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Crítica | Através da Sombra

Mais uma prova que uma boa realização técnica não é tudo.

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
7 de novembro de 2016 · 4 min de leitura
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“Através da Sombra” é mais um longa que mostra de como o cinema brasileiro está arriscando em determinados gêneros, no caso o suspense psicológico. Mas ele é feliz em sua execução? Mais ou menos, pois temos um filme que tem uma parte técnica muito boa e funcional, mas que tropeça em um roteiro bem problemático e uma direção irregular.

Baseado no livro “A Volta no Parafuso” de Henry James, o longa se passa nos anos 30 e conta a história de Laura (Virgínia Cavendish), uma professora que é contratada por um homem rico (Domingos Montagner), para ser tutora de seus sobrinhos, que moram em uma fazenda no interior do Rio de Janeiro. Chegando ao local, a professora vê que nem tudo é o que parece principalmente por conta do estranho comportamento das duas crianças, Elisa e Antonio (Mel Maia e Xande Valois).

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O primeiro ponto que merece destaque no longa é o trabalho visual, graças a ótima fotografia feita por Pedro Farkas junto com excepcional direção de arte de Clóvis Bueno. Ao usar movimentos de câmera sutis e uma paleta de cores que drenam as cores, a fotografia ajuda a criar a atmosfera junto com os cenários do filme. Vemos um local isolado de qualquer cidade, uma fazenda enorme e um casarão com vários corredores que deixam o clima mais sombrio.

Além de serem muito bonitas, são trabalhos muito eficientes no sentido narrativo, pois toda a noção de ambiguidade que o roteiro tenta passar é feita através da fotografia e pela direção de arte. Diria que o único problema da fotografia está em deixar o ambiente claro demais nos momentos de tensão, mas no geral ela funciona muito bem.

O elenco do filme consegue carregar bem a trama. Virgínia Cavendish cria uma protagonista a qual nos importamos e que tem presença, além da atriz criar sutilezas que completam a personagem. Como a sua repreensão sexual, como vemos ao momento em que ela encontra o personagem de Domingos Montagner. Através de pequenos gestos e olhares, vemos que a personagem tem um desejo oculto, mas que não pode expor. A veterana Ana Lucia Torre consegue criar a personagem mais ambígua do longa. A sua Dina é uma mulher que demonstra muito amor com as crianças, mas aparenta esconder algum segredo. Em quase todos os momentos se percebe que Dina tem alguma coisa por trás da superfície da bondosa governanta da casa.

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Já as crianças vão bem até certo ponto, pois mesmo os dois tendo uma ótima química e aparentam ser irmãos, Mel Lisboa acaba sendo superior a Xande Valois, sendo que o último é que tem a maior responsabilidade do longa. Mel consegue deixar Elisa uma personagem muita mais misteriosa do que Xande com o seu Antonio. Além da garota ter uma ótima presença de tela. Já Xande deixa Antonio como um menino mimado e arrogante, mas raramente ele se torna um personagem realmente misterioso.

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Infelizmente o longa caí muita por conta do roteiro fraco e da direção irregular de Walter Lima Jr.(Os Desafinados). Começa no roteiro, pois falha ao construir o desenvolvimento do mistério. Tudo é feito de maneira muito rápida e que não consegue prender o espectador, além da ambiguidade que falei que é mais mérito da direção de arte e da fotografia do que no texto, pois os personagens que eram pra ser ambíguos são mal construídos. O grande problema está na construção da trama e principalmente no seu final, que tenta ser ambíguo, mas soa como se a trama não se concluísse. Um roteiro muito problemático que acaba tirando o suspense.

Como já foi dito, a direção é irregular, pois alterna entre bons e maus momentos. “Através da Sombra” tem planos lindos e muito bem compostos, que dão vontade emoldurar, que ajudam a criar a atmosfera. Já outros momentos que são risíveis e que não dão medo ou tensão em ninguém. Só se for uma tensão momentânea, mas que não acompanha o resto do filme e fica claro que o objetivo é que esse clima seja constante, mas falha nesse aspecto.

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Outro fator o qual faz o longa falhar nos momentos de suspense é a trilha sonora. Não que ela seja ruim, ao contrário ela é ótima. Só que ela é usada em excesso e serve pra dizer o que o espectador deve sentir em determinados momentos. Além de o diretor deixar ela muito alta nos momentos que deveriam ter silêncio e acaba dando um fim ao suspense. Não é um problema apenas desse filme, mas sim na maioria dos filmes nacionais que usam a trilha como muleta para emocionar o espectador.

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“Através da Sombra” se mostra um projeto ousado, tecnicamente bem feito e com boas sacadas, mas no fim a sensação é que poderia ter sido um filme muito melhor. Vemos boas intenções, mas no cinema isso não é o bastante, é necessário uma boa execução.

Tags: #A Volta no Parafuso #Domingos Montagner #Henry James #Mel Maia #Virgínia Carvendish #Walter Lima Jr.
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