Cinema

A Odisseia: veja o que Nolan mudou do poema original para o filme

Veja as principais mudanças que Christopher Nolan fez no poema de Homero para adaptar A Odisseia ao cinema.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
4 min de leitura

Aviso: este texto contém spoilers de A Odisseia.

Os “cortes” que Nolan fez em Homero para conseguir levar A Odisseia às telas

Adaptar um poema de quase 2.700 anos para o cinema exige escolhas duras, e Christopher Nolan não escapou delas. A Odisseia segue fiel ao espírito da obra original, mas o diretor cortou, fundiu e reescreveu trechos inteiros do texto de Homero para que a história funcionasse dentro do ritmo de um filme de pouco menos de três horas.

A piada de três mil anos que não sobreviveu à tradução

Um dos cortes mais curiosos nem chegou a ser uma questão de tempo de tela, mas de tradução. Em entrevista ao Daily Show, Nolan revelou ter tentado incluir o trocadilho mais famoso do poema original: o momento em que Ulisses se apresenta ao ciclope Polifemo como “Ninguém”, garantindo que, quando o monstro gritar por socorro, os outros ciclopes entendam que “ninguém” o está atacando e ignorem o pedido.

O problema é que o jogo de palavras só funciona em grego antigo. Segundo o diretor, a piada foi abandonada porque nenhuma versão em inglês conseguia reproduzir a mesma sutileza sem soar forçada. No filme, Ulisses ainda cega o ciclope, mas o faz de forma mais direta, sem o disfarce de identidade, disparando uma flecha extra contra a criatura em fúria, algo que também acelera a ira de Posseidon contra ele mais adiante.

Cortes feitos para não repetir a mesma cena duas vezes

Boa parte das mudanças de Nolan parece movida por uma lógica simples: evitar redundância narrativa. As flores de lótus, por exemplo, que no poema original prendem Ulisses na ilha de Calipso, no filme pertencem a um povo completamente diferente, os lotófagos do Peloponeso, enquanto Calipso usa a planta apenas para aliviar as dores do herói durante a recuperação.

Pelo mesmo motivo, o tempo que Ulisses passa com Circe, um ano inteiro no poema original, é condensado para poucos minutos de tela, já que o resgate da tripulação das mãos da feiticeira segue uma estrutura parecida com a fuga posterior da ilha de Calipso. Os feácios, povo que recebe Ulisses logo após deixar Calipso no texto de Homero, foram cortados por completo: no filme, é a própria Calipso quem ouve o relato do herói enquanto ele recupera a memória.

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A fidelidade que Nolan trocou por modernidade

Uma das alterações mais significativas é de ordem moral, não estrutural. No poema original, Ulisses se torna amante tanto de Calipso quanto de Circe durante a jornada, épocas depois retratadas até com filhos em comum entre ele e Circe, segundo a Teogonia de Hesíodo. No filme, Ulisses permanece fiel a Penélope o tempo todo, mesmo descrito como “feliz” ao lado de Calipso, cujo afeto genuíno acaba sendo o que a convence a finalmente deixá-lo partir.

A cena final também muda: o desafio da cama esculpida em um tronco de oliveira, prova final de identidade que Penélope impõe a Ulisses no poema, foi cortado. No filme, o reencontro do casal acontece logo depois da batalha contra os pretendentes, permitindo que o combate seja o clímax visual do longa, encerrando a história em um tom mais silencioso e emotivo.

Um novo fio narrativo que não existe no poema

Entre as adições originais de Nolan está o maior peso dado ao soldado Sínon, que no filme aparece como o homem que tomou o lugar de Antínoo no recrutamento para a Guerra de Troia. Esse detalhe, revelado em flashbacks, dá um significado extra ao encontro de Ulisses com o espírito de Sínon no mundo dos mortos, e explica as últimas palavras do herói a Antínoo antes de matá-lo na reta final da trama.

A Odisseia está em cartaz nos cinemas desde 17 de julho.

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