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Crítica | A Criada

Quando romances eróticos tão soft como Cinquenta Tons de Cinza ganham o mundo a ponto de virar filme (o que, per se, não é incomum para a indústria), não se encontra nada além da reafirmação de ideias conservadoras, cafonas – já essenciais para toda a masturbação sobre castidade que é a saga Crepúsculo, fonte da trilogia Cinquenta. Infelizmente, o novo filme de Park Chan-wook, apesar de todo o reconhecimento internacional do diretor, é uma obra particular com pouca força de implosão mundial. Traz, pelo menos, o que tornou Oldboy o filme que é. Depois de algumas experiências de tom ocidental, obviamente mais em Segredos de Sangue, apesar de Sede de Sangue também emprestar alguns elementos de Émile Zola e este novo ser inspirado no romance Fingersmith, de Sarah Waters,  Chan-wook faz da enorme mansão de The Handmaiden seu onfalo.

A jovem Sooki (Kim Tae-Ri), que na verdade se chama Tamako, vai trabalhar como criada na mansão onde vivem a Srta. Hideko (Kim Min-Hie) e seu rico tio Kouzuki (Cho Jin-woong), um bibliófilo de gostos peculiares. O detalhe é que Sooki é uma ladra que está mancomunada com o falso conde Fujiwara, que é coreano, mas se assume japonês. O plano é que Sooki convença Hideko de que o conde é um bom partido para que assim ele possa roubar sua herança. Mas, essa é apenas uma das três visões, cada uma com um narrador diferente, que compõem The Handmaiden: um triângulo com a complexidade de um tetraedro.

Violência e sexo: praticamente sinônimos na obra de Park Chan-wook. Entretanto, a maneira como esses temas são retratados não aparecia desde Oldboy. Sem o pesado simbolismo de seus dois últimos filmes, o diretor consegue temperar com muito horror, volúpia e franqueza todos os fetiches figurativos e narrativos de sua história. Como o estereótipo de um empregado japonês, Chan-wook move-se com precisão, rapidez e sutileza, em suma, com classe pelos corredores, quartos e esconderijos da grande mansão. O sadismo e o fetichismo são as estrelas da vez. Kouzuki coleciona livros eróticos e monta, através de seu poder como homem da casa, sessões em que sua esposa e, depois, sua sobrinha lêem as histórias picantes de sua coleção para uma plateia. As mulheres servem, nessa ótica, como excitadoras de uma aristocracia pervertida, fascinada pela teatralidade e pela sedução da leitura e pela materialidade (desenhos de mulheres nuas que viram cigarros, a língua enegrecida de Kouzuki molhando o pincel…); além de sadomasoquista, porém, inerte em relação à de Saló ou 120 Dias de Sodoma, por exemplo.

Por outro lado, uma sexualidade muito mais real surge quando Sooki e Hideko se apaixonam. A sensualidade se manifesta pelas ações, mas essas seguem o mesmo ritmo de uma leitura, como se as palavras dos manuscritos percorressem a carne; a cena da banheira, em que a criada lixa a ponta de um dente de Hideko é tão sensual quanto as duas representações do intercurso lésbico. A câmera percorre essas situações vagarosamente, como se maneja-se um vaso frágil e preciosíssimo, dando espaço para a sugestão e potencializando o voyeur-ouvinte de cada espectador. Não fosse a elegância de Chan-wook, sua misoginia seria autodestrutiva (facilmente relacionada com a postura de Lars Von Trier). Felizmente, pela sua imprevisibilidade, nada pode ser afirmado sobre o filme até o fim do 145º minuto de sua projeção.

O romance Fingersmith, base do roteiro, se passa na era vitoriana, mas toda a direção artística conseguiu misturar com perfeição os trejeitos desse ambiente e transpô-los para Coreia da década de 30, ocupada pelos japoneses. Essa ambientação participa, inclusive, de uma discussão histórico-social. Durante o filme, os diálogos alternam entre os dois idiomas. Trata-se de uma nuance utilizada para realçar o conflito, uma mudança, as identidades voláteis, enfim, a ideia do colonizador querendo se sobressaltar. Chan-wook grita isso no terceiro ato – assim como tudo que havia ficado só na base da sugestão – através, acredite, de um bigode falso. Justifica, assim, seu argumento de que o importante, muitas vezes, não é um alguém ou o que este diz, mas o que o formou e o que está a seu redor.

Estrutural e plasticamente impecável, The Handmaiden é uma máquina de suspense e mistérios, palco de situações assombrosas, planos mirabolantes e estratagemas cultivados como pérolas que vão fazer o espectador duvidar, a partir de certo ponto, de todas as ações dos personagens. Chan-wook tem total controle e usa disso para saltar bruscamente de um momento calmo e despretensioso para algo desesperador, nem que seja por um movimento de câmera surtado e espalhafatoso, atitude tão típica da cultura japonesa como um todo. A mansão é um show à parte (sem tirar os méritos de A Colina Escarlate, mas aqui a construção funciona em todos os níveis).

Como já foi dito, Chan-wook está em casa, à vontade para explorar seus próprios fetiches, sem os ressentimentos de sua obra anterior. Os elementos são diversos e há pouco atrito entre eles. Na verdade, justamente essa abundância faz o segundo ato perder um pouco de fôlego. Mas, no final, não há qualquer ostentação desconectada dos seus personagens e da trama. Nem do polvo, um pequeno fan service para quem viu Oldboy e/ou conhece um pouco do universo erótico japonês. O novo filme de Park Chan-wook é excitante para quem não está afim de ouvir questões importantes serem debatidas com uma retórica petulante e verborrágica; e, sim, para quem quer gozar de seus sentidos, com muito mais suor e saliva do que sangue.

The Handmaiden (Ahgassi, 2016 – Coréia do Sul)
Direção: Chan-wook Park
Roteiro: Seo-Kyung Chung, Chan-wook Park (baseado na obra de Sarah Waters)
Elenco: Min-hee Kim, Kim Tae-ri, Jung-woo Ha, Jin-woong Jo, So-ri Moon, Hae-suk Kim
Gênero: Suspense, Drama, Erótico
Duração: 144 min.

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Publicado por Redação Bastidores

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