Críticas

Review | Yoshi & The Mysterious Book troca desafio pela descoberta infantil no Switch 2

Yoshi & The Mysterious Book troca a plataforma clássica por testes de cenário no Switch 2, entregando uma experiência sem riscos.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
5 min de leitura
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A transição da Nintendo para uma nova geração de consoles geralmente é pavimentada por gigantes do peso de Mario e Zelda. No entanto, com o recém-lançado Yoshi & The Mysterious Book para o Nintendo Switch 2, a empresa optou por uma abordagem muito mais sutil, íntima e reflexiva. 

Desenvolvido pelo estúdio Good-Feel (responsável por Yoshi’s Crafted World e Princess Peach: Showtime!), este novo capítulo do amado dinossauro verde abandona a lã e o papelão para abraçar as páginas de uma enciclopédia falante com mais um design visual impecável.

O resultado é um experimento lúdico que rompe com as tradições do gênero plataforma. Ele não exige precisão, não oferece risco de fracasso e não apresenta um fluxo linear de superação de obstáculos. Em vez disso, The Mysterious Book é um gigantesco laboratório focado na curiosidade infantil. A grande questão é: essa abordagem quase puramente investigativa é capaz de sustentar o interesse do jogador por muito tempo?

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O grimório de mistérios e a curiosidade como mecânica

A premissa narrativa é tão simples e inocente quanto se espera da franquia. Bowser Jr. acidentalmente descarta um antigo grimório chamado “N Igma” (ou Mistery, dependendo da localização), que cai na Ilha dos Yoshis sem nenhuma de suas memórias escritas. Ele pede aos dinossauros que mergulhem em suas páginas em branco para interagir com a fauna e a flora locais, registrando dados para preencher a enciclopédia novamente.

É a partir desse conceito que a jogabilidade central floresce. Diferente de um jogo de plataforma tradicional, o objetivo de cada fase (ou “habitat”) não é simplesmente chegar ao fim. Você escolhe uma criatura no sumário de Enzo e é transportado para um nível bidimensional desenhado à mão. Seu papel não é o de um salvador heróico, mas o de um naturalista darwiniano.

Você deve descobrir como essa criatura reage ao mundo. O que acontece se você der a ela uma pimenta ardida? E se você a jogar na lama, colocá-la nas costas do Yoshi ou tentar comê-la? Cada interação única resulta em uma “descoberta” registrada com um satisfatório som de lápis arranhando o papel, rendendo estrelas necessárias para desbloquear novos capítulos. 

O jogo recompensa a lógica absurda: descobrir que uma flor cantora se transforma em um casulo ao cair na lama e depois resolve quebra-cabeças musicais é genuinamente divertido.

Uma tela em branco para o instinto infantil

A beleza e a falha de The Mysterious Book residem em sua extrema acessibilidade. O jogo foi desenhado do zero para remover qualquer traço de frustração. Não há barra de vida (Yoshi apenas é empurrado se encostar em algo perigoso), não há telas de Game Over e você é imediatamente reposicionado caso caia em um buraco.

Para crianças (ou para adultos em busca de uma experiência cozy e meditativa após um dia exaustivo), essa ausência de risco é libertadora. O jogo é uma caixa de areia que valida a imaginação. No entanto, para os jogadores mais experientes que cresceram com a profundidade mecânica de Super Mario World 2: Yoshi’s Island, a completa falta de desafios um pouco mais exigentes na plataforma pode transformar a experiência em algo tedioso em poucas horas.

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Esse tédio pode ser agravado pela repetição intrínseca do loop de jogabilidade. Embora existam dezenas de criaturas novas (e hilárias, como os anfíbios bolhas que você pode batizar livremente), os testes aos quais você as submete tendem a se reciclar. Dar uma maçã, dar uma pimenta, cuspir contra uma parede e jogar na água acabam se tornando um checklist mecânico que você repete em cada nível, diminuindo a empolgação da “descoberta” nas últimas horas da curta campanha – se apressar o desenvolvimento do jogo, ele dura umas cinco horas – o dobro disso para quem fizer 100%.

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Além disso, dada a natureza do jogo, onde o prazer está na experimentação e em mostrar suas descobertas para alguém, a ausência de um modo multiplayer local (um padrão quase obrigatório em jogos recentes do Mario e do Yoshi) é uma decisão no mínimo questionável da Good-Feel.

Espetáculo Audiovisual

O que mantém o jogador engajado, mesmo quando a jogabilidade ameaça ficar rotineira, é o trabalho impecável de direção de arte. O poder extra do Nintendo Switch 2 é utilizado não para buscar fotorrealismo, mas para dar vida a um livro de histórias esteticamente perfeito.

O jogo mistura tons pastéis, texturas de lápis de cor e aquarelas com uma taxa de quadros e iluminação que dão ao jogo uma sensação palpável de stop-motion. O design de criaturas tem toques do famoso estúdio Aardman (de Wallace & Gromit), criando reações hilárias e extremamente expressivas. Vê-las reagindo às suas interações absurdas é, sem dúvida, a melhor parte da experiência.

A música acompanha a benesse visual com temas clássicos, com melodias infantis comuns e outros estilos musicais bem tranquilos. É mesmo uma ótima porta de entrada para crianças pequenas de quatro a oito anos se aventurarem nos mundos inofensivos que a Nintendo é mestre em criar. 

Veredito

Yoshi & The Mysterious Book não é o título blockbuster definitivo (system-seller) que mostrará o poder bruto do Switch 2, tampouco tenta ser. Ele é um experimento charmoso, uma mudança corajosa de ritmo que foca mais na experimentação científica e zoológica do que em pulos milimetricamente calculados.

Se você o abordar como um jogo de plataforma clássico e exigente, a decepção é garantida. A ausência total de dificuldade e de perigo retira o senso de urgência que normalmente impulsiona esse gênero. Contudo, se você aceitar o jogo pelo que ele é — uma ferramenta interativa e sem estresse, projetada para despertar a imaginação e a alegria de ver o mundo reagir às suas escolhas —, descobrirá uma das aventuras mais reconfortantes e adoráveis do ano.

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É o jogo perfeito para jogar ao lado de uma criança, com o próprio filho, rindo juntos enquanto descobrem como interagir pacificamente a fauna de uma enciclopédia esquecida.

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