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Uma das melhores coisas que o Cinema como a forma de Arte que é – tem a oferecer é a capacidade de gerar empatia. Em vez de repelir e estranhar aquilo que lhe é diferente, o espectador deve ao menos tentar enxergar o mundo a partir do ponto de vista do outro, o que é uma dádiva frequentemente estimulada por obras das mais variadas (Projeto Flórida leva o público a se sentir ao lado daquelas crianças que vivem na sombra dos parques da Disney; Corra! resume em duas horas como o racismo social e institucional reverbera ao longo de séculos; Antes o Tempo Não Acabava mostra como a cultura indígena encara a homossexualidade; Era o Hotel Cambridge acompanha de perto o cotidiano de um grupo miserável que ocupa um prédio a fim de reivindicar seus direitos; mãe! faz o espectador se sentir na pele de ninguém menos que a própria Natureza; e por aí vai).

A empatia é, pelo visto, uma prioridade nos projetos de Affonso Uchoa: em 2014, quando dirigiu o ótimo A Vizinhança do Tigre, o cineasta demonstrou uma humanidade tocante ao enfocar o dia-a-dia dos garotos que vivem na periferia de Contagem, revelando o equilíbrio que os moradores buscam entre a sobrevivência e a alegria ocasional. Agora, Uchoa une seus esforços aos de João Dumans em Arábia, uma história que surpreende ao basicamente elevar o trabalhador comum a um status grandioso.

Roteirizado também por Uchoa e Dumans, o filme se passa na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais, e começa com o jovem André encontrando o diário de Cristiano, um operário metalúrgico que há anos morreu num acidente. A partir daí, o roteiro se lança nas memórias do trabalhador e narra sua trajetória, que inclui uma série praticamente ininterrupta de dificuldades e tentativas de encontrar um caminho. Ao longo de Arábia, acompanhamos Cristiano desde sua prisão até o emprego de metalúrgico, passando pelos lugares que visitou, pelas pessoas que conheceu e pelas várias funções que executou (como garçom, ajudante de obras e vendedor de tangerinas).

Como já dá para perceber, este não é um filme que conta especificamente com uma trama, servindo mais como uma observação entorno de uma persona – que, por sua vez, acaba refletindo as condições sociais e econômicas de boa parte do Brasil (como discutirei mais à frente). Aliás, a estrutura de Arábia como um todo é surpreendentemente ambiciosa: sim, o simples fato de não contar uma história com início, meio e fim convencionais já é algo notável, mas mais interessante é constatar como o roteiro de Uchoa e Dumans conduz o espectador num caminho para então levá-lo a outro completamente diferente. Se os primeiros 20 minutos se concentram nos moradores de Ouro Preto e na cidade em si (acostumando o público à ideia de que este será o foco do filme), logo saltamos para o passado de Cristiano e nele permanecemos até o término da projeção, o que dificulta ainda mais a identificação dos clássicos três atos.

Diga-se de passagem, enquanto assistia a este prólogo, confesso que senti certa insegurança quanto ao rumo que o longa tomaria: a maneira como Uchoa e Dumans alternava entre os personagens me soou um pouco confusa e desordenada, o ritmo estava mais lento que o necessário e não parecia haver foco temático/narrativo algum. A partir do instante em que ocorre a transição que leva o espectador do presente ao passado, porém, senti-me grato por ter acompanhado aqueles minutos iniciais, já que estes ganharam um sentido inesperado quando Cristiano assumiu a função de centro da história. Ter passado um tempinho (re)visitando Ouro Preto e conhecendo seus atuais cidadãos me fez perceber com mais ênfase como aquele lugar é significativo para o protagonista, o que acaba conferindo um caráter curiosamente mítico à cidade – e isto, acreditem, não é coincidência, pois a própria trajetória de Cristiano é também contada sob uma ótica quase épica.

