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Crítica | Bad Boys Para Sempre – Um filme de ação perfeito

No grande panteão de franquias de ação dos anos 90/2000, Bad Boys nunca esteve no meu radar. Sendo bem sincero, eu nem mesmo havia assistido por completo qualquer um dos filmes que Michael Bay dirigiu (o primeiro, de 1995, sendo sua estreia no cinema), só tendo o feito como preparo para este terceiro longa, Bad Boys Para Sempre.

Não tendo sido um grande admirador dos dois primeiros filmes, que são divertidos e se beneficiam da dinâmica explosiva de Will Smith e Martin Lawrence, foi uma grande surpresa encontrar neste terceiro filme o grande ponto alto da franquia. É disparado o melhor da trilogia, e também representa tudo o que um bom filme pipoca precisa ser.

Ambientada 25 anos após o primeiro filme, a trama coloca Mike Lowrey (Smith) e Marcus Burnett (Lawrence) lidando com os diversos dilema de estarem em uma nova geração. Marcus só quer uma vida normal de aposentado, enquanto Mike se recusa a assumir que está realmente envelhecendo. Ambas as posições são colocadas em conflito quando uma série de assassinatos, que incluem um atentado contra Mike, faz a dupla se unir novamente para desvendar uma conspiração misteriosa – e inesperadamente pessoal.

O Legado de Jump Street

Não precisávamos de um terceiro Bad Boys. O fato de a Sony Pictures e o produtor Jerry Bruckheimer (que neste ano também traz de volta Top Gun) terem apostado em mais um filme da franquia ilustra a nova fase de Hollywood de capitalizar em cima de nostalgia por propriedades intelectuais do passado, e que geralmente não traz bons resultados. Porém, quando o projeto vem com uma ideia que justifica, analisa e atualiza todos os elementos para sua existência, temos um filme que realmente se torna relevante e necessário: o Marcus e Mike dos dois primeiros Bad Boys são figuras do passado, e o roteiro assinado por Chris Bremner, Peter Craig e Joe Carnahan é excepcional na forma como coloca esses dois dinossauros de uma fase inexistente no complicado mundo moderno.

Os Bad Boys são constantemente questionados sobre sua eficiência e também idade (“Precisamos ser Homens Bons”, ou “Mais pra ‘Bad Old Guys”, dizem alguns dos personagens), em uma estratégia previsível considerando outros grande retornos (Harrison Ford em Indiana Jones e O Reino da Caveira de Cristal, Sylvester Stallone em Rocky Balboa), mas que é executada de forma divertida e leve. O fato de Marcus e Mike agora trabalharem com uma equipe mais jovem e diversa (formada por Vanessa Hudgens, Alexander Ludwig, Charles Melton e a ótima Paola Nuñez) também oferece conflitos e piadas divertidas, especialmente pelo método de trabalho que agora troca socos e tiroteios por hacking, drones e planos mais elaborados. O texto realmente deve muito à paródia brilhante dos dois Anjos da Lei em cima de filmes do gênero, já que este Bad Boys Para Sempre não tem medo de abraçar a metalinguagem e reconhecer seu próprio ridículo em diversos momentos.

Não só eficiente na forma como lida com a atualização da história e seus personagens, o roteiro do trio ainda tem – pasmem – uma ótima e coerente história. Enquanto os dois anteriores testavam a paciência por explorar tramas policiais macarrônicas e excessivamente complexas, Bad Boys para Sempre aposta em algo mais pessoal e palpável, trazendo bons antagonistas nas figuras de Kate del Castillo e Jacob Scipio; que revelam-se também personagens bem melhores trabalhados do que qualquer outro vilão da franquia, além de trazerem reviravoltas bem poderosas em torno de seus respectivos passados. Algumas decisões são apressadas, sim, mas o trabalho de roteiro vai além do que precisava.

Respeite o passado, abrace o futuro

Com uma história sólida e bons arcos para seus personagens garantidos, chegamos ao grande atrativo de um filme de Bad Boys: a ação. Esse é o primeiro filme sem contar com Michael Bay na direção, dando espaço para a dupla belga Adil El Arbi e Bilall Fallah, que surpreendem na função. A dupla traz as homenagens ao estilo de Bay ao manter a escala insana e exagerada da ação (vide a ótima perseguição envolvendo motos, vans e um helicóptero), assim como a câmera quase sempre em movimento – principalmente nos momentos de transição e passagem de cena.

Mas Arbi e Bilall vão além da homenagem e oferecem algo ainda melhor: uma evolução. As cores saturadas e coloridas da franquia estão aqui, mas a direção de fotografia de Robrecht Heyvaert aposta em um equilíbrio mais ameno entre os tons de azul e amarelo, resultando em um trabalho mais próximo daquele feito por mestres como Roger Deakins e, principalmente, Bill Pope – fotógrafo da trilogia Matrix e do cineasta Edgar Wright, cujo trabalho de ação (ver Em Ritmo de Fuga) se destaca como uma das inspirações da dupla. Também é ótimo ver um nítido esforço para ter mais sequências envolvendo dublês e efeitos práticos.

E, claro, temos a dupla protagonista formada por Will Smith e Martin Lawrence. Sempre foi divertido ver a interação cheia de troca de farpas, histeria e camaradagem entre os dois, e ambos os atores abraçam a idade e tornam isso um fator crucial na forma de desempenhar seus papéis. É engraçadíssimo ver o timing cômico de Lawrence em ação, assim como ver um Smith mais desbocado e violento (algo que não vemos o ator fazendo mais com tanta frequência). É mesmo o drama pessoal que Mike e Marcus são forçados a enfrentar que torna a experiência tão fascinante, e garante performances genuinamente excelentes de ambos os atores. E eu não poderia deixar de mencionar Joe Pantoliano, que está histérico como o Capitão Howard, e só neste terceiro filme vira um personagem de verdade graças a um monólogo surpreendentemente efetivo.

Pipoca perfeita 

Contrariando todas as expectativas, o terceiro Bad Boys surpreende por ser tudo o que um bom filme de ação precisa, e até um pouco mais. A dupla protagonista é carismática e explora um território dramático surpreendentemente convincente, ao passo em que a direção aproveita uma boa história e ótimas cenas de ação. Se continuar desse jeito, eu realmente quero que esses Bad Boys fiquem aí para sempre.

Bad Boys Para Sempre (Bad Boys For Life, EUA – 2020)

Direção: Adil El Arbi e Bilall Fallah
Roteiro: Chris Bremner, Peter Craig e Joe Carnahan
Elenco: Will Smith, Martin Lawrence, Joe Pantoliano, Paola Nuñez, Vanessa Hudgens, Alexander Ludwig, Charles Melton, Jacob Scipio, Kate del Castillo 
Gênero: Ação, Comédia
Duração: 124 min

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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