A jornada dos filmes de espionagem através dos tempos

Kingsman: O Círculo Dourado já estreou e tem como objetivo parodiar os filmes de espionagem. Hoje, é muito fácil perceber como os clichês desse gênero pegaram, resposabilidade da franquia do espião mais famoso do cinema: 007. Carros e cenários exóticos; vilões orientais querendo dominar o mundo; bugigangas; mulheres lindas, etc… Vamos deixar as coisas claras: O que Bond apresenta é uma visão fantasiosa e charmosa da espionagem. Acho mais interessante mostrar como esse gênero cresceu e como ele se adaptou durante os anos.

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Anos 40 – 50: O Mundo Contra Hitler

Tudo começa durante a Segunda Guerra Mundial, quando o mundo tinha um inimigo em comum: os nazistas. Então, o cinema começou a fazer filmes sobre os espiões de Adolf Hitler. Quem mais se destacou foi o mestre Alfred Hitchcock, que retornaria ao gênero no seu ápice nos anos 60. Durante essa época, Hitchcock fez três filmes de espionagem: 39 Degraus (1935), Correspondente Internacional (1940) e O Sabotador (1942). Nestes casos, a ideia principal era uma pessoa comum no meio de uma grande trama envolvendo espiões nazistas.

Por outro lado, existem casos de adaptações de romancistas ingleses, retratando a espionagem de outra maneira, como Graham Greene e Eric Ambler. Mesmo tendo o conflito como pano de fundo, o foco era mostrar homens comuns, mas com um estilo que lembrava muito o noir. Exemplos desse estilo: Jornada do Pavor (1942) e Quando Desceram as Trevas (1944). Mas com a morte de Hitler e o fim da Segunda Guerra, o gênero volta com tudo no período que seria o seu auge.

Anos 60 – 80: Paranoia Comunista

Se antes havia um conflito que era real, agora havia um ideológico entre Ocidente e Oriente, Capitalismo VS. Comunismo. (Sim, eu sei que se chama Guerra Fria). Nesse contexto, o espião se tornou um símbolo forte, não à toa foi quando James Bond apareceu no cinema com 007 Contra o Satânico Dr. No, em 1962. Antes disso, outro filme veio para atualizar o gênero que serviu como base dos filmes de Bond. O caso foi o clássico Intriga Internacional (1959), um dos filmes mais famosos de Hitchcock (ele de novo), que colocava o astro Gary Grant no meio de uma grande trama envolvendo espiões soviéticos. É um dos maiores sucessos da carreira do mestre do cinema.

Depois do sucesso de Intriga Internacional, era a vez do agente secreto mais famoso do cinema ter o seu grande momento. Vivido por Sean Connery, o personagem criado por Ian Fleming teve o seu grande momento durante essa época. A Bondmania estoura após o deslumbrante sucesso do terceiro filme do agente, 007 Contra Goldfinger. que se torna o primeiro da série a gerar um retorno financeiro enorme. Com o sucesso de Bond e o Oriente como inimigo, a televisão começou a ter os seus espiões como O Agente da U.N.C.L.E (que ganhou uma versão recente dirigida por Guy Richtie) e Missão: Impossível. Essas séries ainda compravam a visão fantasiosa dos filmes de Bond sobre a espionagem, com bugigangas e ação que renderam muito sucesso, porque era o que o público realmente queria ver.

Mas é importante citar que outro espião inglês fez sucesso nessa época. Criado por Len Deighton e interpretado cinco vezes por Michael Caine, sendo que três eram adaptações de livros, o personagem era Harry Palmer. Sim, o Alfred da trilogia do Cavaleiro das Trevas era um heróis de filme de ação e era conhecido como o anti-Bond. Mas por que esse era o seu apelido? Porque todos sabem que Bond atira primeiro e pergunta depois, obedecendo incondicionalmente o governo (naquela época). Palmer, no entanto, usava mais o cérebro que os músculos e era um insubordinado.

A trilogia baseava nos livros de Deighton são: Ipcress: Arquivo Confidencial (1965), Funeral em Berlim (1966) e O Cérebro de um Bilhão de Dólares (1967). Como curiosidade, Harry Saltzman, produtor dos filmes de Bond, produziu o primeiro e o terceiro filmes de Palmer, enquanto Guy Hamilton, que dirigiu vários filmes de 007, dirigiu o segundo. Agora deu para entender melhor a participação de Michael Caine no primeiro Kingsman e em Austin Powers e o O Homem com o Membro de Ouronão?

