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Crítica | Destacamento Blood – Spike Lee e as Tragédias Raciais

Spike Lee é um lendário cineasta conhecido por filmes extremamente necessários para o entendimento político da história – ainda mais no tocante às questões raciais. Ao longo de sua carreira, Lee entregou obras-primas cinematográficas, sendo última o irretocável Infiltrado na Klan, subestimado nas premiações em vista de um conservadorismo branco que, mesmo no século XXI, continuam a acontecer. Mais do que isso, o diretor sempre se mostrou pronto para denunciar injustiças sociais, usando sua influente voz para se posicionar e nunca se importando com as consequências (motivo pelo qual nutro de um crescente respeito para seu trabalho). E, em 2020, em meio a um retorno à barbaridade de supremacistas, traduzidas nos últimos acontecimentos que envolveram o brutal assassinato de George Floyd por um policial branco, ele lançou um dos melhores e mais importantes longas-metragens do ano: o visceral Destacamento Blood.

Desenrolando-se ao longo de duas horas e meia de um incisivo ensaio antropológico e sociológico, a produção, lançada na Netflix em pleno Dia dos Namorados, não deixa que nenhuma de suas sequências seja colocada em vão ou de modo fragmentado; através de uma direção que flerta com o estilo documentário e que revisita as consequências da infame Guerra do Vietnã e do neoimperialismo promovido pelos Estados Unidos (e mantido pela figura inescrupulosa de Donald Trump), cada investida é parte de algo muito maior, utilizando símbolos próprios da luta de classes embebidos em cada personagem. No geral, a narrativa gira em torno de um grupo de quatro ex-veteranos de guerra que retornam para o território vietnamita para reaverem o corpo de um colega morto em combate – e quase 17 milhões de dólares em barras de ouro para a causa preta.

Trazendo peças documentais chocantes e arrepiantes, a obra é uma dramatização trágica e quase shakespeariana para a carreira de Lee. Divergindo da mistura de gêneros que explorou anteriormente, o cineasta prefere nos bombardear com uma série de monólogos intimistas e denunciadores, fugindo do escapismo melodramático para uma engrenagem que ultrapassa o nível social e atinge o político com força descomunal. É a partir daí que somos apresentados ao apaixonante grupo formado por Otis (Clarke Peters), soldado-médico que porta-se como um líder nato; o irreverente Eddie (Norm Lewis), que prefere esquecer de sua vida em combate para seguir em frente; o desbocado e astuto Melvin (Isiah Whitlock Jr.); e Paul (Delroy Lindo), um dos personagens mais complexos e controversos da indústria audiovisual dos últimos anos.

Apesar de toda a trama sempre se voltar para a recuperação do corpo de Norman (Chadwick Boseman em uma fantástica atuação em flashbacks), fica logo claro que o protagonista é, essencialmente, Paul. Do começo ao fim, o instigante roteiro também supervisionado por Lee não deixa claro quais são suas intenções e o motivo de sua persona ser tão circinal: fica claro que sua Síndrome do Estresse Pós-Traumático é o motivo por ele desejar com tanto afinco se aventurar nas perigosas selvas vietnamitas, enfrentando pessoas tão assustadas quanto que foram pintadas de “inimigos” por uma sociedade que nem ao mesmo lutou suas próprias batalhas, enviando os descendentes de Jamestown, Virgínia para a guerra. Mas isso não é tudo: Paul deseja enfrentar seus demônios interiores e encontrar fechamento quanto a tudo que aconteceu (em uma reviravolta chocante que não se mostra até o terceiro ato).

Porém, o ex-soldado não é retratado como um herói. Tendo como guias seus companheiros bélicos, ele sofre ao superar a morte da esposa, descontando sua frustração e seu luto no filho David (Jonathan Majors), que tenta ao máximo se reconectar com o pai. Além disso, ele parece sofrer de uma espécie de distúrbio simpático ao ter votado em um governo racista, parecendo nutrir de uma “amizade” inexplicável por seus próprios agressores (Lee até mesmo faz uma sagaz piada no primeiro ato com essa incabível ideologia). Entre inúmeros erros e um complexo de salvador que fala mais alto que a própria segurança, Paul eventualmente encontra o que procura e se vê pronto para ir de um jeito glorioso: defendendo o que sempre acreditou em um discurso metalinguístico aplaudível.

Afastando-se de quaisquer métodos formulaicos e panfletários – como já foi visto incansavelmente em dramas de guerra repetitivos e bastante romantizados -, Lee é a peça central de um complicado jogo de explanação e de denúncia, mantendo-se fiel a uma identidade estética que tangencia a perfeição cinematográfica e acrescenta um novo capítulo à sua filmografia. O diretor se vale de planos-sequências e o campo-contracampo tradicional da esfera cinematográfica, distorcendo nossas expectativas em arcos flutuantes e ambíguos – mesmo que se valha de certas previsibilidades. Porém, os pontuais deslizes, que se estendem para uma ambígua e quase pedante trilha sonora, não têm voz frente à grandiosidade desse ensaio crítico.

Destacamento Blood é um soco na boca do estômago que, assim como tantas atrocidades que vemos com constância mais assustadora que o normal na mídia, não nos dá tempo para respirar antes do próximo golpe. Lee novamente prova que é um realizador com urgência imprescindível para os dias de hoje com uma joia deliberada e necessariamente violenta.

Destacamento Blood (Da 5 Bloods – Estados Unidos, 2020)

Direção: Spike Lee
Roteiro: Spike Lee, Danny Bilson, Paul De Meo, Kevin Willmott
Elenco: Delroy Lindo, Jonathan Majors, Clarke Peters, Norm Lewis, Isiah Whitlock Jr., Mélanie Thierry, Paul Walter Hauser, Jasper Pääkkönen, Jean Reno, Chadwick Boseman
Duração: 155 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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