o remake de Star Fox 64 no Switch 2, claramente fez essa segunda pergunta. E a resposta que chegou é um dos mais bem-executados remakes dos últimos anos.

Star Fox, lançado em 25 de junho de 2026 exclusivamente para o Switch 2, acumula nota 82 no Metacritic e 83 no OpenCritic, tornando-se o segundo título mais bem avaliado de toda a franquia, ficando atrás apenas do próprio original que recria. Isso diz muito sobre o que a Velan entregou. Mas os números não contam a história completa.

A mesma jornada, recontada com mais alma

A trama de Star Fox segue o mesmo traço do original de 1997. O cientista Andross, exilado no planeta Venom após um histórico de experimentos questionáveis, constrói um exército e ameaça o sistema Lylat. O General Pepper contrata o esquadrão Star Fox para conter o avanço. Fox McCloud embarca na missão carregando também o peso de uma história familiar: seu pai, James McCloud, lendário piloto e fundador do esquadrão original, desapareceu em circunstâncias obscuras numa missão no próprio Venom.

O que a Velan fez com essa estrutura já conhecida foi expandi-la por dentro, sem quebrar nada. As introduções de missão que no original do N64 eram tratadas com breves trocas de texto agora recebem o tratamento completo de cinemáticas. 

As personalidades do esquadrão foram aprofundadas: Fox tem mais do arquétipo Han Solo, com sua condição de mercenário mais enfatizada. A relação entre Fox e Falco virou uma rivalidade fraternal genuína, em vez de Falco ser apenas um personagem difícil sem motivo aparente. Até Slippy tem momentos melhores, com sua inteligência de engenharia e entusiasmo em evidência.

O destaque narrativo é a nova cena de prólogo mostrando o que aconteceu com James McCloud, anteriormente contada apenas por introduções textuais. Ver esse momento em cinemática real, animada no motor do jogo, dá um peso emocional ao objetivo de Fox que o original nunca conseguiu transmitir. É uma adição pequena em duração mas enorme em impacto. O esquadrão Star Fox finalmente parece uma família com história, não apenas quatro personagens com funções táticas.

Há mais cenas do que no original, os diálogos de rádio durante as missões são mais contextualizados e espirituosos, e o Great Fox, a nave-base onde o esquadrão aguarda entre as missões, vira um espaço de convivência que humaniza as relações entre os personagens. Nada disso transforma Star Fox numa narrativa épica de ficção científica, mas faz com que você se importe com as pessoas dentro das naves. E esse cuidado faz diferença real na hora em que as batalhas mais intensas chegam. Uma pena, porém, que é tudo muito curto e rápido.

O que mudou na cockpit

Quem jogou Star Fox 64 nas últimas décadas vai reconhecer cada missão, cada chefe, cada bifurcação da campanha. A Velan não inventou fases novas nem reinventou a estrutura: você ainda começa em Corneria, ainda navega por rotas alternativas dependendo do seu desempenho e das suas escolhas, e ainda termina em Venom para o confronto final com Andross. Essa fidelidade à estrutura original foi uma decisão deliberada e, no contexto deste remake, foi a certa.

O que mudou é tudo ao redor disso. A Velan Studios construiu o jogo sobre seu próprio motor proprietário VIPER, com um pipeline de renderização em tempo real que entrega toda a jogabilidade a 60 frames por segundo no modo acoplado, comparado aos 15 a 20fps do original do N64 e aos 30fps do remake para 3DS de 2011. Mais importante ainda: as cinemáticas são renderizadas no mesmo pipeline em tempo real, eliminando a divisão visual entre cutscene e gameplay que constrangeu a franquia desde 1997.

A diferença prática disso é mais profunda do que parece no papel. Missões que no original tinham um ritmo mais truncado pela limitação técnica agora fluem com uma velocidade que transforma completamente a sensação de estar dentro delas. A clássica Corneria quase parece estar sendo jogada em fast forward, com tudo chegando com uma fluidez extraordinária. E Aquas, missão submarina historicamente mal amada pelos fãs, finalmente se torna divertida.

