Crítica | DIA D leva imaginário ufológico de rede social para as telas em forma de blockbuster
Spielberg filma OVNIs com o espírito das redes sociais e entrega menos que A Chegada — muito menos.

Se alguém perguntasse a si mesmo quanto o cinema norte-americano da grande indústria piorou num intervalo de 10 anos, talvez a melhor forma de ilustrar o retrocesso seria comparar dois filmes do mesmo gênero (a ficção científica) com um tema em comum (a presença na Terra de seres de outro planeta) e orçamentos praticamente idênticos: Denis Villeneuve realizou A Chegada em 2016, uma década antes de DIA D, dirigido por Steven Spielberg que estreia agora em junho de 2026. Não tem como colocar lado a lado filmes tão distintos (e com diferença de qualidade artística facilmente perceptível) sem pensar nessa mudança para pior.
Como se sabe, esta não é a primeira vez que Spielberg aborda o mesmo universo de referências. Ele já dirigiu quatro filmes sobre alienígenas e interação espacial. O primeiro deles, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, é uma fabulosa e imaginativa aventura tipicamente setentista, de concepção cênica deslumbrante. E.T. – O Extraterrestre é a fantasia familiar escapista perfeita, que fez do cineasta um dos realizadores mais populares da história. Guerra dos Mundos, por sua vez, é uma aventura de ação brutal e ritmo atordoante, com três ou quatro cenas que facilmente estariam entre as melhores de todos os tempos em seu gênero.
Dia D, porém, está longe dos três, e é um filme muito pior que A Chegada, por exemplo. Mas não apenas isso: ele evidencia exemplarmente a crise dramatúrgica da grande indústria, que aparentemente desiste de uma abordagem “literária” consistente do enredo (no caso do filme de 2016) e se rende ao carrossel de banalidades comum ao ambiente de redes sociais, pois é de lá (e do tipo de “cultura” que elas replicam) que Dia D retira seu material. Assistir ao novo filme de Spielberg é como se expor a um feed repetitivo direcionado pelo algoritmo a quem se interessa por conspirações, paranoia social e todo o besteirol ufológico disfarçado de “pesquisa investigativa”.
Enquanto A Chegada lida com hipóteses realistas de um eventual contato com visitantes de outro planeta (e, para funcionar, deixa de lado o folclore popularesco com humanoides cabeçudos), Dia D faz o caminho oposto, e tenta reunir numa mesma linha de pensamentos todas as abobrinhas sobre OVNIs que se repetem mecanicamente em fóruns de internet, Youtube e canais por assinatura.
Estão presentes nele praticamente todos os lugares-comuns que já vimos tantas vezes em seriados como Arquivo X e mesmo em outros filmes (onde, espantosamente, funcionam melhor) como Contatos de 4º Grau (num recorte de horror), Independence Day (aventura descompromissada) e Presságio (sobrenatural e mitológico).
Mas por que tais elementos funcionam tão mal no novo filme de Spielberg? O maior problema está claro: o roteiro (do experiente David Koepp e contribuição do diretor). Enquanto A Chegada se apresenta como uma tapeçaria minuciosa em que cada fio é delicadamente ligado a outro, levando o espectador a uma jornada provocativa intelectualmente, o enredo de Dia D trabalha com um material tão conhecido e banalizado que é até difícil falar em “spoilers”: tudo que irá acontecer está mais ou menos proposto desde o início. Há pouca surpresa no trajeto e no desfecho. Alguém tem muita dúvida de que tipo de “evento” teria acometido os dois protagonistas em suas infâncias, por exemplo?
Na trama, Daniel Kellner (Josh O’Connor) é um ex-presidiário cujos talentos como hacker o levam a ser recrutado por uma corporação misteriosa e ligada a assuntos de segurança nacional. Ele decide roubar um conjunto revelador de arquivos e fugir acompanhado da namorada (Eve Hewson), uma ex-noviça, enquanto é auxiliado remotamente por Hugo Wakefield (Colman Domingo), que aparentemente comanda uma rede de resistência contra a corporação e disposta a revelar seus segredos.