Mas, como na década de 40, havia exemplares mais sérios que focavam mais nas ideologias e, principalmente, no clima paranoico criado pelo período. Para entender melhor esse período, o próprio cinema de ficção científica traz exemplos disso, como em Vampiros de Almas (1956). Voltando ao campo dos filmes de espionagem, Sob o Domínio do Mal (1962) encarna muito bem esse contexto.

Enquanto isso, havia o autor que melhor percebeu o mundo da espionagem: o inglês John Le Carré. Ele retratou esse mundo sem bandeiras, em que você não sabe quem é o seu inimigo e o que vai acontecer em seguida. Foram adaptados durante essa época O Espião que Veio do Frio (1965), Chamada Para um Morto (1966) e A Guerra do Espelho (1970). Em 2011, foi lançado um dos melhores filmes de espionagem de todos os tempos, totalmente fiel ao estilo de Le Carré e apresentando um dos seus melhores personagens: George Smiley, vivido de maneira impecável por Gary Oldman no maravilhoso O Espião Que Sabia Demais. Outro filme que capta bem esse momento – esse já foi feito na época – é Três Dias do Condor (1975) de Sydney Pollack.

Anos 90 – Atualmente: Um Novo Inimigo

As atualizações das franquias 007 e Missão: Impossível tiveram algo em comum: a necessidade de um novo inimigo. Então, durante esse momento todos eram vilões: o governo chinês, os árabes, os russos que queriam vingança, os cartéis de drogas latinos, etc… Não à toa, foi quando as adaptações do escritor Tom Clancy com o personagem Jack Ryan apareceram. Ele tinha um forte ideal político e isso transparece em suas obras, deixando claro seu medo das ameaças modernas e suas duras criticas ao posicionamento do governo americano em determinadas situações. Ryan foi interpretado por Alec Baldwin em Caçada ao Outubro Vermelho (1990), Harrison Ford em Jogos Patrióticos (1992) e Perigo Real e Imediato (1994), Ben Affleck em A Soma de Todos os Medos (2002) e Chris Pine em Operação Sombra: Jack Ryan (2014), sendo que o ultimo não foi adaptado de um livro de Clancy.

As coisas se mostraram mais interessantes depois dos anos 2000, quando dois JBs fizeram sucesso e trouxeram inovações para o gênero: Jason Bourne, da homônima cinessérie com Matt Damon, e Jack Bauer, vivido por Kiefer Sutherland em 24 Horas. O protagonista da fabulosa série de TV chamava a atenção por seus métodos poucos ortodoxos e o retrato mais cru do contraterrorismo.  Já o personagem de Damon, por ser um agente cuja luta era mais contra o sistema, ainda seguindo um estilo mais realista. Nenhum dos dois agentes utilizava bugigangas ou algo do tipo, nem tinham que deter um vilão que iria dominar o mundo. Precisavam se virar com o que tinham e utilizar a inteligência na maioria das situações. Eles mudaram muito a cultura pop, tanto que o Bond da era Craig segue a tendência dos outros JBs.

Finalizando, outro filme que procura abordar o mundo da espionagem de hoje em dia é o Rede de Mentiras (2008), de Ridley Scott. Bem irregular, é verdade, mas o retrato deste ambiente é o ponto alto do filme. O personagem de Leonardo DiCaprio não pode confiar em ninguém e o seu chefe, um burocrata vivido por Russel Crowe, não se importa com consequências que possam prejudicar seu agente. O que o filme oferece, além do clima de paranoia e da falta de confiança? Ele mostra as dificuldades dos norte-americanos em encontrar os terroristas árabes: enquanto usam tecnologia de ponta, com satélites e tudo mais, o lado oposto volta com cartas escritas à mão. Isso foi uma grande sacada do filme de Scott, sendo, infelizmente, o único ponto bem explorado.

Enfim, faltam muitos filmes, mas espero ter deixado claro como esse subgênero dos filmes de espionagem muda muito de acordo com o contexto histórico. Sempre haverá bandeiras e ideologias e os bons filmes desse segmento não apenas fazem uma boa leitura do momento, mas são ótimos estudos de personagem e, geralmente, são bem tensos. Que venham mais filmes incríveis sobre espiões de todos os tipos!

Via: Formiga Elétrica

Link do original: http://formigaeletrica.com.br/cinema/filmes-de-espionagem/

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