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Crítica | Ben-Hur (2016)

Um conto de Cristo ou Ben-Huehuehue?

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
18 de agosto de 2016 · 8 min de leitura
Crítica | Ben-Hur (2016)

Refazer um dos longas considerados como o maior feito do cinema americano é uma tarefa para poucos – algo que certamente a Paramount arriscou muito ao indicar Timur Bekmambetov na direção deste longa. O clássico épico de 1959 brilha com suas três horas e meia de duração para contar a grande história de Judah Ben-Hur. Já com os remakes sendo vistos com maus olhos, do elenco pífio, da redução de uma hora e meia na projeção e com um diretor para lá de duvidoso, algo salva nessa readaptação do clássico? Por incrível que pareça, o filme tem seus méritos.

Obviamente, os roteiristas ainda se baseiam no livro homônimo de Lew Wallace, mesmo que seja uma interpretação bastante livre no começo. Explorando uma passagem que antecede a história do filme de 1959, acompanhamos a juventude de Judah Ben-Hur e de Messala, seu irmão adotivo. Apaixonado por Tirzah, irmã de Ben-Hur, Messala, sabendo das diferenças de parentesco, nacionalidades e de classe social, decide partir para Roma a fim de fazer parte das legiões romanas em campanha para alcançar o prestígio necessário para um casamento.

Anos depois, Messala retorna à Judeia para conquistar o coração de sua amada, entretanto, tudo dá errado quando Pôncio Pilatos sofre um atentado justamente na rua da casa de Ben-Hur. Conhecendo a sede de sangue de Pilatos, Messala condena toda a família Hur à escravidão. Vivendo por quase uma década nas galés, Ben-Hur jura vingança à Messala por ter destruído sua vida e sua família.

O longa ganha e perde diversos pontos com as comparações ao clássico de William Wyler, porém, até mesmo em sua estrutura relativamente simples, consegue tropeçar ao burocratizar algumas passagens. A escolha de acompanhar uma dinâmica familiar entre Ben-Hur e Messala certamente é um dos pontos altos do filme, mesmo que se valha de clichês já há muito ultrapassados, além de pesar a mão na típica psicologia do oprimido – que se torna agressor, gradativamente – e abusar muito da exposição gratuita para fazer o espectador entender o emaranhado de personagens.

Justamente, por cortarem uma hora e meia de desenvolvimento textual, essa relação acaba prejudicada graças à pressa que o diretor conduz o longa. Todavia, é inegável que se trata de uma sequência inicial competente para estabelecer diversos conflitos, relações, motivações, ideologias e personagens – mesmo que quase tudo isso não seja desenvolvido apropriadamente.

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Graças a essa grande pressa do primeiro ato, introduzindo elementos além da conta, diversas atitudes de Judah acabam não fazendo o menor sentido, pois contradizem suas palavras a todo momento. O personagem é ao mesmo tempo egoísta e altruísta, pessimista e otimista, uma verdadeira bagunça – no filme de Wyller, todos os personagens são muito bem resolvidos.

Além de todo esse grande problema envolvendo a família Hur e Messala, os roteiristas ainda tentam inserir o núcleo dos zelotes, uma seita que se rebela contra a dominação romana e de suas campanhas de expansão. Ainda, nisso, há alguma discussão sobre o papel romano civilizatório e da alienação promovida pelo “pão e circo”, elementos ausentes no filme de 1959. Seria ótimo, caso não fosse apenas uma muleta de roteiro para justificar o destino da família Hur, além de ser um núcleo apressado que aparece, some e reaparece do nada. Ao menos, no clímax do longa, os roteiristas conseguem criar um retrato cômico explorando toda a hipocrisia de grupos que seguem “fortes” ideologias.

Infelizmente, o texto da dupla de roteiristas passa a contar muito com o acaso e na simplificação dos personagens na segunda metade do filme. Ben-Hur vira um retrato ambulante do ódio e da vingança, sua esposa Esther reaparece na trama com facilidade, além de diversos outros acontecimentos importantes surgirem espontaneamente sem a menor conexão narrativa necessária para fazerem sentido. Messala também se torna uma figura antagônica muito simplificada perto do conflito e da introdução que eles haviam apresentado no início do longa.

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Entretanto, nenhuma das rasas situações e da pressa inabalável da segunda parte consegue superar a tremenda mediocridade que banha o apressado epílogo que é totalmente diferente da versão de 1959. Atende um chamado utópico e da necessidade contemporânea de finais açucarados para blockbusters. Ou seja, sim, o filme perde parte da essência da mensagem do clássico.

Porém ainda se trata de “um conto de Cristo”. Dessa vez, abandonando a sutileza de Wyller em tornar Jesus uma figura quase ausente em 1959, Bekmambetov usa o personagem de modo mais incisivo tendo maior participação na história. Ainda há as passagens clássicas dos encontros de Ben-Hur com Jesus, porém o primeiro contato serve apenas para mostrar a descrença de Judah nas palavras do filho de Deus – algo que, novamente, não casa com as decisões do protagonista nos momentos decisivos.

Ao longo do filme, outros relances de cenas com a participação de Cristo surgem, além de outros personagens do filme orbitarem a importância de sua figura. Aliás, alguns conflitos também têm origem por conta dessas novidades. Mesmo que interessantes, é curioso como tudo se resolve em passes de mágica, sem a menor vontade ou esforço do time roteirista, além da filosofia do desapego que os personagens parecem seguir – principalmente entre Esther e Judah.

