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Um dos filmes mais polêmicos e amados da velha Hollywood, Crepúsculo dos Deuses, dirigido e roteirizado pelo excelente diretor Billy Wilder já mostra a que veio logo no início do filme. Essa obra prima cinematográfica procura criticar o método de Hollywood fazer cinema e tratar seus funcionários. Com uma trilha de arrepiar composta por Franz Waxman eis que somos mostrados a avenida onde ocorreu “um assassinato que você provavelmente ouvirá falar no radio, na televisão ou lerá no jornal pois uma estrela das antigas está envolvida, uma das maiores. ”. Com uma vista panorâmica de toda a rua, vemos carros chegando, detetives e pessoas da imprensa para investigar o que foi que aconteceu.

Pouco depois o filme volta no tempo e somos apresentados ao protagonista, Joe Gyllis, interpretado por William Holden, um roteirista endividado, prestes a perder seu carro, coisa que não pode ocorrer de jeito nenhum pois seria o mesmo que perder as duas pernas. O filme mostra logo depois uma entrevista que o roteirista tem com o produtor, Sheldrake (Fred Clark) muito interessante pois podemos conhecer mais do universo de Hollywood. Aqui conhecemos também Betty Schaefer, que trabalha no departamento de leitura, que não gostou do roteiro apresentado por Gyllis e comenta isso com o produtor com Gyllis ali, sem perceber que ele era autor, isso cria um atrito entre esses dois personagens muito interessante que é muito bem desenvolvido ao longo do filme.

Mas o filme começa mesmo assim que Gyllis fugindo dos cobradores, tem um pneu estourado e tem que achar algum lugar para esconder o carro, ele acha uma garagem aparentemente abandonada, mas na verdade é a garagem da mansão de Norma Desmond (Gloria Swansom) uma atriz que estava muito em alta na época do cinema mudo, mas na nova era do cinema, com diálogos, música e cor ela foi praticamente esquecida.

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 Swansom dá um show de atuação, acredito que pelo fato de ela estar passando pela mesma situação da personagem (a atriz também era uma personalidade do cinema mudo que desapareceu por um bom tempo) pode ter ajudado a se relacionar. No início ela passa uma sensação de uma pessoa decidida, que sabe o que quer e lutará até o fim para consegui-lo, mas aos poucos se mostra uma pessoa solitária, infeliz e por vezes insegura e que guarda no fundo de sua alma a pior de todas as depressões. Desmond é acompanhada de seu mordomo, Max Von Mayerling (Erich Von Stronheim), que descobrimos ao longo da trama que tem grandes segredos. O ator passa muito bem o quanto o personagem se importa com Norma e faz tudo ao seu alcance para garantir seu bem-estar.

Gyllis é confundido com um funcionário de funéria no inicio, Desmond mostra a ele um macaco, seu bichinho de estimação que ela gostaria de enterrar, essa cena é um simbolismo indicando que Gyllis seria seu novo “bichinho de estimação”. Após Desmond descobrir que Gyllis é um roteirista ela o convence a se hospedar em sua mansão e ajudá-la a reescrever um roteiro que ela planeja há muito tempo chamado Salomé, querendo que Cecil B. Demille dirija. Assim antes que perceba, Gylis está preso naquela mansão, preso a Desmond, como é mostrado simbolicamente em uma cena que Gyllis fica de saco cheio e tenta sair, mas a corrente da roupa fica presa na porta.

Começa um relacionamento entre Gyllis e Norma que se apaixona perdidamente por ele. Logo esse relacionamento se torna um triangulo, ou melhor, dizendo, um quadrado amoroso já que Gyllis conseguindo fugir algumas noites encontra-se com Betty Schaefer que está noiva de Artie Green (Jack Webb), um diretor assistente. Na ausência de Artie, Gyllis e Betty vão se aproximando cada vez mais, num romance que a meu ver está mais para um elemento secundário do filme, mas que funciona muito bem, pois os dois atores têm uma certa química que é impressionante.

Há uma cena em que Norma Desmond diz a icônica frase “Eu sou grande, os filmes é que ficaram pequenos”. Desmond é a maior crítica que esse filme faz a Hollywood em geral, o esquecimento, a depressão que se segue após isso, a vontade e a crença de que voltará a ser amada pelas pessoas é o que a motiva a viver, ela está a todo momento implorando por amor. Em outra cena, ela está no estúdio da Paramount observando a gravação de um filme de Cecill B. Demille (Interpretado por ele mesmo) quando é reconhecida por um dos operadores de luz que a cumprimenta e coloca a luz em direção a ela, as pessoas no set a reconhecem e “a veneram” assim ela tem o seu momento de glória, certamente um dos momentos mais felizes da personagem, cena muito bem construída que deixa bem claro que ela vive uma ilusão.

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É interessante perceber que o real tema do filme é o oportunismo, todos os personagens são oportunistas, O protagonista do filme, por exemplo, tem uma moral questionável, se aproveita de Norma Desmond (Ela por sua vez faz o mesmo) e ainda “rouba” a noiva de seu amigo Artie. Pessoas oportunistas estão presentes em todas as linhas de trabalho e não duvido que na indústria cinematográfica se faça presente, pois é um trabalho muito ligado ao orgulho e a vaidade. O filme envelheceu bem, pois os problemas nele apresentados não desapareceram, pelo contrario, só se agravaram.

Billy Wilder que era conhecido por seguir o roteiro sem dar espaço nem para que seus atores improvisem, sentiu-se forçado a cortar uma cena do filme que se passaria em um necrotério, mas essa mudança foi claramente para melhor, pois tivemos a instigante abertura que felizmente foi para o produto final. Talvez algumas pessoas considerem que o único defeito neste filme é a previsibilidade, mas o filme em nenhum momento tem a intenção de esconder qualquer coisa do espectador, tanto é que já começa pelo final já mostrando o destino do personagem principal.

Sem mais delongas o filme tem direção, roteiro, atuações e trilha impecáveis somados ao tema relevante que aborda não merece menos que a nota máxima.

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