Quarenta anos após o lançamento do livro de Agatha Christie, uma grande produção foi feita. Não diria uma grande produção, mas um evento cinematográfico pelas escolhas feitas para fazer essa adaptação de Assassinato no Expresso do Oriente. Para o roteiro foi escolhido Paul Dehn, conhecido por escrever tramas de mistérios e reviravoltas como adaptações de John Le Carré e o clássico 007 Contra Goldfinger. Já para a direção, o escolhido foi o excepcional Sidney Lumet, que já era um diretor renomado por obras como 12 Homens e Uma Sentença e Serpico. Com um elenco magistral, liderado pelo brilhante Albert Finney essa versão da história de Christie mostra qualidades técnicas sublimes e um cuidado enorme na condução do mistério.

A história é a que todos sabem: o detetive belga de fama internacional, Hercule Poirot (Finney), tem que resolver um misterioso crime que aconteceu em um vagão do luxuoso Expresso do Oriente. Um homem chamado Ratchett (Richard Widmark) foi misteriosamente assassinado durante a noite e aparentemente todos os passageiros que estão no vagão tem uma razão para querer esse homem morto. Mas o detetive vai descobrir que não é algo tão simples quanto ele pensa.

O primeiro ponto que merece destaque no longa é o cuidado visual. Lumet não era um diretor que tinha um estilo específico, como ele mesmo dizia. Ele se adaptava  ao estilo que o filme pedia para ele, no caso desse não é difícil perceber que parte de sua influência vem de Alfred Hitchcock, principalmente por esse cuidado visual. Além da elegância dos planos e da composição de quadro – já que Lumet vinha da escola clássica de cinema – há um cuidado muito grande da luz e das cores. A fotografia assinada por Geofrey Unsworth – que já havia presenteado a humanidade com 2001: Uma Odisseia no Espaço e Superman: O Filme – sempre deixa algum elemento que consegue deixar a atmosfera misteriosa, porém nunca sufocante. São pequenos detalhes como a fumaça do trem, as luzes do vagão ou o branco estourado no plano de fundo quando o trem para na Iugoslávia para mostrar a neve. São elementos que acabam deixando a mise en scene mais rica.

Mas o principal fator para esse cuidado visual, além da fotografia inteligente de Unsworth está no belíssimo design de produção e nos figurinos, ambos assinados por Tony Walton. Além de ter uma reconstituição de época magnífica – o trem é lindo em cada detalhe – o conceito visual dos personagens é impressionante. Como são doze personagens com características fortes, o cuidado na própria concepção os deixam mais fáceis para que o expectador entenda a diferença entre eles. Vão desde a elegância do coronel vivido por Sean Connery ao bigode exótico de Poirot. Aliás, o uso das cores dos figurinos ajudam a dizer um pouco sobre a natureza dos personagens, como o da Princesa Natalia (Wendy Hiller) que sempre está vestida com esmero, mas parece que está em um funeral por quase sempre usar preto. Ou mesmo Harriet (Lauren Bacall) que usa uma roupa bege que diz sobre a sua natureza explosiva, mas que superficialmente é calma. É um trabalho muito inteligente.

Já que mencionei alguns nomes de peso como Finney, Connery, Bacall e Hiller é preciso falar de como o elenco desse filme é bem escolhido e só com nomes poderosos. Temos Anthony Perkins, Jacqueline Bisset, Ingrid Bergman (Que ganhou o Oscar de Atriz Coadjuvante por seu papel), Jean-Pierre Cassel e Vanessa Redgrave. Quando se tem um elenco desse poder, o diretor tem que ter um domínio sobre ele para que todos funcionem, tenham química e cada um faça o seu papel, evitando que aja um jogo de egos para ver quem rouba a cena.

Em Assassinato no Expresso do Oriente todos fazem muito bem o seu papel, com destaque ao maravilhoso Albert Finney. Poirot é um personagem muito excêntrico que pode se tornar caricato, pois anda em uma linha tênue entre o cômico que não pode ser levado a sério como o herói e um detetive excepcional. A composição de Finney com o sotaque francês carregado e a voz fanha, mas que mostra um olhar atento e observador deixa claro que mesmo o personagem tendo tiques característicos e até algumas frescuras é uma pessoa observadora e muito inteligente. E para conseguir seguir nessa linda é preciso ser um ator disciplinado e técnico como é o caso de Finney.

Bom, se tudo foi elogios a parte técnica do filme até o momento e a narrativa? Ela é disciplinada e calma, apresentando bem os personagens e suas motivações, mas principalmente nos ajuda a entender o raciocínio de Poirot. Por mais que possa soar desrespeito a inteligência do espectador usar flashbacks para mostrar informações importantes, o longa cria uma justificativa válida. Como todos são suspeitos e tem alguma ligação, Poirot vai lembrando de gestos, comportamentos e de palavras para concluir o caso e faz sentido a montagem ter essa característica já que é para entendermos o raciocínio do detetive, além de serem vários personagens suspeitos. A trama em si, é muito bem bolada e a resolução do roteiro é surpreendente. O único problema é que o clímax se torna um pouco corrido, evitando que o filme se torne memorável, sendo que a história de Christie se mostra mais forte que o filme de Lumet.

Enfim, Assassinato no Expresso do Oriente é mais um belo exemplo para a invejosa carreira de Sidney Lumet. É um filme de grandes qualidades técnicas e narrativas e um elenco impecável. Faz sentido ter sido um acontecimento na sua época, porque todas os astros se reuniram e fizeram uma poderosa obra.

Assassinato no Expresso do Oriente (Murder on The Orient Express, Reino Unido – 1974)

Direção: Sidney Lumet
Roteiro: Paul Dehn, baseado no livro de Agatha Christie
Elenco: Albert Finney, Lauren Bacall, Jacqueline Bisset, Jean-Pierre Cassel, Ingrid Bergman, Sean Conney, Anthony Perkins
Gênero: Suspense

Duração: 128 min

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