Crítica | O Justiceiro: Uma Última Morte – O Mais do triste e divertido mesmo!
O Justiceiro retorna ao MCU: veja como essa reintrodução impacta as produções da Marvel e o legado de Frank Castle.

Seguindo essa nova tradição/estratégia de “marketing via streaming” estabelecida pela Marvel Studios com essas apresentações especiais em formato de “curtas” – depois que 90% das séries do Disney+ provaram ser passivos financeiros caros demais, isso sem falar no criativamente corrompidas; a nova da vez, seguindo Lobisomem na Noite e Guardiões da Galáxia: Especial de Festas, é agora a reintrodução de Frank Castle ao MCU, depois de Demolidor: Renascido (Daredevil: Born Again) canonizar de vez a fase da Netflix como parte oficial do universo.
Só que, da mesma forma que a série revival se mostrou uma versão diet / higienizada pelos mandatos sanitizados e sensibilidades ideológicas da Marvel/Disney em comparação ao que veio antes; The Punisher: One Last Kill – ou O Justiceiro: Uma Última Morte é um caso ainda mais bagunçado pois é mais um resultado da eterna dúvida sobre como lidar com Frank Castle na mídia desde que roteiristas e chefões de estúdio ficaram com medo de ofender “as pessoas erradas” simplesmente por retratar a natureza do personagem de forma honesta.
E isso já vem desde sua fase Netflix, onde ele teve uma introdução absurda de boa na 2ª Temporada de Demolidor – no que considero a representação definitiva do personagem em live-action exatamente como ele sempre deveria ter sido: um psicopata frio, metódico, com P maiúsculo, carregando um código moral extremamente problemático; só pra logo em seguida ganhar duas temporadas própria série absolutamente sonolenta, tentando corrigir via politicamente correto seu vigilantismo através de um dramalhão arrastado e hesitante.
Aí agora, assim como deram uma nova chance ao elenco inteiro de Demolidor, a versão de Jon Bernthal ganha sua própria entrada especial no MCU… basicamente fazendo quase exatamente a mesma coisa que ele passou duas temporadas inteiras fazendo:
– desistir de ser o Justiceiro depois que sua vingança foi concluída;
– entrar em crise existencial e duvidar de si mesmo;
– afundar na bebida e no trauma;
– ficar sentado, melancólico e apreensivo sobre voltar à ativa.

Agora com o adicional de fantasmas e rostos do passado – e do presente – o atormentando/julgando através de pensamentos intrusivos e culpa própria. Enquanto a desculpa do fiapo de narrativa gira em torno de tentar explorar psicologicamente o que molda sua moral e código de conduta. Tudo reduzido a 43 minutos com cara total de episódio piloto ou “teste de audiência” disfarçado, deixando a porta completamente aberta para isso através da nova vilã Ma Gnucci, interpretada por Judith Light, que sai viva no final depois de lançar um bairro inteiro de criminosos em cima do Frank como vingança por sua família – os últimos responsáveis pela morte da família Castle.
Mas se alguém parar pra pensar direito… One Last Kill é basicamente uma versão mais longa e mais cara de Dirty Laundry – aquele curta de dez minutos do Justiceiro de 2012 estrelado por Thomas Jane fazendo praticamente a mesma coisa que One Last Kill faz, só que mais simples e com bem menos paranoia política. É feio, desagradável – exatamente o que esse personagem sempre precisou ser. Algo que até as adaptações live-action anteriores, de Dolph Lundgren em O Justiceiro (1989) até O Justiceiro: Em Zona de Guerra com Ray Stevenson entendiam; enquanto a versão do Bernthal parece constantemente com medo de dar o próximo passo rumo à verdadeira catarse sangrenta sem antes se preocupar em “passar a mensagem errada”.
O que é uma pena, porque o próprio Jon Bernthal parecia empolgadíssimo promovendo isso aqui, prometendo algo “sem limites” e “visceral”, que levaria o personagem pra lugares onde ele nunca tinha ido antes. E não… isso aqui é exatamente o mesmo procedimento Bernthal de sempre com o personagem: ele bêbado, sofrendo internamente e ocasionalmente explodindo isso numa chacina brutal contra capangas – espero que pela última vez; e ele continua ótimo nesse modus operandi, mas depois de quase 10 anos repetindo esse mesmo vai-e-volta, alguém precisa encontrar um rumo novo pra esse personagem.
O que eu imagino que essa produção ache que o faça, ao resumir tudo à ideia de que Frank, pra finalmente abraçar sua natureza vingativa, precisa simbolicamente pedir permissão aos pobres marginalizados de Nova York – quase literalmente. A chefia da Marvel simplesmente não consegue resistir a esse verniz de politicamente correto. E não existe prova maior da higienização do que literalmente deixar Frank vestir o uniforme com a caveira só nos três minutos finais pra criar hype. A segunda temporada da série Netflix do Justiceiro praticamente termina do mesmo jeito, e mesmo sendo frustrante em vários níveis, aquilo ao menos parecia mais “badass” por princípio.

Ainda assim, você não vai me pegar dizendo que isso aqui não é melhor que aquela série, porque honestamente o é – ainda que isso não seja exatamente uma barra muito alta pra superar. Talvez porque ele pegue os mesmos tropos emocionais esperados e vá direto ao ponto, vestindo essa realidade urbana feia e decadente próximo a um pesadelo febril, enquanto Frank caminha por ela em tormento interno, com inocentes sofrendo pela sua ausência. E lá pelos 17 minutos, depois de muito tempo morto arrastado, e quando a Ma Gnucci da Judith Light entra em cena impondo a ameaça central com bastante presença, o especial finalmente entrega o que interessa: uns bons 20 minutos de carnificina estilo The Raid dentro de um prédio de favela, com Frank fazendo exatamente o que todo mundo quer ver ele fazer: despachar vagabundos de maneiras violentas.
Talvez limpo demais para o Justiceiro ideal, mas ainda assim adequadamente sangrento e com uma encenação/coreografia visual decente e funcional pra uma sequência de massacre que vai ficando mais sádica a cada minuto até o final. Mesmo que boa parte disso pareça ter sido dirigida pela mesma segunda unidade responsável pela segunda temporada de Demolidor: Renascido – e provavelmente foi.
Agora resta torcer pra não vermos o Justiceiro usando bala de borracha em modo PG-13 no inevitável crossover com o Homem Aranha de Tom Holland em seu vindouro filme… e talvez rezar pra que um dia tenham coragem de realmente ultrapassar os limites seguros com esse personagem. Justiça e Punição não são a mesma coisa – algo que até o (verdadeiro) Frank Castle sabe!