John Cassavetes é marcado como um cineasta de experiências extremas para o espectador: ou se ama seu estilo desgarrado, ou se odeia. Por enquanto, tendo assistido apenas Sombras e A Morte de um Bookmaker Chinês, simplesmente não consegui me conectar com seus filmes e também pela sua assinatura cinematográfica importantíssima que favoreceu muito a germinação do cinema independente americano.

A Morte de um Bookmaker Chinês talvez seja o filme mais esquisito de Cassavetes, pois a marca registrada improviso está presente aqui, apesar da exigência de uma história mais firme para potencializar as mensagens poéticas que o diretor pretende transmitir. No caso, conferi a versão original de 135 minutos – certamente a mais problemática, já que o próprio diretor e grande parte do elenco preferiam o corte reduzido de 109 minutos.

Privação dos Sonhos

Cassavetes procura mostrar a morte dos sonhos e desilusão da cidade grande com a história do canastrão Cosmo Vittelli (Ben Gazzara no melhor momento de sua carreira), um proprietário de um clube decadente de strip tease. Em uma rotina fixa de gastos exorbitantes para impressionar as garotas que trabalham em seu clube, Cosmo acaba apostando o que não possui em uma casa de apostas controlada por uma pequena e perigosa máfia.

Perdendo muito dinheiro e ficando refém dos mafiosos, Cosmo é obrigado a realizar um serviço indesejável para diminuir sua dívida: matar um suspeito chinês conhecido pela autoria de alguns livros. Porém, logo Cosmo descobre que está em uma enrascada muito maior do que pensava por conta desse chinês ser um figurão do crime.

O problema é que até o filme começar de fato, já atingimos uma hora de exibição – um problema similar ao que Brian De Palma desempenhou em Dublê de Corpo. Claro, não há problema em uma abordagem mais lenta para a ficção, porém é preciso oferecer algo mais concreto para o espectador. Assim como Sombras tinha problemas por conta do improviso, o mesmo acontece em A Morte de um Bookie Chinês já que existem muitas sequências aparentemente vazias ou irrelevantes.

Como isso vai variar dependendo do gosto pessoal do espectador, é um jogo que evoca o “ame ou odeie” de Cassavetes, porém realmente não há uso narrativo algum que colaborem nessas sequências. O diretor apresenta os bizarros números artísticos que as strippers e um mestre de cerimônias exibem ao público que, estranhamente, aprecia as performances que raramente revelam as zonas erógenas das belas garotas.

É uma pequena ironia poética que o cineasta apresenta para nós reforçando a mensagem do longa que é possível fazer arte até nos lugares mais decadentes e improváveis, apesar disso ser totalmente idealizado, pois qualquer um que fosse a um clube de strip tease e experimentasse as performances que Cassavetes exibe, raramente retornaria.

São diversos minutos que o diretor desperdiça com os números artísticos pouco interessantes, além do ritmo sonolento perpetrado pelas conversas sem sentido que Cosmo troca com suas garotas ou com os empregados da boate. Como a maioria dessas cenas são redundantes, o protagonista e os coadjuvantes viram personagens de uma nota só, totalmente superficiais e contraditórios em suas ações, além das relações entre eles nunca ficarem muito claras.

Apenas temos a certeza que Cosmo é totalmente apaixonado pelo seu clube decadente, é um canastrão e se envolve com muitas enrascadas financeiras que resultam em verdadeiras tragédias. A parte da máfia também não engaja muito, além da cena do tal assassinato do título do filme ser bastante genérica e pouco imaginativa. As coisas pioram em excesso quando Cassavetes decide realizar um duelo final entre Cosmo e um capanga em um imenso galpão, fazendo um pequeno jogo de perseguição que dura quase dez minutos entediantes.

Chegando aos minutos finais, o longa melhora e se torna mais interessante levando ao máximo a obsessão de Cosmo por seu clube, além de deixar explícito o tom depressivo dos artistas fracassados que almejam o melhor para suas vidas mesmo estando presos em lugares terríveis nos quais nunca receberão o reconhecimento que almejam. Cassavetes é particularmente genial ao fechar o filme com o Sr. Sofisticação cantando desafinadamente sozinho no palco até ser interrompido por uma stripper que incendeia, literalmente, seus cabelos para acabar com a cena deprimente.

Mas esses poucos momentos de prazer que o diretor oferece não compensam o ritmo insosso do longa, além do improviso ter chegado, enfim, na técnica. Cassavetes simplesmente trabalha de modo horroroso com a câmera em A Morte de um Bookie Chinês. A estética do longa lembra o cenário depressivo de Taxi Driver, mas é realizada tão porcamente que simplesmente transmite uma atmosfera desleixada.

Isso não acontece somente pelo pavoroso trabalho de câmera totalmente instável e dos enquadramentos porcamente elaborados variando entre os closes extremamente próximos para planos afastados mal iluminados, aliás esse é justamente o ponto mais decadente do filme: a fotografia. Não temos somente cenas totalmente escuras por falta de iluminação, mas outras fora de foco, além de muitas das cenas da boate receberem luzes coloridas muito fortes que estouram completamente a exposição.

Embora a estética seja verdadeiramente tenebrosa colaborando ainda mais para o espectador desgostar do trabalho de Cassavetes, seria injusto não apontar umas boas características de sua direção como o rendimento com o ator principal, Ben Gazzara, e do ar burlesco teatral conferido com competência nos números “musicais” da boate, além do jogo imagético formidável com os espelhos no camarim. Também é muito interessante o fato da câmera ser tão colada no protagonista por boa parte do longa, assumindo um grau de realismo notável.

Ame ou Deixe

Cassavetes não é um cineasta fácil e seu estilo tem o poder de afetar espectador já dispostos ao estilo mais caótico do diretor apresentado em A Morte de um Bookmaker Chinês. É bem possível achar tudo que critiquei algo absolutamente genial, mas na opinião de quem vos escreve, Cassavetes apenas conseguiu realizar um exercício estupidamente longo e monótono para um fiapo narrativo que não consegue se salvar também por conta da estética desleixada. Há sim beleza no trash burlesco, mas aqui simplesmente há muito para a maioria dos espectadores.

A Morte de um Bookmaker Chinês (The Killing of a Chinese Bookie, EUA – 1976)

Direção: John Cassavetes
Roteiro: John Cassavetes
Elenco: Ben Gazzara, Thimothy Carey, Seymour Cassel, Azizi Johari, Robert Phillips, Alice Friedland, Maede Roberts
Gênero: Crime, Drama
Duração: 135 minutos