O fato do filme se chamar Arábia, por sinal, é detalhe que sutilmente diz muito sobre a história e a personalidade do protagonista, que trabalhou para um homem identificado somente como “árabe” e influente em boa parte daquela área (é compreensível, portanto, que Cristiano encare Ouro Preto como uma “Arábia”). A aura que existe nos lugares em que o herói caminha é apropriadamente representada pela fotografia de Leonardo Feliciano, que aproveita muitíssimo bem as paisagens áridas do interior mineiro e praticamente põe o espectador no meio daquela região. Para completar, se as ótimas canções complementam bem o que os personagens estão sentindo e vivenciando, a montagem de Rodrigo Lima e Luiz Pretti transforma o longa numa experiência contemplativa e cautelosa sem abusar da paciência do público (um mérito que também deve ser creditado à dupla de diretores).

Realizado com carinho e apego por Uchoa e Dumans, Arábia é uma experiência tocante, sensível e que constantemente faz espectador se sentir um companheiro de Cristiano, o que comprova de uma vez por todas que o objetivo principal da obra – a empatia – foi devidamente alcançado. Se A Vizinhança do Tigre mostrava de forma densa e palpável o cotidiano dos meninos que moram na periferia, este novo longa convida o público a enxergar o mundo de acordo com o ponto de vista dos trabalhadores comuns, que carregam infinitas dificuldades, sofrem por estarem numa condição de vida marginalizada e tendem a encarar a realidade de uma maneira obviamente influenciada por isto. Assim, quando dois sujeitos surgem conversando sobre o ato de carregar batatas, é difícil não sentir uma vontade de se juntar à dupla e entrar no bate-papo – o que não significa, por outro lado, que os empecilhos enfrentados pelos personagens sejam suavizados ou que deixem de servir como um comentário social imprescindível.

O que finalmente nos traz a Cristiano, ninguém menos que o “coração” de Arábia – e aqui entra o que talvez seja a ideia mais bela, admirável e respeitosa que Uchoa e Dumans tiveram neste projeto: elevar a história trivial e mundana do protagonista a um status quase mítico, conferindo contornos grandiosos ao trabalhador explorado que sofre no interior de Minas Gerais (afinal, um jovem encontra um diário como se este fosse um objeto de culto ou um documento histórico, passando a ler o que Cristiano escreveu e adquirindo os ensinamentos transmitidos pelo autor com base em sua vida comum). A performance de Aristides de Sousa é fundamental para que o herói convença e conquiste o espectador, funcionando especialmente graças à capacidade que o ator tem de imprimir simplicidade, perseverança e até um pouco de inocência ao personagem através de gestos sutis.

Trata-se de um indivíduo que, além de ter sido preso em dado momento, foi concebido numa estrutura frágil e viveu sem ter recebido as oportunidades que precisava e/ou merecia. Além disso, o herói (e sinto-me à vontade para chamá-lo assim, já que o próprio filme o coloca neste tipo de posição) foi explorado do início ao fim, recebendo miséria (ou nada) pelos trabalhos que prestou e sendo imediatamente descartado em seguida. É gratificante, porém, que o amor tenha ocorrido em sua vida, soando quase como uma pequena compensação – o que não anestesia o peso do que veio antes e depois. O mais doloroso, no entanto, é saber que, ao contrário dos que já nasceram e cresceram entre os privilegiados, Cristiano nunca teve a menor chance de se sobressair.

No fim, o novo trabalho de Affonso Uchoa e João Dumans fala sobre isto: saber se colocar no lugar do outro e tentar compreender uma visão de mundo diferente. Há, inclusive, uma frase do grande crítico Roger Ebert que se encaixa perfeitamente aqui: O Cinema é, dentre todas as Artes, aquela que tem o maior poder de empatia  e bons filmes nos tornam seres humanos melhores“.

Antes de ser o retrato incisivo e respeitoso de uma vidaArábia é também um representante do bom Cinema. É nessas horas que agradeço à Arte por existir e por seguir promovendo a empatia que tanto falta ao mundo real.

Arábia (Idem, Brasil – 2017)

Direção: Affonso Uchoa, João Dumans
Roteiro: Affonso Uchoa, João Dumans
Elenco: Aristides de Sousa, Murilo Caliari, Gláucia Vandeveld,  Renata Cabral, Renan Rovida

Gênero: Drama
Duração: 97 min

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