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Desde que o cineasta David Yates assumiu o comando da saga Harry Potter, acrescentou a ela um toque político, sombrio e muito mais adulto do que seus antecessores. Finalizar a franquia é uma tarefa tão complexa que o último filme teve de ser dividido em duas partes – o que também duplicou os lucros exorbitantes da Warner Bros e iniciou a terrível mania de dividir adaptações literárias em dois. Todas as coisas consideradas, Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte 1 traz um pouco de tudo o que Yates foi capaz de trazer à saga durante suas incursões, aprimorado em praticamente todos os aspectos.

A trama é ambientada logo após o desfecho de O Enigma do Príncipe. Alvo Dumbledore (Michael Gambon) está morto, e as forças de Voldemort (Ralph Fiennes) vão se fortalecendo e espalhando-se pelo mundo Bruxo e Trouxa de forma avassaladora, com o Lord agora tomando posse do Ministério da Magia. Deixado com a responsabilidade de concluir a missão de seu falecido professor, Harry (Daniel Radcliffe) precisa encontrar as últimas Horcruxes remanescentes, objetos que contém pedaços da alma de Voldemort e que precisam ser destruídos para garantir o fim definitivo do bruxo das trevas. Junto com os inseparáveis Rony (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson), Potter literalmente viajará o planeta para encontrar os objetos misteriosos e garantir paz à seu mundo.

A começar pelo tom, da atmosfera cinematográfica. Dessa vez Hogwarts nem está presente na trama, o que já incomoda pela sensação de insegurança pelos três protagonistas; não mais jovens estudantes de magia, Harry, Rony e Hermione são adultos lançados em mundo perigoso sem qualquer tipo de proteção – além da magia, claro – e sobrevivendo às custas uns dos outros. Há sempre uma aura de perigo, que Yates cria a equilibra muito bem, sobrando espaço para muitos toques de humor também.

O tom obscuro é fruto do favorável roteiro de Steve Kloves, que agora com mais tempo de projeção pode dar atenção à eventos secundários e desenvolver as situações com mais suspense e emoção. Assim, é comum que tenhamos sequências aqui que não avançam necessariamente a história, mas que são importantes para criarem um atmosfera de perigo palpável; um exemplo é a visita de Harry e Hermione ao povoado de Godric’s Hollow durante uma noite de Natal, cena que poderia muito bem ser descartada de uma versão única de Relíquias da Morte, mas que enriquece tanto o longa com o sentimento de isolamento dos personagens (a cena é ambientada durante o Natal) e um clima de suspense incomparável quando a dupla se depara com uma armadilha de Voldemort.

É um filme lento, sem dúvida., ainda mais quando comparamos ao festival de pirotecnia e ação da Parte 2, mas é um ritmo devagar que realmente contribui para a experiência do espectador. A montagem de Mark Day é chave nesse quesito, já que mantém considerável tempo em determinados planos e deixa ação fluir naturalmente. Claro, isso muda quando somos jogados nas excelentes sequências de ação, sendo notável como a montagem torna-se frenética durante a selvagem perseguição em uma floresta dominada por sequestradores de Voldemort – ou como poderíamos chamar, Paul Greengrass’ Harry Potter.

A fotografia cada vez mais escura é o outro grande acerto técnico da produção. Sai o ótimo Bruno Delbonnel, entra o competente Eduardo Serra com uma paleta de cores frias, predominantemente cinza – que, claro, alterna em alguns cenários – e paisagens belíssimas de montanhas, rochedos e florestas retratadas de maneira artística, assemelhando-se com pinturas góticas. Visualmente, nunca vimos um filme de Potter como esse, ambientado muito mais em locações externas do que internas – a ausência de Hogwarts também garante isso, já que não temos mais o aconchego e conforto do castelo para segurar os personagens. Outro quesito visual importante e inédito é a inesperada sequência de animação que nos explica a história das Relíquias da Morte do título, utilizando uma técnica gótica e deslumbrante, que nos remete bastante a O Estranho Mundo de Jack.

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Mostrando-se ainda mais seguro do que nos anteriores, Yates continua impressionando cada vez mais com sua dinâmica direção. É de se admirar seu vasto leque de ferramentas narrativas, passando por seus enquadramentos, rotações (a panorâmica que revela a transformação das cópias de Potter é de uma elegância ímpar) e  pela primeira vez aqui, um uso intenso da técnica da câmera na mão. Esse recurso ganha força durante as sequências mais intensas do longa, especialmente a já comentada perseguição na floresta e a armadilha em Godric’s Hollow. A câmera digital de Yates também garante um dinanimso vibrante ao apostar em travellings impossíveis e transições literalmente mágicas em cenas como a perseguição aérea dos Comensais da Morte e a conexão priori incantatem ntre Harry e Voldemort, onde a câmera virtual acompanha o faixo de magia até uma rachadura se formar em uma das varinhas.

Depois de um amadurecimento de 8 anos e 7 filmes, o elenco acompanha e preenche bem esse cenário de trevas. Daniel Radcliffe continua o bom trabalho com Harry, acrescentando mais insegurança ao jovem e o peso cada vez maior das responsabilidades em suas costas. Emma Watson apresenta pela primeira vez uma carga dramática relevante e crível à sua Hermione, já levando a personagem a cantos sombrios quando ela é forçada a apagar sua existência da memória de seus pais, a fim de protegê-los. Mas quem é a grande revelação aqui é Rupert Grint, que finalmente transmite a angústia e o sacrifico que Rony sente em relação a ser apenas “o amigo do Eleito”, resultando em uma pesada discussão entre os dois e um arco dramático mais intenso para o jovem Weasley. E novamente, é um arco que é resolvido dentro do próprio filme e que não machucaria o caminhar da história se fosse simplesmente dissolvido, mas o espectador e os personagens só ganham mais com esses desvios dramáticos.

Apresentando-se mais do que um mero prelúdio e indo além do que apenas preparar o espectador para o último filme, Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 1 impressiona pela maturidade e a beleza visual comandada por seu diretor, que conduz a trama magistralmente até terminar em um gancho digno para a conclusão de uma das maiores sagas da História do Cinema.

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