Muitas comédias americanas, em alguns momentos, têm um lapso de criatividade e conseguem sair da mesmice que estamos acostumados a presenciar em suas produções cinematográficas. Filmes como Dois Caras Legais (Shane Black) e Fora de Série (Olivia Wilde) são exemplos de como com um bom roteiro arrojado faz com que piadas e situações bem trabalhadas prendam a atenção do telespectador e ainda causem riso em conseqüência aos acontecimentos, algo que certamente As Trapaceiras (Chris Addison) não alcança.

Anne Hathaway (O Diabo Veste Prada) e Rebel Wilson (A Escolha Perfeita 3) são duas trapaceiras profissionais que vivem de golpes. A personagem de Anne Hathaway é uma ricaça que tem um esquema sofisticado de golpes, enquanto a personagem de Rebel Wilson vive como se não houvesse amanhã, apenas aplicando golpes por diversão. Obviamente que o roteiro dá um jeito de fazer com que as duas se encontrem e possam, a partir de então, se juntar em uma aposta para enganar um empresário do Vale do Silício e em consequência ganhar uma bolada.

O roteiro peca por ter uma estrutura narrativa bastante óbvia e nada original. Ao conceber o encontro das duas trapaceiras fica nítido que elas irão meio que rivalizar para saber qual a melhor trambiqueira do pedaço e essa obviedade mata muito das surpresas que poderiam ser mais bem exploradas. Um exemplo fica em relação a mencionada aposta para passar a perna no empresário, é algo tão subaproveitado e construído que o resultado é pífio em criar alguma reação em quem assiste. Há também um grande problema em não ter um vilão designado para fazer com que a trama vá para a frente com situações criadas ao seu redor. Longas como Meu Ex É um Espião e O Espião que Sabia de Menos são exemplos de como um vilão faz com que uma história fique muito mais interessante. 

Para piorar está o fato das piadas serem péssimas e quando há, em alguns momentos, uma chance delas serem engraçadas acabam por ser desconstruídas com seu mal aproveitamento sendo feito pelas personagens. Sempre que alguma piada parecia tomar um caminho relevante que seria possivelmente o de criar uma boa narrativa para se fazer rir, as protagonistas acabavam por tropeçar e ao final a piada perdia a graça, ou pela situação ser mal trabalhada ou pelo fato de as piadas simplesmente não terem graça. Outro ponto fraco está nos diálogos de baixo rendimento, que não ajudam em desenvolver a trama, são apenas frases jogadas com algumas tiradas, mas sem função alguma.

Algo que ajuda bastante na total falta de graça do longa está na péssima química entre a dupla de trapaceiras. Não há uma relação competente entre as duas, mesmo não sendo amigas, as personagens acabam por não parecer sinceras no que estão sentindo e isso passa muito pela interpretação das duas atrizes. Rebel Wilson está na sua zona de conforto, interpretando praticamente a mesma protagonista de longas passados e sempre forçando para tentar tirar risos da platéia, enquanto Anne Hathaway se esforça em ser uma ricaça que só pensa em si própria, mas desliza quando aparece em cena com Rebel para discutir algo mais significativo.

As Trapaceiras falha justamente em criar uma abordagem mais sóbria e intrigante da narrativa e que passa muito pela não criação de algum mistério, que possivelmente ajudaria a deixar o filme mais atraente e com alguma motivação mais relevante para as personagens. Não é a primeira vez que uma dupla interessante se sai tão mal em uma produção, e provavelmente não será a última. Havia potencial na história, ainda mais por ser um tema tão explorado em diversas produções hollywoodianas, mas pede-se que o diretor tenha pelo menos um bom senso ao explorar esse universo das trapaças, coisa que Chris Addison (Doctor Who) não teve.

As Trapaceiras (The Hustle, EUA – 2019)

Direção: Chris Addison
Roteiro: Stanley Shapiro, Paul Henning, Dale, Launer, Jac Schaeffer
Elenco: Rebel Wilson, Anne Hathaway, Alex Sharp, Dean Norris, Emma Davies, Ingrid Oliver
Gênero: Comédia, Crime
Duração: 93 min