Depois de um tempo assistindo aos vários filmes dos monstros da Toho, e principalmente os de Godzilla, você começa a naturalmente enxergar o quanto esses filmes se tornaram para o seu diretor recorrente Ishirô Honda não só meros filmes de monstros gigantes contra monstros gigantes, mas sim filmes que quase criaram em si um subgênero próprio com todas suas marcas próprias, onde seu diretor à cada filme veio a explorar um gênero de filme diferente em suas desventuras imaginativas nesse universo de monstros.

Em King Kong vs Godzilla tínhamos um filme de aventura e exploração; em Mothra vs Godzilla vimos um conto de ganância da ciência tomando conta da pureza da natureza e destituindo futuras gerações; Ghidorah: O Monstro Tricéfalo foi, entre muitas coisas bizarras, um thriller policial misturado com uma pitada de Vampiros de Almas; e agora em A Guerra dos Monstros (ou Invasion of Astro Monster) é totalmente um filme de invasão alienígena estrelando o Godzilla e seus amigos, o que não é nada ruim quanto possa parecer.

A trama se inicia quando estranhas ondas de rádio são captadas por uma nave da terra comandada pelos astronautas Glenn Amer e K. Fuji, que descobrem vir de um inexplorado planeta, Planeta X, escondido perto de Júpiter. Após terem contato com seus habitantes cientistas que revelam sofrer uma grande ameaça do monstro Ghidorah. Então ambos os tripulantes e a Terra se comprometem na ajuda desse problema, enviando com auxílio das naves do Planeta X ambos Godzilla e Rodan para derrotarem Ghidorah. Mas não demora muito para os alienígenas revelarem seu cruel plano de invasão contra a Terra, liderando os três grandes monstros juntos.

Novamente a franquia alcançando um novo nível de criatividade estapafúrdia em conseguir escrever uma premissa com esses elementos sci-fi para o que deveria ser apenas um filme de monstros gigantes, e que por algum novo milagre eles conseguem fazer funcionar. Até ouso dizer em ser um filme bem mais interessante e divertido que o seu antecessor, Ghidorah: O Monstro Tricéfalo. Onde mesmo que a trama continue estúpida e equivocada, mas traz algo de fresco e até melhor estruturado do que o filme Vingadores de Godzilla que conseguia ser uma bagunça que atirava para todos os lados, mesmo que conseguisse entreter.

Enquanto nesse não só temos uma narrativa mais simplista e que vai direto ao ponto (alienígenas tramando a invasão da terra com o auxílio de seus monstros? Não é difícil!), como também temos personagens ligeiramente carismáticos e que todos parecem cumprir um papel de importância na trama. Embora que quando o filme tente nos convencer de que o que o personagem americano de Glenn (Nick Adams) está falando em seu perfeito inglês ianque nativo ao lado de todo o elenco nipônico, e todos estão se compreendendo e falando a mesma língua, fica até risível e novamente quase cruzando a linha da auto paródia.

Sacrifícios de se querer trazer o público estadunidense para o seu filme, mas pelo menos o ator consegue ter um pingo mínimo de carisma para tornar o filme assistivel, e Adams consegue ser um dos responsáveis pelo humor situacional do filme ao reconhecer a grande idiotice que a trama pode parecer e está se divertindo nela, se é que ele está mesmo compreendendo 50% de tudo que está sendo falado.

Ninguém pode culpar uma franquia querendo se inovar para impedir um possível e inevitável desgaste com o tempo, mesmo que soe completamente idiota. Por isso que essa mudança e mistura de gêneros à cada filme, mesmo que não convença ou funcione em execução, consegue divertir pela tentativa tão inocente e criativa de seus realizadores o assim fazer. Onde até recorrer em trazer uma dose de drama para os personagens dos monstros entrou na lista de prioridade e esse filme o fez sem vergonha alguma.

Afinal aonde mais no cinema você verá o incrível feito de um filme do Godzilla fazer de sua cena genuinamente triste e emocionante do filme envolver o abandono dos monstros pelos humanos. Quando a tripulação de Glenn e Fuji deixam o Planeta X abandonando Rodan e Godzilla para trás, enquanto a câmera se afasta devagar pra cima se afastando do planeta e dos gigantes acenando no silêncio de sua tristeza. Ridículo? Com certeza. Eficaz? Não é que sim?!

O que nos leva para o grande responsável de tudo isso, que sempre é o caso em todos esses filmes, onde é na direção de Ishirô Honda que toda a real qualidade do filme é construída, realizando tudo que o público veio para ver. Seja na sua criatividade visual sempre presente na criação desses momentos, e aproveitando para exercitar sua manha para a ficção-científica ao fazer boas referências à clássicos como Planeta Proibido de Fred McLeod Wilcox na estética futurista do povo do Planeta X que parecem um exército de Homens de Lata do mal.

Enquanto nas lutas gigantescas dos monstros, vocês sabem que não vão se decepcionar. Com esse sendo talvez o filme do Godzilla com as destruições mais épicas da franquia até então. Onde destruição massiva das miniaturas só melhoram de sabor a cada filme, se tornando não só mais foto realistas como também despertam aquele sentimento catártico de ver os pés de Godzilla pisoteando casas inteiras e os raios de Ghidorah deixando um trilho de explosões por onde passa.

Já no embate entre monstros, a saborosa cereja no bolo desses filmes, vemos Haruo Nakajima, o ator dublê do Godzilla, talvez entregando sua melhor performance como o icônico monstro dentre todos os filmes. Como se ele estivesse cansado de só andar, mexer a cabeça e grunhir e decide que quer dar uma personalidade para o Godzilla. Não só em sendo um verdadeiro brucutu que dá chutes no ar se joga dando uma barrigada em Ghidorah como se fosse um Bruce Lee gordinho, e ainda dá pulinhos fazendo uma dancinha de vitória após derrotar Ghidorah em seu primeiro confronto no filme.

Embora tenha sido bem mais divertido, e assustador, ver os três juntos dizimando a terra por onde passam como se fossem o trio do caos, só para depois os três literalmente desmaiarem quando o controle dos aliens é interrompido, antes de acordarem para uma porradaria final só pra dizer que teve uma luta de monstros vs monstros. Pelo menos a câmera de Honda, novamente, mostra de forma muito eficiente a imensa escala com que esses embatem acontecem, e aproveitando os cenários bem mais realistas seja no deserto do Planeta X ou na Terra, a destruição é palpável e a diversão é garantida.

E diversão é exatamente o que esse capítulo da franquia Godzilla buscou fazer e definitivamente entregou mesmo dentro de suas inevitáveis familiaridades, mas os seus aliens homens de lata controlando nossos icônicos três monstros já são um frescor o suficiente para ainda nos deixar minimamente interessados no Godzilla e seu universo. Que no final já nos deixa questionando novamente, qual a ideia biruta que eles vão inventar para o próximo filme?!

A Guerra dos Monstros (Kaijû daisensô — Japão, 1965)
Direção: Ishirô Honda
Roteiro: Shin’ichi Sekizawa
Elenco: Nick Adams, Akira Takarada, Jun Tazaki, Akira Kubo, Kumi Mizuno, Keiko Sawai, Yoshio Tsuchiya, Takamaru Sasaki, Gen Shimizu, Kenzô Tabu, Yoshifumi Tajima, Nadao Kirino, Kôji Uno, Tôru Ibuki, Kazuo Suzuki, Haruo Nakajima
Duração: 94 min.