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O fato de que, em pleno 2016, podemos entrar no cinema e encontrar um novo filme de Paul Verhoeven não é algo que deve ser subestimado. Indubitavelmente um dos nomes mais provocantes e marcantes que já passou pela Hollywood dos anos 70-90, o cineasta holandês redefiniu conceitos importantes do blockbuster em Robocop e O Vingador do Futuro, além de ter empurrado as barreiras da sexualidade no cinema mainstream com Instinto Selvagem e – independente da qualidade – o massacrado Showgirls. Há mais de uma década que não víamos algo de peso de Verhoeven (depois  de  A Espiã, o cineasta voltou à Holanda para Steekspel), mas agora o autor retorna no controverso Elle, que também é o representante oficial da França para uma vaga no Oscar.

Adaptada do romance Oh…, de Philippe Dijan, A trama começa brutalmente ao nos apresentar à Michèle (Isabelle Huppert) sendo estuprada por um invasor em sua casa. Ela tenta lidar com as consequências do ato e encontrar o responsável, que pode estar relacionado à sua vida pessoal, marcada por um passado violento e polêmico envolvendo seu pai presidiário, ou profissional, onde chefia com sua amiga Anna (Anne Consigny) uma desenvolvedora de games que trabalha pesado para lançar um novo produto.

Esse é apenas o básico para entender Elle, que mergulha em diferentes narrativas e ramificações ligadas à vida da protagonista, que no melhor estilo Verhoeven, é bem longa do convencional. Logo de início já somos jogados a uma história peculiar quando vemos a reação de Michèle ao estupro, levantando calmamente e arrumando a louça quebrada durante a ação; quase como se o ato violentíssimo não tivesse ocorrido (o plano onde Michèlle está nua na banheira e a espuma branca lentamente preenche-se com sangue é fabuloso), e a partir daí vemos como a protagonista é forte e praticamente indestrutível – nunca ao ponto de tornar-se uma figura idealizada, muito pelo contrário. Nas mãos de Isabelle Huppert, temos uma das personagens mais versáteis e fascinantes do ano, seja em sua habilidade de virar a mesa contra virtualmente qualquer pessoa ou assumir o controle de uma situação com facilidade, Michèle é um trem expresso que nos dá prazer e até divertimento de se observar, e a veterana atriz francesa merece todos os créditos do mundo por sua atuação sarcástica, afetiva e carismática. 

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O texto de David Sirke é habilidoso ao fazer de Michèlle uma personagem absolutamente multifacetada, e pode-se dizer que este é o grande foco de Elle: as dimensões de seus personagens, que são todos muito bem construídos e desenvolvidos ao longo da narrativa. Sirke vai lentamente nos revelando os eventos que marcaram o passado da protagonista e o motivo exato de seu pai estar na cadeia, é algo extremamente bem conduzido por Verhoeven em uma narrativa perfeitamente capaz de envolver o espectador. As reviravoltas são intensas e até abraçam uma atmosfera novelesca, também pontuada pela trilha sonora exagerada de Anne Dudley, que faz questão de comentar com dramaticidade diversos pontos chave da história – e é uma breguice muito bem vinda aqui.

As subtramas também preenchem com perfeição o universo de Elle, a começar por Vincent (Jonas Bloquet), o abobado e inseguro filho de Michèle que se vê preso a um iludido relacionamento com Josie (Alice Isaaz), uma jovem um tanto desequilibrada e manipuladora; ver a relação dos dois Michèle garante ótimos momentos de alívio cômico, especialmente quando a gravidez de Josie traz um resultado inesperado. A vida sexual da protagonista é outro ponto delicado, e onde reside um dos aspectos mais controversos de Elle: além de manter um caso com o marido de Anna (Christian Berkel), manter um flerte com o vizinho casado Patrick (Laurent Lafitte) e uma relação surpreendentemente apaziguada com seu ex-marido, Richard (Charles Berling), é curioso como Michèle está estranhamente atraída por seu agressor. É um tema extremamente complexo e cabeludo que Verhoeven e Sirke abordam de forma eficiente e que faz sentido da trama, que acaba direcionada para questões de voyeurismo e até masoquismo.

É uma narrativa que definitivamente não deve agradar a todos, especialmente por essa estranheza e olhar clínico sobre decisões inusitadas, mas que certamente deve chamar a atenção da maioria. Por exemplo, o fato de termos tantas subtramas é benéfico para garantir dimensão e personalidade a absolutamente todos os personagens do longa, mas também garante que muitas linhas acabaram inconclusivas ou resolvidas abruptamente – o passado violento da protagonista, por exemplo, é praticamente abandonado quando o espectador descobre o que de fato aconteceu ali, assim como a resolução do conflito entre Michèle e um de seus empregados.

Elle é um retorno eficiente e forte para Paul Verhoeven, que vê na ótima Isabelle Huppert a chance de criar uma personagem multifacetada e mergulhá-la num universo estranho e fascinante, rendendo uma das experiências mais interessantes do ano. Só o fato de termos uma nova adição à filmografia peculiar de Verhoeven já é motivo de celebração.

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