Os controles respondem com precisão imediata. Barrel rolls, impulsos, freadas e mudanças de direção funcionam com naturalidade que faz você parar de pensar nos botões e simplesmente voar. O Arwing mantém seu design icônico mas agora parece uma máquina de guerra de verdade, com linhas agressivas e superfícies que refletem a luz de forma convincente. Nos momentos de combate All-Range, onde você tem liberdade total de movimentação numa arena, a responsividade do controle é especialmente importante, e o jogo nunca vacila.

O único modo de controle que não convence é o uso do Joy-Con 2 como mouse, um recurso novo do Switch 2. A ideia de usar a mira com precisão de ponteiro parece promissora no papel, mas na prática a configuração exige colocar o jogo em primeira pessoa e mistura dois esquemas de controle diferentes de formas que ficam desajeitadas. Quem cresceu com o layout clássico provavelmente vai ignorar essa opção depois de alguns minutos testando.

Uma reconstrução visual que impressiona de verdade

Se há um aspecto em que a Velan Studios foi completamente ambiciosa, é nos visuais. O remake não atualizou texturas nem melhorou modelos poligonais: construiu tudo do zero, de cada planeta a cada inimigo, com uma visão artística completamente nova.

Corneria, que no original era uma cidade relativamente estéril, agora é um campo de batalha em chamas cheio de fumaça, destroços e caos causado pelas forças de Andross. As geladas planícies de Fichina têm flocos de neve que grudam na câmera e derretem em água. E a missão em Solar, sobre um planeta de lava, tem clarões que iluminam a parte inferior do Arwing enquanto você sobrevoa a superfície.

O design dos personagens gerou debate desde o anúncio. Os membros do esquadrão agora têm uma aparência muito mais próxima dos animais reais nos quais se baseiam, afastando-se do visual antropomórfico estilizado do original. 

É uma escolha ousada que divide opiniões, mas que funciona bem em prática: as animações faciais são suficientemente expressivas para que os diálogos das cinemáticas não criem estranhamento, e com mais tempo de tela os personagens passam a parecer naturais nessa nova forma.

O jogo roda a aproximadamente 1440p no modo acoplado, provavelmente com auxílio de upscaling do hardware do Switch 2, e a performance se manteve estável mesmo nas batalhas com mais elementos em tela simultaneamente. É uma demonstração técnica capaz, especialmente considerando que é a estreia da Velan num projeto desta escala para a Nintendo.

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A trilha sonora merece menção própria. As composições originais de Koji Kondo e Hajime Wakai foram completamente rearranjadas para uma orquestra completa. O resultado amplifica cada momento: batalhas ficam mais tensas, vitórias soam mais grandiosas, e os temas que qualquer fã dos anos 90 tem guardados na memória afetiva chegam com um poder emocional que o MIDI do N64 nunca conseguiu capturar. É um dos melhores trabalhos de rearranjo orquestral que a Nintendo já comissionou.

Rotas, medalhas e o loop que nunca envelhece

Uma das razões pelas quais Star Fox 64 construiu uma base de fãs tão fiel ao longo de quase três décadas é que a campanha de quase duas horas nunca foi projetada para ser jogada uma única vez. A estrutura de rotas alternativas, onde seu desempenho e suas decisões durante as missões abrem ou fecham caminhos diferentes pelo sistema Lylat, transforma cada jogatina numa experiência potencialmente diferente da anterior.

Esse sistema foi preservado completamente e é onde a rejogabilidade do remake se concentra. Completar determinados objetivos secundários, atingir certas pontuações ou manter seus aliados vivos em momentos específicos pode desviar sua rota para planetas e chefes que você talvez nunca tenha visto. Alguns caminhos levam a rotas mais fáceis, outros a desafios mais brutais que recompensam quem conhece o jogo a fundo. Há também um caminho verdadeiro, mais difícil de acessar, que leva ao confronto final de maior dificuldade e ao final canônico da história.