Enquanto isso, a jornalista do clima Margaret Fairchild (Emily Blunt) experimenta alguns eventos sobrenaturais em seu cotidiano e passa ser perseguida pela mesma corporação liderada por Noah Scanion (Colin Firth), até que sua história se cruza com a de Daniel. Entre eles, a presença de um MacGuffin hitchcockiano com propriedades sobrenaturais e que funciona como uma espécie de Bombril alienígena que, para o enredo, tem mil e uma utilidades.
Se o roteiro é pobre em sua estrutura e pouco se aprofunda na psicologia ou biografia dos personagens, algumas cenas vistas em separado beiram o constrangimento. Os roteiristas atropelam maiores dificuldades que a história poderia propor a si mesma (exatamente o oposto de A Chegada, que investe nisso) e se saem com soluções artificiais, sem as quais a história dificilmente chegaria aonde eles pretendem: telepatia e dom da invisibilidade são duas das ferramentas ridículas dentro do contexto e que o filme usa livremente, especialmente porque sabe estar lidando com uma grande parcela da audiência predisposta a aceitar qualquer coisa que corrobore (ainda que por linhas tortas) sua crença arraigada de que somos visitados por alienígenas e “eles” (eles quem?) escondem tal verdade e perseguem quem pretende divulgá-la, ainda que só se fale disso livremente o tempo todo na internet, na TV, no próprio cinema, etc.
O desprezo do filme pela verossimilhança não é, como se percebe, uma exclusividade, mas muito mais um retrato do cinema que Hollywood pratica hoje. O espectador mais exigente se fará perguntas que o filme não tem interesse de responder: na cena bizarra dos “homens de preto” no hospital, por que eles não seguem a protagonista quando ela foge pelos fundos e fica 10 minutos parada no estacionamento? Não são agentes secretos altamente treinados? Por que agem de forma tão estúpida?
Da mesma forma, fica difícil engolir que uma estrutura corporativa tão sofisticada de acobertamento e vigilância deixe os personagens principais escaparem tão facilmente, e tantas vezes, sem que sejam localizados pelo GPS nativo de seus carros, por exemplo.
Ou por que o “perito em T.I.” responsável por carregar os arquivos secretos decide compartilhá-los por sinal de TV aberta (estamos em 1995?), e não carregá-los facilmente na internet, quando seriam imediatamente recebidos e copiados, sem qualquer chance de desaparecerem ou de a transmissão ser interrompida por “falta de luz”? Ridículo que uma produção deste tamanho seja tão displicente na trama.
Na verdade, esses pontos apenas evidenciam uma visão pueril e superficial de Spielberg a respeito do universo da ufologia: ele aparentemente acredita no “Caso Varginha”, já desacreditado por pesquisadores independentes, e oferece Roswell como uma das “revelações” do filme, quando hoje se sabe tratar-se apenas de um balão que desencadeou todos os boatos. Isso conduz o filme a repetir lugares-comuns e uma ideia artificial de “revelação” que, na verdade, poupa governos e autoridades ao optar pelo vilão anódino e corporativo genérico.
Até mesmo o conflito “filosófico” proposto (a habitual contraposição entre “fé” e “ciência” diante da descoberta de vida extraterrestre) já se encontra razoavelmente superada, tendo sido substituída por uma outra contraposição: entre a “ciência conhecida” e uma “ciência paralela”, a única que poderia explicar viagens entre planetas tão distantes e que consumiriam uma quantidade de energia irrealista pelo que se conhece até hoje.
O melhor de Dia D é a excelência técnica, que se manifesta especialmente na cena do trem e, ao longo do filme todo, no registro inconfundível da iluminação de Janusz Kaminski, exercitando seu estilo habitual repleto de textura e altas luzes. Mas mesmo a encenação (marca registrada do diretor) é tímida, como se fosse rebaixada ao nível da “discussão” superficial que o filme propõe ao ser capturado (e, de certa forma, capturar de volta) o espírito do tempo: uma mistura pouco criativa de escapismo, paranoia e pseudociência ufológica que, entretanto, deve atrair aos cinemas uma legião de curiosos desinformados.
Depois de Dia D, será que Spielberg planeja um filme sobre reptilianos? Ou até mesmo sobre o “OVNI de Campo Largo”? Por favor, não, Steven.