Conan O’Brien diz que obsessão por atacar Trump prejudica a comédia
Em palestra na Oxford Union, o apresentador afirmou que comediantes que trocam piadas por raiva perdem sua "melhor arma"
Uma das vozes mais respeitadas da televisão norte-americana, Conan O’Brien, lançou um olhar crítico sobre o estado atual do humor político nos Estados Unidos. Durante uma palestra de quase uma hora na prestigiada Oxford Union, na Inglaterra, o ex-apresentador de late night show argumentou que a obsessão de muitos comediantes em atacar o ex-presidente e atual figura central da política, Donald Trump, tem empobrecido a qualidade artística do material produzido.
Com mais de três décadas de carreira, O’Brien diagnosticou o que considera ser um problema estrutural para a comédia na era Trump. Segundo ele, o humor tradicional depende de uma base de normalidade para criar o contraste necessário para a piada. “A comédia precisa de uma linha reta para desviar, e não temos uma linha reta agora. Temos uma linha muito flexível e emborrachada”, analisou. Para o apresentador, a imprevisibilidade e o comportamento errático da política atual dificultam a construção da sátira clássica, deixando os roteiristas sem um “chão firme” para subverter.
O perigo da raiva como substituta do humor
O ponto mais contundente da fala de O’Brien foi direcionado aos colegas de profissão que, segundo ele, caíram na armadilha de substituir a inteligência cômica pela indignação pura. Ele descreveu o fenômeno de comediantes que sobem ao palco apenas para proferir xingamentos contra Trump como uma forma de cooptação.
“Você foi atraído. É como uma sereia levando você para as rochas. Você foi levado a apenas dizer ‘Dane-se o Trump’. E acho que agora você largou sua melhor arma, que é ser engraçado, e a trocou pela raiva”, alertou O’Brien. Para o veterano, a função primordial do comediante, independentemente da gravidade do cenário político, é fazer rir. Ele rejeitou a noção de que os tempos atuais são “sérios demais” para o humor, defendendo que a “boa arte sempre será uma arma perfeita contra o poder”, mas que essa eficácia se perde quando o artista se limita a gritar.
Polêmica no Kennedy Center e mudanças institucionais
A discussão sobre política e arte não ficou apenas no campo teórico. O’Brien abordou sua recente e controversa participação na cerimônia do Kennedy Center, onde recebeu o Prêmio Mark Twain de Humor Americano. O evento ocorreu em meio a uma reestruturação da instituição cultural, que viu Donald Trump assumir o controle do conselho, substituir a presidência executiva e, em um movimento que gerou críticas, adicionar seu próprio nome ao edifício histórico.
O apresentador revelou que enfrentou um dilema moral sobre comparecer ou não à premiação. No entanto, decidiu ir para honrar a decisão do “antigo regime” que o havia selecionado antes das mudanças administrativas. “Havia uma questão de: ‘Devo ir? Não devo ir?’ E senti que era importante aparecer”, explicou, destacando a complexidade de navegar em instituições culturais sob nova direção política.
O futuro nos palcos e no Oscar
Atualmente, Conan O’Brien vive uma fase de renovação na carreira. Longe da bancada diária da televisão, ele comanda o podcast de sucesso global Conan O’Brien Needs a Friend. Além disso, sua relevância na indústria permanece em alta: ele está confirmado para retornar como o anfitrião da cerimônia do Oscar, marcada para março deste ano. A expectativa é que, no palco mais assistido do mundo, ele coloque em prática sua tese de que o humor inteligente, e não a raiva, é a melhor resposta para tempos turbulentos.