Era uma questão inevitável a começar a ser discutida, ou melhor, uma das boas discussões que o mais novo e excelentíssimo Coringa de Todd Phillips deveria estar tendo ao invés de toda sua ridícula polêmica e problematizações exageradas no qual vem tendo em sua repercussão polemica. Mas a polêmica verdadeira a ser debatida é exatamente sobre certas declarações dita como fatos sobre qual é o Coringa definitivo. O inesquecível e para sempre icônico Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas, ou sua mais nova e grandiosa encarnação dada por Joaquim Phoenix. Bom, cada década tem o melhor Coringa que merece, e se o de Jared Leto já foi aquela ofensa em Esquadrão Suicida, o de Phoenix vem como um pedido de desculpas a isso e o mais novo concorrente a ser confrontado com Ledger, sobre qual dos dois atores melhor encarnou o palhaço do crime nas telonas.

A Origem

Quando um leitor raiz de quadrinhos do Batman ouve as palavras “Origem” e “Coringa” juntas questiona a desnecessidade disso. Mesmo que tenhamos A Piada Mortal de Alan Moore como um fundo literário para isso, sempre foi um divisor de opiniões até hoje exatamente pois um dos maiores  charmes que a persona do grande vilão sempre carregou para si foi sua aparente ausência de motivos, de um passado ou origem, o que torna sua imprevisibilidade imensamente temível e perigosa. Algo que o Coringa do Ledger conseguiu capturar MUITISSIMO bem que até poupa-se palavras do porquê. Porém, uma história de origem tão emocionalmente aterradora como a contada com o Coringa de Phoenix e seu nome de nascença Arthur Fleck, que consegue capturar traços dos quadrinhos e ao mesmo tempo criar algo próprio nas inspirações que toma de filmes como Taxi Driver e Rei da Comédia, uma perfeita tragédia em forma de estudo de personagem descendo aos poucos a sua psicopatia. Que no final até te faz pensar: é, essa é uma história de origem que encaixa com o Coringa, o bastante para fazer o senhor Phoenix levar essa!

O Visual

Esse pode se resumir a uma questão de puro e simples gosto pessoal do expectador, e também casa com as diferentes personalidades do palhaço. A de Phoenix é um ar bem despojado, como se ele quisesse expressar todos seus sentimentos espalhados na sua maquiagem de palhaço grandiloqüente e chamativa. Enquanto a de Ledger é falha, quase que parece ter sido feita com raiva e as pressas (feita pelo próprio ator), salientando uma maldade instantânea e com um ar de psicopatia que só se agrava com as suas tenebrosas  e icônicas cicatrizes formando um sorriso. É muito fácil perceber quem leva essa, certo?!

A Perversidade

Como já dito, a perversidade do Coringa parte muito da imprevisibilidade do personagem, algo que Ledger consegue com facilidade exatamente por não conhecermos os seus limites de insanidade que parecem infinitos. Mas Phoenix não fica muito atrás. Muito graças ao excelente desenvolvimento de personagem que Arthur Fleck recebe, onde somos colocados a conhecer de perto seu estado mental de insanidade, suas origens psicológicas e turbulências emocionais que o tornam inesperado a cada momento de suas mudanças e evoluções características, pois nunca sabemos como ele vai reagir a cada nova patada que ele vai receber da vida, ou se vai ser ele a dar as patadas. Ainda assim, Phoenix possui a alma perfeita de um perverso Coringa em ação, mas Ledger já o é encarnado do inicio ao fim, e sempre pronto para te colocar um belo sorriso no rosto.

A motivação e impacto

Novamente volta a frente o fator imprevisibilidade, mas algo que ambos Coringas em discussão possuem em comum é seu teor de imagem política em que eles são colocados. O de Ledger é um anarquista nato, que distorce a ordem estabelecida das coisas da sociedade por puro prazer à violência, o famoso cão perseguindo um carro por razão nenhuma além do seu puro amor ao caos, e que põe Gothan inteira suando na cava por sua causa e para sempre marcados. Por outro lado, o de Phoenix é um Coringa mais “humilde” por assim dizer, suas inspirações partem de cicatrizes bem intimas que a sociedade em que vive deixou nele, e as pessoas a sua volta o destrataram friamente. O que o impulsiona a encontrar no seu lado mais violento um conforto psicótico, e que o faz buscar sua vingança contra tudo e todos que o fizeram mal. E com isso, acaba criando um verdadeiro levante social inspirando o caos em Gothan inteira, e se torna um símbolo quase que por acidente. O bastante para se tornar um empate bem justo aqui entre ambas as personas.

O Ator

Eis que chegamos a decisão polêmica, simplesmente pois não é exagero nenhum dizer que ambos os atores estão simplesmente fenomenais nas suas diferentes encarnações do icônico personagem, tanto que talvez se trate de ser as melhores atuações das carreiras de ambos Ledger e Phoenix. Pode-se dizer que Phoenix leve a maior vantagem, sendo um ator  já bem conceituado com uma ótima carreira em mãos e um futuro brilhante ainda pela frente, e ele recebeu um filme inteiro para explorar e dissecar as várias nuances que o seu personagem pediu dele e ele não desaponta em nada! Enquanto Ledger, um ator jovem que sempre foi constantemente esnobado ou pouco ajustado por seus problemas pessoais, conseguiu mostrar em Cavaleiro das Trevas sua imensidade como ator, se devotando de corpo e alma para entregar a melhor versão possível que o roteiro de Nolan pediu dele, que com relativamente poucas aparições no filme, consegue roubar todo ele para si só. Mas ei, em um mundo com dois Coringas extraordinários desse porte, porque escolher um só se podemos ficar com ambos?!