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Crítica | Cidade dos Sonhos

Cidade dos Sonhos é o pináculo da carreira de David Lynch. Todos os temas que haviam sido abordados e todas as experimentações

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
20 de junho de 2017 · 5 min de leitura
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No final da década de 1990, após o sucesso de História Real, David Lynch fechou contrato com a ABC para a criação de uma série de televisão. Depois do sucesso atingido pelo cineasta na sua primeira experiência televisiva, o seriado Twin Peaks, algumas emissoras estavam ansiosas por estabelecer uma parceria. Quando isso aconteceu, a ABC não podia ter ficado mais feliz. Porém, o piloto foi filmado, e a decepção dos executivos foi gigantesca. De acordo com eles, o ritmo era muito lento, e as atrizes (Naomi Watts e Laura Elena Harring), muito velhas. Assim, a parceria acabou sendo cancelada. No entanto, dois anos depois, Lynch faria das cinzas de seu projeto malogrado a maior obra-prima da sua carreira: o longa Cidade Dos Sonhos. 

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Como o piloto, o filme também começa com uma tentativa de assassinato da qual uma anônima (Laura Elena Harring) – que virá a ser chamada posteriormente de Rita – consegue escapar. Sofrendo de amnésia, ela acorda numa casa que está momentaneamente ocupada pela aspirante a atriz Betty (Naomi Watts). Juntas, as duas iniciam uma investigação para descobrir a identidade da primeira e quem são as pessoas que a estão perseguindo. Paralelamente, o filme também acompanha as idas e vindas de Adam (Justin Theroux), um jovem diretor de Cinema obrigado a escalar no seu filme uma atriz que não lhe agrada.

Muito se diz sobre a inacessibilidade de Cidade Dos Sonhos e de como o filme é confuso. Todavia, embora os dois primeiros atos contenham passagens enigmáticas, uma trama misteriosa e cenas, aparentemente, desconexas do todo, eles são fáceis e prazerosos de serem acompanhados. A ignorância sobre o que está realmente acontecendo, a atmosfera tenebrosa e o charme dos personagens são suficientes para prender o espectador à cadeira. Os segredos da história são manipulados com enorme destreza pelo diretor, e as respostas, quando dadas, surgem nos momentos corretos, satisfazendo o público, mas deixando-o ansioso pelos próximos passos.

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Ainda no primeiro e segundo atos, também há a necessidade de destacar os diferentes tons e climas adotados por Lynch. Apesar de a fotografia de Pete Deming se manter sem vida e quase “caseira” por toda a narrativa, Lynch contrasta a história de Rita e Betty com a de Adam. Enquanto a primeira é detetivesca e flerta com vários elementos típicos do Noir (o longa Gilda é uma constante referência), a segunda é deliberadamente cômica e cartunesca. Reforçada pela eclética trilha sonora de Angelo Badalamenti, essa narrativa dupla, no entanto, não é uma opção arbitrária do diretor. No terceiro ato, no momento em que a história é, enfim, explicada, a justificativa paras essas alterações é perfeitamente condizente dentro do contexto.

Aliás, no que diz respeito ao terço final do filme, essa parte, sim, pode ser considerada confusa, embora seja evidente a conclusão da história. As explicações começam a ser dadas na cena que se desenrola no clube “Silêncio” – o melhor e mais impactante momento do longa. Inicialmente, elas são enigmáticas e, principalmente, simbólicas. É somente depois, quando ocorre uma série de elipses não cronológicas, que elas se tornam mais concretas e evidentes. Propositalmente, Lynch coloca objetos, como uma chave azul, para situar o espectador na ordem temporal dos eventos. Depois disso, tudo fica claro através dos diálogos.

Ou seja, o diretor se apropria de diferentes ferramentas para finalizar a sua história. Cidade dos Sonhos é um filme construído sobre simbolismos. Quase todas as coisas vistas estão abertas para interpretação. Mas Lynch não se restringe a isso. Encontrando outras maneiras de passar as mesmas informações (em qualquer outro filme, isso poderia ser entendido como redundância, mas, dada a complexidade deste longa, esse zelo se torna necessário), Lynch usa todos esses artifícios para fazer algo que é rotineiramente esquecido por muitos cineastas vanguardistas: os experimentos com a linguagem devem existir somente quando são exigidos pela história.

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Claramente, o penúltimo longa de Lynch é um filme sobre sonhos. Mas não estou falando dos sonhos que temos quando fechamos os olhos e sim daqueles que temos quando os nossos olhos estão plenamente abertos. Situada em Los Angeles, uma cidade que abriga todos os tipos de aspirações profissionais, pessoais e amorosas, a história é um conto melancólico sobre sonhos que se tornam pesadelos, além de abordar, cruelmente, a indiferença da máquina hollywoodiana. Pois, se há algo que também está no coração de Cidade dos Sonhos, este algo é Hollywood. Enquanto alguns poucos são selecionados para se tornarem estrelas no céu cinematográfico, outros milhões são simplesmente abandonados.

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Com um final de partir o coração (a palavra “silêncio” nunca ressoou tão alto como nos últimos segundos deste filme) e revelando ao Mundo três atores talentosos (Naomi Watts, Laura Elena Harring e Justin Theroux) que iriam construir carreiras sólidas nos Estados Unidos (com a exceção de Harring, que, estranhamente, sumiu), Cidade dos Sonhos é o pináculo da carreira de David Lynch. Todos os temas que haviam sido abordados e todas as experimentações que haviam sido feitas nos longas anteriores atingem, neste filme, a perfeição. Com esta obra, o diretor entrou para sempre no panteão dos grandes cineastas norte americanos. Poucos realizaram algo tão sublime quanto Cidade dos Sonhos.

Cidade Dos Sonhos (Mulholland Drive, EUA – 2001)

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Direção: David Lynch
Roteiro: David Lynch
Elenco: Naomi Watts, Laura Elena Harring, Justin Theroux, Robert Forster, Mark Pellegrino, Michael J. Anderson, Ann Miller, Angelo Badalamenti, Melissa George, Monty Montgomery
Gênero: Suspense, Drama
Duração: 147 minutos

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Tags: #Angelo Badalamenti #Cidade dos Sonhos #Cinema #crítica #David Lynch #Filme #Justin Theroux #Laura Elena Harring #Naomi Watts
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