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É evidente que Timur Bekmambetov não é nenhum William Wyller. Contando apenas com o bom O Procurado e o abismal Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros como grandes projetos, a escolha de seu nome não poderia ser mais inusitada e bizarra, afinal Ben-Hur deveria ser um projeto para diretores mais contemplativos, de bons dramas, fugindo bastante da vertente da ação descerebrada de Bekmambetov.

Dito e feito, enquanto as duas grandiosas sequências de ação brilham e marcam os pontos altos desse filme, todo o necessário desenvolvimento das cenas dramáticas falha miseravelmente. A abertura do filme já sofre com o estilo frenético de decupagem repleto de shaky cams, as famosas câmeras tremidas em seu próprio eixo. Bekmambetov, nesse primeiro segmento, também tem uma mania bizarra de enquadrar elementos totalmente alheios à ação da cena para fazer um falido ponto de corte.

Nesse ritmo intenso de decupagem e bombardeio visual, raramente Bekmambetov segura os planos do longa por mais tempo gerando algum momento de contemplação – mesmo que o filme exija isso. Toda a elegância cinematográfica, a escala colossal dos enquadramentos fantásticos auxiliados pelo filme Super 70, o ritmo memorável de diversas cenas do clássico de 1959 se perdem nas mãos do remake.

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Entretanto, quando finalmente as duas grandiosas sequências de ação aparecem, Timur Bekmambetov consegue mostrar o que faz de melhor. Toda a sequência das galeras é visceral, com tons adequados da fotografia, além da escolha muito interessante de diversos pontos de vista que o diretor utiliza para construir o primeiro ponto alto de seu filme. É particularmente muito interessante a escolha de toda a ação externa, das guerras entre as galeras, nunca ser mostrada devidamente. Acompanhamos tudo a partir dos porões onde os escravos são confinados aos remos. O resultado final é absurdamente fantástico.

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A histórica sequência do clímax, da corrida das bigas de William Wyller ainda se sustenta até hoje. O ritmo da montagem é adequado, a ação é estupenda, a decupagem perfeita e os efeitos visuais impressionantes. Talvez, somente por ela, já renderia os merecidos onze Oscar. Logo, a expectativa para ver como essa mesma sequência seria feita em 2016 e todo o poderio tecnológico possível era imensa.

Como o trabalho de Wyller é plasticamente perfeito, Bekmambetov consegue, ao menos, criar uma sequência tão boa quanto. O diretor recusou os efeitos visuais e apostou na exuberante quantidade cavalos reais em cena. É uma grandiosa cena que merece ser vista na melhor tela possível – indico o IMAX. O diretor fez o sequenciamento visual de modo excelente, respeitando as lógicas do jogo. Ainda temos os cavalos pretos de Messala correndo contra os cavalos brancos de Ben-Hur.

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A tensão é envolvente, a violência continua a impressionar, os efeitos sonoros e de mixagem, impecáveis. A sequência do remake não deve nada para o clássico de 1959. Enquanto Bekmambetov impressiona com a ação estupenda do longa, ele praticamente esquece o trabalho com o elenco que é verdadeiramente péssimo.

O protagonista, Jack Huston, até que consegue segurar o filme, mas também parece perdido com as decisões incoerentes que Ben-Hur toma a todo momento. Rodrigo Santoro faz Jesus no piloto automático apostando em olhares caramelizados e expressões de serenidade. Já Toby Kebbel tem a pior performance com Messala, um personagem que exige atuações fortes que o ator não entendeu muito bem. Dos coadjuvantes, Pilou Asbaek é o pior com seu tosco Pôncio Pilatos. Assim como Santoro, Morgan Freeman reprisa papéis anteriores mantendo apenas uma postura mais austera com seu Ilderim.

O novo Ben-Hur funciona perfeitamente bem apenas como entretenimento descartável e comum, apesar de suas duas sequências de ação espetaculares. A pressa em contar uma história gigantesca prejudicou toda a narrativa deste remake que busca modernizar ao inserir diversos temas que não eram abordados na versão de 1959.

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Com toda essa pressa, eventos que atropelam uns aos outros, além das soluções arbitrárias dos roteiristas, a grandiosa jornada de Judah Ben-Hur toma ares de telenovela, sem impressionar ninguém com seu desfecho açucarado. Se tivessem levado o projeto mais à sério, tendo escolhido nomes verdadeiramente importantes para conduzir o filme, talvez teríamos um clássico moderno e não apenas esse bom filme que somente se sustenta graças a força do livro de Lew Wallace e de suas grandiosas cenas de ação.

Ben-Hur (idem, EUA – 2016)

Direção: Timur Bekmambetov
Roteiro: Keith R. Clarke, John Ridley e Lew Wallace (Livro)
Elenco: Jack Huston, Toby Kebbell, Rodrigo Santoro, Nazanin Boniadi, Ayelet Zurer, Pilou Asbæk, Sofia Black-D’Elia, Morgan Freeman, Marwan Kenzari
Gênero: Ação, Aventura, Drama
Duração: 123 min.

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Tags: #Jack Huston #Morgan Freeman #Pilou Asbæk #Rodrigo Santoro #Toby Kebbell
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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