O Modo Desafio, novidade deste remake, pega cada missão já desbloqueada na campanha e adiciona requisitos específicos: limite de tempo, pontuação mínima, objetivos adicionais. Para os jogadores que querem extrair cada detalhe do que o jogo oferece, esse modo adiciona horas consideráveis e um nível de dificuldade que vai testar até os veteranos mais experientes. As Missões Pro, desbloqueáveis dentro do próprio Modo Desafio, elevam ainda mais a exigência.

O Holoviewer, outra novidade, é um compêndio enciclopédico do universo de Terrinoth que se preenche conforme você completa objetivos. Inclui modelos 3D de personagens e locações, descrições de lore e contexto histórico da franquia. Para fãs do universo Star Fox, é uma adição genuinamente bem-vinda que aprofunda o mundo sem forçar essa informação na experiência principal.

Multiplayer: promissor, mas pequeno

O modo multiplayer competitivo é uma novidade real deste remake, e oferece três mapas com mecânicas distintas. Um deles é inspirado em Corneria, com disputa por controle de zonas. Outro, ambientado em Fichina, tem jogadores coletando cristais de energia contidos em meteoritos que caem. O terceiro, no Setor Y, envolve capturar carga e transportá-la para a base. Os três modos são surpreendentemente envolventes e dão uma pista do que a Velan Studios poderia fazer com missões All-Range num eventual jogo original de Star Fox.

O problema é que são apenas três mapas. Para um modo que tem potencial real de atrair jogadores de volta ao longo dos meses, a oferta inicial é magra. Funciona bem como bônus dentro do pacote, mas quem esperava encontrar aqui o equivalente a um modo multiplayer que justifique horas de competição online vai se decepcionar.

O modo cooperativo para dois jogadores, onde um pilota e o outro assume o papel de artilheiro, é uma ideia charmosa que captura algo da experiência de jogar junto num sofá, cada um responsável por uma parte diferente da mesma nave. Funciona melhor como experiência social do que como conteúdo de longa duração, mas é exatamente o tipo de modo que a Nintendo sabe fazer: imediato, acessível e divertido de compartilhar.

Um remake generoso que ainda deixa vontade de mais

Quase trinta anos e agora dois remakes depois, Star Fox 64 continua sendo o pico da franquia. Este remake para Switch 2 é um lembrete alegre e atualizado de por que o jogo de 1997 é, de fato, muito bom e divertido. Mas também acendeu um holofote sobre o fato de que Fox McCloud e sua equipe estão há muito tempo sem algo novo.

Essa é a tensão central do projeto: a Velan Studios fez um trabalho tão bom dentro dos limites do que lhe foi pedido que fica impossível não imaginar o que o estúdio poderia ter criado se tivesse espaço para algo original. Os novos mapas de multiplayer sugerem ideias interessantes. As expansões narrativas mostram sensibilidade com os personagens. Há claramente uma equipe que entende Star Fox e que tem o talento para levá-lo a lugares novos.

Mas o que temos é o que temos, e o que temos é muito bom. Quem nunca jogou Star Fox 64 tem agora a versão definitiva de um clássico genuíno do N64, apresentado com os recursos visuais e técnicos que a memória afetiva da geração original sempre imaginou que o jogo tivesse. Quem conhece o original de cor vai reencontrar cada fase, cada chefe e cada linha de diálogo icônico com uma qualidade de execução que os anos 90 simplesmente não permitiam. Além disso, o jogo está inteiramente dublado e localizado para o português brasileiro e conta com preço reduzido na eShop da Nintendo.

Star Fox para Switch 2 não reinventa a franquia. Mas prova, de forma convincente, que às vezes a melhor coisa que um remake pode fazer é mostrar o original em toda a sua grandeza, sem desculpas e sem filtros. Fox McCloud está de volta. E nunca foi tão bom voar ao seu lado.

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